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domingo, agosto 9, 2026

Óleo de peroba!

Entre a memória curta do eleitor e a lentidão da Thêmis pantaneira, velhas figurinhas voltam à vitrine eleitoral posando de paradigmas da moralidade

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Valfrido Silva

Talvez algumas das memórias que o contrapontoMS vem revolvendo nas últimas semanas incomodem justamente porque memória costuma ser artigo perigoso em tempos de eleição. Principalmente quando ela resolve confrontar o presente com aquilo que ainda ontem ocupava manchetes, inquéritos, operações policiais e tribunais. A velha Thêmis pantaneira, que tantas vezes apareceu por aqui caminhando devagar, talvez não seja apenas uma personagem da morosidade da Justiça. Sem querer, pode ter se transformado também numa extraordinária fabricante de esquecimento.

Seria repetitivo voltar às operações policiais apenas para admirar a criatividade de quem as batizou. Owari, Brothers, Uragano, Lama Asfáltica, Coffe Break, Successione, Gutenberg e tantas outras já cumpriram esse papel. Mais importante agora é perguntar o que teria acontecido se à criatividade e à velocidade das investigações correspondesse igual eficiência na conclusão dos processos. Evidentemente, imaginar o fim da corrupção seria uma quimera. Ela é tão antiga quanto o próprio poder. Mas talvez pudesse, pelo menos, deixar de crescer como essa espécie de tsunami que atravessa governos, partidos e gerações, mudando os personagens sem alterar substancialmente o enredo.

Justiça tardia produz uma consequência que raramente aparece nos autos: amnésia eleitoral.

O tempo passa, a manchete envelhece, o processo muda de instância, surgem recursos, diligências, decisões, anulações. Em alguns casos há condenação; em outros, absolvição. Há investigações arquivadas por insuficiência de provas — e, nesses casos, é obrigação democrática reconhecer que suspeita não é culpa. Há também processos alcançados pela prescrição, quando o relógio consegue aquilo que o mérito da causa já não poderá resolver. São situações juridicamente diferentes e devem ser tratadas como diferentes. Para o cidadão comum, entretanto, todas atravessam uma máquina judiciária tão complexa e demorada que, muitas vezes, quando chega a próxima eleição, ele já não consegue lembrar onde começou aquela história.

E então acontece uma das cenas mais desconcertantes da política brasileira.

O eleitor chega às vésperas de outra eleição e encontra, em palanques, convenções partidárias e grandes eventos políticos, personagens que pouco tempo antes frequentavam outro tipo de noticiário. Alguns cumpriram pena e recuperaram seus direitos; outros respondem a processos; outros foram absolvidos ou tiveram investigações arquivadas. Cada situação exige seu devido tratamento jurídico. Mas o espetáculo político costuma misturar tudo numa mesma fotografia. E não demora para que alguns daqueles rostos reapareçam diante das câmeras pedindo votos, novos mandatos e, com eles, as prerrogativas que acompanham determinados cargos públicos.

Daqui a pouco começa o horário eleitoral. Não bastasse a enxurrada que já invade as redes sociais, o eleitor estará sentado diante da televisão, talvez no intervalo entre o Jornal Nacional e a novela das nove, quando algumas dessas mesmas figurinhas carimbadas aparecerão impecavelmente produzidas, olhando para a câmera e oferecendo honestidade, ética, renovação e moralidade como se estivessem inaugurando esses substantivos na língua portuguesa. Haja óleo de peroba!

Mas talvez seja justamente aí que entre a responsabilidade de quem ainda insiste em exercer o jornalismo de memória. Não para substituir a Justiça. Não para condenar quem ela absolveu. Muito menos para transformar investigação em sentença. Jornalista não usa toga e não deveria desejar usá-la. Sua função é outra: impedir que o tempo apague aquilo que é relevante para a compreensão do presente.

Sem qualquer pretensão de mudar o mundo, talvez exista algum efeito pedagógico em continuar abrindo os velhos arquivos e revolvendo memórias que muitos prefeririam deixar adormecidas. Não para dizer ao eleitor em quem votar ou deixar de votar. Essa decisão pertence exclusivamente a ele. Mas para oferecer algo sem o qual nenhuma escolha é verdadeiramente livre: memória.

É que democracia não exige apenas urna. Exige eleitor informado, capaz de saber quem é quem, o que fez, do que foi acusado, se houve provas, se foi condenado ou absolvido, se o processo acabou arquivado ou simplesmente morreu de velhice numa das tantas gavetas da Justiça. Talvez seja essa a modesta contribuição destas memórias incômodas que o contrapontoMS vem revolvendo: se a Thêmis pantaneira não consegue andar mais depressa, que pelo menos o jornalismo não caminhe para trás e, sobretudo, não se permita esquecer. Diante da urna, o cidadão tem o direito de perdoar, de acreditar novamente e até de repetir uma escolha. Só não deveria fazê-la por falta de memória.

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