22.6 C
Dourados
terça-feira, agosto 4, 2026

Em busca da reeleição, Riedel consagra a política do fio de bigode

Ao manter Barbosinha na vice, apesar da pressão da própria base, e ao abraçar Adriane Lopes no momento mais difícil de sua gestão, governador mostrou que, para ele, palavra dada continua valendo

- Publicidade -

Quando Gabriel García Márquez inventou Macondo, não criou apenas um povoado perdido entre bananeiras. Criou um lugar onde as histórias deixavam de pertencer apenas às pessoas para se transformarem em memória. Guardadas todas as proporções, às vezes penso que a nossa Picadinha desempenha papel semelhante na história política de Dourados. Não pelo realismo fantástico do velho Gabo, mas porque foi naquele pedaço de chão que sobreviveram personagens para quem a palavra empenhada valia mais do que qualquer documento assinado.

Ali viveram homens como Abílio de Matos Ferreira e o português Albano José de Almeida, pioneiros que faziam do fio de bigode um verdadeiro contrato moral. Albano era desses personagens que hoje parecem saídos de um romance. Poeta por vocação, escrevia à mão, em folhas de papel de pão, os discursos da primeira campanha de José Elias Moreira à Prefeitura de Dourados. Antes mesmo de o sol romper o horizonte, deixava discretamente os textos na caixa dos Correios do candidato e desaparecia sem esperar agradecimentos, elogios ou reconhecimento. A palavra era sua assinatura. O compromisso, sua recompensa.

Talvez tenha sido justamente por crescer ouvindo histórias como essas que nunca consegui enxergar a política apenas como um jogo de conveniências. Na Picadinha aprendi que homens podem até perder eleições, mas jamais deveriam perder a palavra. Foi essa lembrança que voltou inteira à minha memória durante a convenção que homologou a candidatura de Eduardo Riedel à reeleição.

Quando escrevi, há algum tempo, que a velha política do fio de bigode parecia estar voltando a Mato Grosso do Sul por uma via asfaltada da Picadinha, ali já me referindo à Macondo do Gabo, meu escritor preferido, muita gente imaginou tratar-se apenas de uma figura de linguagem inspirada pelo asfalto prometido e entregue à comunidade. Não era. A convenção do último sábado mostrou que aquele episódio dizia muito mais sobre o governador do que sobre uma simples obra pública. O velho fio de bigode reapareceu. Desta vez, não numa estrada vicinal. Reapareceu no palco de uma convenção, onde um compromisso político resistiu às conveniências do poder.

É verdade que o grande terremoto daquele sábado foi a desistência do senador Nelsinho Trad da disputa ao Senado. O anúncio sacudiu as estruturas da convenção antes mesmo dos discursos e monopolizou os comentários de bastidores durante boa parte do dia. Passada a surpresa inicial, porém, Eduardo Riedel acabou roubando a cena por dois gestos que revelam muito sobre seu jeito de governar. O primeiro foi manter José Carlos Barbosa, o Barbosinha, como candidato a vice-governador. O segundo, chamar ao centro do palco a prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes, para um abraço público de solidariedade justamente no momento mais delicado da administração da companheira de partido.

Os dois gestos carregavam exatamente o mesmo significado.

Durante meses, Riedel repetiu que “em time que está ganhando não se mexe”. Muita gente acreditou que aquela frase seria apenas um recurso de campanha, facilmente abandonável diante das conveniências da política. Não foi. O governador sofreu intensa pressão dentro da própria base para substituir Barbosinha. Deputados, lideranças partidárias e setores influentes da aliança governista enxergavam na vice-governadoria um espaço estratégico para acomodar novos interesses. A inesperada desistência de Nelsinho Trad chegou a alimentar, na undécima hora, a especulação de que o senador poderia ser deslocado para compor a chapa numa solução emergencial. Riedel ouviu todos. E fez exatamente o que havia prometido meses antes: manteve Barbosinha.

Não se tratou de um gesto de amizade nem de sentimentalismo político.

Barbosinha não permaneceu na chapa porque transmite serenidade ou porque conquistou fama de conciliador. Permaneceu porque construiu uma trajetória administrativa que poucos políticos sul-mato-grossenses conseguem apresentar. Advogado, professor de Direito, prefeito de Angélica, à época o prefeito mais jovem do Brasil, presidente da Sanesul, secretário estadual de Justiça e Segurança Pública, deputado estadual em duas legislaturas e líder do governo Reinaldo Azambuja na Assembleia Legislativa, tornou-se um dos quadros públicos mais completos de sua geração. Na Sanesul conduziu um amplo processo de modernização da empresa. Na Secretaria de Segurança enfrentou uma das áreas mais sensíveis do Estado. No Parlamento consolidou a reputação de articulador paciente, daqueles que preferem construir consensos a fabricar crises. Como vice-governador, demonstrou absoluta sintonia com Eduardo Riedel e profundo conhecimento da máquina pública.

O segundo gesto talvez tenha sido ainda mais significativo.

Num ambiente em que a regra costuma ser afastar-se de quem atravessa dificuldades, Eduardo Riedel fez questão de trazer Adriane Lopes para o centro do palco e abraçá-la diante de toda a convenção. Não era um gesto protocolar. Era um gesto político. A prefeita enfrenta um dos momentos mais desgastantes de sua administração, pressionada diariamente por problemas que alimentam críticas da população. Qualquer estrategista eleitoral recomendaria manter distância para evitar o desgaste. Riedel preferiu dividir esse desgaste com uma demonstração pública de lealdade.

É possível até que ali também houvesse cálculo político. Afinal, sendo reeleito, ele terá mais quatro anos para ajudar a reorganizar a administração da Capital antes da sucessão municipal. Mas reduzir aquele abraço apenas à estratégia seria simplificar demais a cena. O gesto pareceu nascer muito mais da convicção de que aliados não devem ser abandonados justamente quando atravessam as maiores dificuldades.

No fim das contas, Barbosinha e Adriane Lopes acabaram simbolizando a mesma mensagem.

Num tempo em que compromissos políticos costumam durar apenas até a próxima pesquisa eleitoral, Eduardo Riedel escolheu preservar a palavra dada. Foi assim na Picadinha, quando uma promessa virou asfalto. Foi assim agora, quando uma promessa repetiu uma chapa. Há quem considere isso apenas um detalhe. A experiência ensina exatamente o contrário. Os grandes líderes quase sempre são reconhecidos menos pelos discursos que fazem do que pelas promessas que decidem cumprir quando todos esperam que recuem.

Talvez seja cedo para saber como a História julgará o governo Eduardo Riedel. Mas a convenção do último sábado deixou uma impressão difícil de apagar. Em tempos de compromissos descartáveis, alianças provisórias e fidelidades que mudam ao sabor da conveniência, o governador preferiu pagar o preço de manter a palavra. Pode parecer pouco. Para quem cresceu ouvindo histórias da velha Picadinha, onde um aperto de mão valia tanto quanto uma escritura e um fio de bigode tinha força de contrato, cumprir a palavra nunca foi apenas uma virtude. Sempre foi uma questão de caráter.

- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -

Últimas Notícias

Últimas Notícias

- Publicidade-