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sexta-feira, junho 19, 2026

Nem a saúde escapou do corte

Entre milhões anunciados, leitores atentos e uma vogal desaparecida, o verdadeiro furo acabou surgindo onde menos se esperava: na palavra mais importante do outdoor

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Valfrido Silva

Quando publiquei hoje de manhã o post sobre a propaganda contraproducente das emendas parlamentares, confesso que não enxerguei o detalhe. Nem eu. Nem leitores atentos. Nem a editoria de silício. Nem os especialistas em orçamento público. Nem os estudiosos da ciência política. O furo estava ali, gigantesco, estampado no outdoor, bem diante dos nossos olhos.

A placa anunciava três milhões de reais para a saúde de Dourados. Uma cifra respeitável. Daquelas capazes de ocupar mais espaço que o nome do parlamentar, mais espaço que a fotografia e, às vezes, mais espaço que a própria realidade. Tudo corria normalmente até que dois leitores, um, meu guru do jornalismo, Oscar Ramos Gaspar; e outro, o dono da da Padaria do Fuxico, Everaldo Leite, resolveram examinar a peça publicitária com o rigor que a política brasileira raramente dedica às próprias promessas.

Foi então que encontraram o verdadeiro mistério. Os recursos seriam destinados a quase trinta postos de… “sude”. Não saúde. Sude. A letra desapareceu. Ninguém sabe se fugiu ou se se foi cortada por contenção de despesas.

Ninguém sabe se o diagramador entrou em greve ou se o revisor piscou na hora errada. O fato é que a saúde perdeu uma letra. Também não se pode descartar uma terceira hipótese. A de que alguém tenha percebido o desaparecimento da letra antes que os outdoors fossem espalhados pela cidade. Aí, uns defendendo a reimpressão, enquanto outros faziam as contas, quando alguém deve ter concluído que uma simples vogal não justificava tamanho gasto.

Afinal, quem iria parar diante de uma placa anunciando milhões de reais para conferir se a palavra saúde estava completa? Quem perderia tempo examinando detalhes ortográficos numa peça publicitária instalada justamente em regiões onde as preocupações cotidianas costumam ser muito mais urgentes do que as regras gramaticais? O problema é que essa teoria jamais levou em consideração a fauna local. Jornalistas aposentados, cronistas insubordinados, frequentadores da Padaria do Fuxico e leitores com tempo livre costumam desenvolver uma estranha obsessão por letras desaparecidas. Principalmente quando elas somem da palavra mais importante do outdoor.

E logo ela. Justamente ela.

Confesso que, diante da descoberta, voltei a olhar para o outdoor com outros olhos. Porque há erros de revisão que são apenas erros de revisão. E há erros de revisão que parecem comentários involuntários sobre a realidade.

A propaganda fala em milhões. A palavra aparece pela metade. A propaganda anuncia abundância. A ortografia sugere escassez. A propaganda promete equipamentos. A placa economiza uma letra. Pode ser apenas coincidência.

Mas convenhamos: poucas vezes uma falha gráfica conseguiu dialogar tão bem com o tema que pretendia divulgar. Talvez seja a mais sincera das propagandas institucionais. Afinal, em um país onde hospitais funcionam pela metade, obras terminam pela metade, promessas são cumpridas pela metade e soluções costumam chegar pela metade, nada mais coerente do que uma saúde escrita pela metade. Ou quase. Porque nem metade ela conseguiu ser. Ficou apenas “sude”.

E o mais extraordinário é que ninguém percebeu. Nem quem produziu. Nem quem aprovou. Nem quem pagou. Nem quem instalou. Nem quem fotografou.

Foram necessários dois leitores ociosos, uma dose de malícia jornalística e a colaboração involuntária da Padaria do Fuxico para localizar a letra desaparecida. E essa altura, talvez nem importe descobrir onde ela foi parar. Importa reconhecer que, em matéria de simbolismo, a realidade brasileira continua imbatível, como bem escreveu o jornalista Oscar Ramos Gaspar em sua advertência:

“Amarga ironia: a grana não vai dar pra concluir os “quase” trinta postos de saúde? Então vamos de “SUDE”… e se economiza na impressão”.

Passamos semanas discutindo milhões, emendas parlamentares, orçamento da União, critérios de destinação de recursos e disputas pela paternidade das verbas públicas. E, no fim das contas, quem resumiu tudo foi uma simples vogal ausente. A saúde perdeu uma letra. E, por alguns instantes, ganhou uma crônica inteira.

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