O Brasil é um país tão pródigo em produzir enredos improváveis que, de vez em quando, o cronista desconfia que alguém trocou a Constituição por um roteiro de novela. Não é preciso inventar personagens. Eles aparecem prontos. Nem criar diálogos. Basta abrir o noticiário. A única providência recomendável é conferir duas ou três vezes se o que está escrito aconteceu mesmo, porque a primeira reação costuma ser imaginar que alguém exagerou na licença poética.
Foi exatamente essa sensação que tive ao ler nesta terça-feira que a Polícia Federal investiga uma transferência financeira envolvendo uma empresária investigada por suposta atuação como lobista, o filho do presidente da República e um ex-chefe do Gabinete Pessoal da Presidência chamado… Marcola.
Calma.
Não o Marcola conhecido das páginas policiais, mas outro Marcola. Um apelido. Uma coincidência. Dessas que fariam qualquer editor pedir ao repórter para confirmar mais uma vez a informação antes de mandar a matéria para a gráfica. Porque certos nomes carregam um peso que a realidade insiste em utilizar sem pedir licença à ficção.
A partir daí, o cronista entra numa espécie de curto-circuito mental. Passa a ler a notícia duas vezes. Na primeira, acompanha os fatos. Na segunda, tenta descobrir se não houve alguma troca de personagens. Afinal, o noticiário fala de investigações sobre suposto tráfico de influência, de relações entre empresários, de empréstimos declarados, de diligências da Polícia Federal e de um gabinete que ocupa alguns dos corredores mais importantes da República. Tudo isso tendo um “Marcola” no centro da narrativa. A ironia está pronta antes mesmo que o articulista ligue o computador.
Naturalmente, ninguém deve ser condenado pelo nome que carrega ou pelo apelido que recebeu. Muito menos antes que qualquer investigação seja concluída. A própria essência do Estado de Direito exige exatamente o contrário: que cada pessoa responda apenas pelos próprios atos, com amplo direito de defesa e respeito ao devido processo legal. O problema é que o humor involuntário da política brasileira costuma desafiar até mesmo esse princípio elementar. Há coincidências que parecem escritas por um roteirista excessivamente criativo.
O mais curioso é que o Brasil atravessa justamente um período em que a palavra “comando” aparece diariamente no noticiário. Uns pertencem ao universo do crime organizado. Outros ao universo da política. Outros ainda às estruturas do Estado. Cada um com funções, responsabilidades e naturezas completamente diferentes. Mas, de vez em quando, os nomes, os apelidos e as circunstâncias resolvem brincar de embaralhar o imaginário coletivo. E é exatamente nesse ponto que o cronista precisa redobrar o cuidado para separar a ironia da realidade.
Talvez por isso o episódio diga menos sobre as pessoas envolvidas e mais sobre o extraordinário talento que a política brasileira desenvolveu para produzir situações que nenhum ficcionista ousaria colocar no papel. Se alguém apresentasse esse enredo a um editor de cinema, provavelmente ouviria que era exagerado demais para parecer verdadeiro.
Mas é.
Ou, pelo menos, nasceu de fatos que estão sendo investigados e cujo desfecho caberá às autoridades esclarecer.
Enquanto isso, o velho cronista faz apenas o que sempre fez: observa, anota e se espanta. Porque há dias em que o Brasil parece determinado a provar que o realismo fantástico não nasceu em Macondo. Apenas encontrou por aqui um concorrente à altura.
E, como encerravam as novelas de antigamente…
Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. A realidade é que, às vezes, insiste em parecer ficção.
