Valfrido Silva
Jornalistas costumam ser criaturas inconvenientes, principalmente quando descobrem aquilo que os poderosos gostariam de manter entre quatro paredes. Malu Gaspar, de O Globo, parece ter desenvolvido nos últimos meses uma especial habilidade para encontrar a fechadura dessas portas. Suas reportagens vêm revelando bastidores do Supremo Tribunal Federal, do caso Banco Master, contratos milionários, mensagens e articulações envolvendo alguns dos personagens mais poderosos da República. E, como acontece sempre que o jornalismo entra onde não foi convidado, suas apurações provocam repercussão, contestação, desmentidos e aquela pergunta que atormenta muito mais o personagem da notícia do que o leitor: afinal, quem está contando essas coisas para ela?
Não se trata de uma aventureira que resolveu descobrir ontem os encantos do chamado jornalismo investigativo. Malu tem longa trajetória na cobertura política e econômica e escreveu livros sobre personagens e organizações que ocuparam o centro de alguns dos maiores escândalos brasileiros. Aprendeu, portanto, uma regra elementar do ofício: quanto mais poderoso o personagem, menos provável que a melhor informação esteja esperando pelo repórter numa entrevista coletiva. Bastidores existem exatamente porque há coisas que o poder prefere discutir longe dos microfones.
O artigo deste sábado é um exemplo acabado disso. Segundo sua apuração, uma reunião reservada articulada pelos ministros Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes colocou sob o mesmo teto o presidente Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. E não foi para trocar receitas de bolo. Os dois aproveitaram o encontro para lavar roupa suja sobre um dos episódios mais traumáticos da relação entre o Palácio do Planalto e o Congresso neste terceiro mandato do petista: a rejeição, pelo Senado, da indicação de Jorge Messias para uma cadeira no Supremo.
A história, por si só, já seria extraordinária. Lula escolheu Messias para a vaga aberta com a aposentadoria de Luís Roberto Barroso. Alcolumbre preferia Rodrigo Pacheco e nunca escondeu sua contrariedade. O governo acreditava possuir os votos necessários. O presidente do Senado dizia que não. Lula retardou o envio da mensagem ao Congresso na tentativa de dar ao indicado tempo para percorrer gabinetes e conquistar apoios. Quando finalmente houve votação, Messias conseguiu apenas 34 votos, sete abaixo dos 41 necessários. O Senado brasileiro não rejeitava uma indicação presidencial ao Supremo desde Floriano Peixoto, em 1894. Não foi exatamente uma derrota. Foi uma surra com certidão histórica.
Segundo Malu, na lavagem de roupa suja agora promovida, Alcolumbre não pediu desculpas nem tentou dourar a pílula. Disse a Lula que havia avisado antecipadamente ao Planalto que Messias não passaria. Lideranças governistas, entre elas Jaques Wagner, sustentavam outra coisa e garantiam que a aprovação viria, ainda que apertada. Não veio. E o presidente do Senado, conforme a reportagem, fez mais do que prever a tempestade: trabalhou para produzi-la, telefonando a senadores e articulando votos contra a indicação presidencial.
Até aí poderíamos estar apenas diante de mais um capítulo da eterna disputa entre Executivo e Legislativo. Presidentes indicam. Senadores aprovam ou rejeitam. Está na Constituição e faz parte do jogo democrático. O que torna a história muito mais saborosa é a entrada de outro Poder nessa cozinha. Conforme as apurações publicadas por Malu, Alexandre de Moraes também teria atuado pela rejeição de Messias. E aí a geometria constitucional brasileira começa a adquirir umas curvas que Montesquieu certamente não desenhou.
Porque uma coisa é um senador trabalhar contra um indicado ao Supremo. Outra é a eventual participação de um ministro do próprio Supremo na construção política da derrota de alguém indicado para se tornar seu futuro colega. Não significa, por si só, crime ou ilegalidade. Significa algo talvez mais interessante para o jornalismo: poder em estado bruto, funcionando muito além das cerimônias, dos votos públicos e das liturgias institucionais.
E há mais um personagem atravessando essa história: André Mendonça. Relator das investigações envolvendo o Banco Master, Mendonça foi, segundo Malu, um dos principais defensores da indicação de Messias e tornou-se um contraponto cada vez mais visível a Moraes dentro da Corte. É justamente a investigação do Master que já levou à superfície outra informação publicada pela jornalista e particularmente incômoda: um contrato de R$ 129 milhões firmado entre o banco de Daniel Vorcaro e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes, para representar interesses da instituição perante diferentes órgãos públicos. A existência de um contrato dessa dimensão envolvendo a mulher de um ministro do Supremo é evidentemente informação de interesse público. Também é indispensável registrar que contrato milionário, por si só, não constitui prova de irregularidade. Jornalismo não pode substituir investigação, muito menos sentença.
Talvez seja exatamente essa fronteira que torne o trabalho recente de Malu Gaspar tão interessante — e tão polêmico. Reportar sobre gente poderosa exige duas coragens simultâneas: coragem para publicar e coragem para admitir os limites daquilo que se sabe. Uma fonte contando o que aconteceu numa reunião reservada não transforma automaticamente cada palavra em verdade histórica. Documentos precisam ser examinados. Versões precisam ser confrontadas. Os atingidos têm direito de responder. E o jornalista, principalmente quando mexe com instituições da dimensão do Supremo, precisa saber que cada linha publicada será examinada com lupa por gente que conhece muito bem as leis e dispõe dos melhores advogados do país.
Mas existe também o risco inverso, talvez ainda mais perigoso. O medo.
Se o poder de um personagem começar a determinar o tamanho da curiosidade do repórter, acabamos de inventar uma forma sofisticadíssima de censura que nem precisa de juiz, processo ou ordem de retirada de conteúdo. Basta o jornalista concluir antecipadamente que é melhor não perguntar. E democracia nenhuma deveria desejar uma imprensa suficientemente corajosa para investigar vereador, prefeito e deputado, mas subitamente prudente demais quando chega às portas dos tribunais superiores.
Ministro do Supremo não deixa de ser personagem de interesse público porque veste toga. Presidente da República não deixa de sê-lo porque ocupa o Planalto. Presidente do Senado não deixa de sê-lo porque controla a pauta de uma das Casas do Congresso. Banqueiros, empresários, advogados e seus escritórios também não adquirem imunidade jornalística porque frequentam os mesmos ambientes onde circulam algumas das pessoas mais poderosas do país.
E é justamente por isso que a reunião revelada por Malu merece atenção para além da fofoca brasiliense. O encontro diz muito sobre a maneira como o poder realmente funciona. Lula tinha motivos para estar profundamente contrariado com Alcolumbre. Alcolumbre não escondia sua preferência por outro candidato ao Supremo. Moraes, conforme relata a jornalista, também saiu chamuscado do episódio Messias. Agora, porém, aproxima-se uma eleição capaz de renovar dois terços do Senado, o avanço bolsonarista preocupa personagens que meses atrás estavam em campos distintos e o velho instinto de sobrevivência política faz aquilo que sabe fazer melhor: aproxima desafetos.
De repente, ressentimentos que pareciam incontornáveis tornam-se negociáveis.
Não é novidade. Política é também a arte de descobrir que o inimigo de abril pode ser indispensável em agosto. O que chama atenção é o endereço escolhido para a reconciliação. Segundo Malu, a mansão de Alexandre de Moraes serviu de cenário para a conversa entre Lula e Alcolumbre, num encontro articulado por ministros do Supremo. Formalmente, os Três Poderes continuam independentes e harmônicos, exatamente como manda a Constituição. Informalmente, pelo visto, às vezes preferem resolver suas desarmonias na sala de estar.
Montesquieu talvez pedisse outra bebida. Não há necessariamente escândalo nisso. Autoridades conversam. Presidentes negociam. Ministros possuem relações pessoais e políticas. Seria infantil imaginar Brasília como uma maquete de livro didático, com Executivo, Legislativo e Judiciário separados por paredes intransponíveis. O problema começa quando essas relações interferem em decisões de interesse público sem que a sociedade consiga saber quem conversou com quem, defendendo quais interesses e com quais consequências.
É nessa fresta que entra o jornalista. Não para decidir quem tem razão. Não para substituir polícia, Ministério Público ou tribunal. Muito menos para transformar informação de bastidor em sentença. Entra para acender a luz numa sala que os seus ocupantes talvez preferissem manter na penumbra.
É também por isso que Malu Gaspar merece ser lida com a mesma atitude que deveria acompanhar todo bom jornalismo investigativo: atenção, espírito crítico e disposição para cobrar provas sempre que necessárias. Jornalista não é oráculo. Fonte não é escritura sagrada. Reportagem não é sentença judicial. Mas informação relevante também não pode ser descartada simplesmente porque incomoda personagens poderosos ou porque sua divulgação provoca consequências políticas.
A ironia maior talvez esteja justamente aí. Enquanto discutimos incessantemente se o Supremo está politizado, se o Congresso invade atribuições do Executivo ou se o presidente tenta interferir nas escolhas do Legislativo, alguns dos protagonistas dessas mesmas disputas aparentemente conseguem sentar numa residência particular para acertar os ponteiros quando as circunstâncias exigem. O eleitor assiste às brigas públicas. Nos bastidores, os brigões tomam café. Ou lavam roupa suja.
E talvez essa seja uma boa explicação para o incômodo provocado pelo trabalho recente de Malu Gaspar. Não necessariamente porque tudo aquilo que publica deva ser aceito como verdade definitiva — não deve. Mas porque ela vem fazendo algo que sempre foi uma das funções mais antigas e indispensáveis do jornalismo: tentar descobrir o que os poderosos fazem quando acreditam que ninguém está olhando.
As decisões oficiais continuam sendo anunciadas nos palácios, publicadas no Diário Oficial e registradas nos autos. As decisões do poder, porém, nem sempre. Às vezes começam num telefonema. Outras vezes, numa conversa reservada. Podem nascer durante um jantar, atravessar um gabinete ou terminar numa sala de estar. E, de vez em quando, alguns dos homens mais poderosos da República resolvem lavar a roupa suja em casa. O problema é quando esquecem de verificar se havia uma jornalista na lavanderia.
