Às vésperas das restrições impostas pela legislação eleitoral, o governo federal abriu os cofres e liberou um volume recorde de emendas parlamentares. Mato Grosso do Sul recebeu R$ 311,27 milhões destinados à bancada federal, dentro de um pacote nacional que alcançou R$ 33,89 bilhões. O senador Nelsinho Trad apareceu na liderança dos recursos pagos, com R$ 59,7 milhões, seguido de perto por sua colega Soraya Thronicke, com R$ 51,2 milhões, enquanto os demais integrantes da bancada também receberam liberações expressivas. Os números, por si só, não elegem ninguém. Mas ajudam a iluminar um tabuleiro político que, talvez pela primeira vez desde a criação do Estado, apresenta uma disputa ao Senado sem favoritos absolutos.
Durante muito tempo, a impressão era de que uma das duas vagas já tinha dono. Reinaldo Azambuja largava na frente, embalado pelo capital político acumulado como ex-governador e pela estrutura partidária construída ao longo de anos. Era o cavalo forte da corrida. Ou, como algumas vezes escrito aqui, o “cavalo paraguaio”: arranca bem, entusiasma a arquibancada e, de repente, começa a dar sinais de cansaço antes mesmo da reta decisiva. É justamente aí que entram Nelsinho Trad e Soraya Thronicke.
Nelsinho não faz política aos gritos. Seu estilo sempre foi outro. Enquanto muitos preferem a estridência das redes sociais, ele continua apostando na velha engenharia política: conversar com prefeitos, abrir portas em Brasília, destravar recursos, atender hospitais, universidades e municípios. Liderar o ranking das emendas liberadas reforça exatamente essa imagem de articulador que cultiva há anos. E isso explica por que continua fungando no cangote de quem, até pouco tempo atrás, parecia correr sozinho.
Soraya talvez represente o movimento mais interessante dessa disputa. Em 2018, surgiu como a azarã que surpreendeu adversários muito mais estruturados, surfando uma onda política que poucos imaginavam tão forte. Oito anos depois, o cenário mudou completamente. Já não pode se apresentar como novidade. Precisa demonstrar capilaridade política. E parece ter entendido isso antes de muita gente.
A Expoagro de Dourados talvez tenha produzido a imagem mais simbólica dessa nova estratégia. Sabendo que pisaria num ambiente predominantemente conservador, a senadora preferiu não comparecer pessoalmente. Mas estava em toda parte. Grandes painéis espalhados pelo Parque João Humberto de Carvalho lembravam aos visitantes que parte dos recursos destinados ao evento tinha sua assinatura. Ela não apareceu. As emendas apareceram por ela. É assim que campanhas começam muito antes do horário eleitoral.
Detalhe, aí parafraseando um bordão eternizado pelo presidente Lula, nunca antes na história de Mato Grosso do Sul o candidato eleito presidente da República deixou de ajudar a eleger pelo menos um senador aliado no Estado, independentemente de estar em disputa uma ou duas vagas. Não se trata de uma regra escrita, muito menos de uma garantia para 2026. Mas é uma recorrência histórica que atravessou diferentes governos, partidos e ideologias. Se as pesquisas continuarem apontando Lula como favorito à reeleição, esse componente passa a integrar, gostem ou não seus adversários, o cálculo político da disputa pelas duas vagas do Senado em Mato Grosso do Sul.
Aliás, há outro detalhe que torna essa eleição ainda mais intrigante. São duas vagas em disputa. Isso muda completamente a matemática política. O eleitor nem sempre vota em dupla ideológica. Muitas vezes combina perfis, histórias e trajetórias diferentes. E, nesse cenário, continua pesando uma percepção que circula com insistência nos bastidores: uma parcela expressiva do eleitor bolsonarista mais fiel resiste à ideia de votar em Reinaldo Azambuja. Se essa leitura se confirmar nas urnas, o ex-governador poderá descobrir que largar na frente não significa, necessariamente, cruzar a linha de chegada entre os dois primeiros.
