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quinta-feira, agosto 13, 2026

O algoritmo conhece o seguidor; a urna conhece o eleitor

A campanha de 2026 promete testar uma nova espécie de candidato: aquela que mede força política pelo número de visualizações, seguidores e coraçõezinhos nas redes. William Bonner e Manzar Feres acabam de lembrar uma obviedade que talvez alguns estejam esquecendo: influência exige credibilidade e nenhuma tecnologia substituiu a conexão entre seres humanos

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Valfrido Silva

Foi preciso um encontro sobre tecnologia, criatividade e influência para lembrar aos políticos uma coisa muito anterior à invenção da internet: gente ainda precisa convencer gente. No SP2B, realizado em São Paulo, os globais William Bonner e Manzar Feres participaram da abertura do Summit Globo, num encontro construído justamente em torno daquilo que nos conecta e da força das histórias, da informação, da cultura e da credibilidade na construção da influência. Bonner puxou a discussão para a responsabilidade, a credibilidade e o peso da informação na formação dessa influência; Manzar Feres, por sua vez, destacou a importância das conexões humanas num ecossistema cada vez mais mediado por tecnologia. O recado que atravessa essa discussão é precioso para uma eleição infestada de candidatos-influenciadores: alcance não é sinônimo de influência, assim como influência não é sinônimo automático de confiança. Pode-se comprar impulsionamento, contratar equipe para produzir vídeo, aprender o horário em que o algoritmo entrega melhor uma postagem, descobrir qual música está bombando, decorar coreografia e até contratar alguém para ensinar como parecer espontâneo diante da câmera. O que ainda não inventaram foi aplicativo capaz de instalar confiança no eleitor.

Confiança, aliás, será uma mercadoria interessantíssima de acompanhar nas eleições de outubro, quando finalmente descobriremos quantos votos cabem dentro de um like. Mato Grosso do Sul chega à campanha com uma fauna particularmente interessante de candidatos que transformaram as redes sociais em palanque permanente e parecem dispostos a testar até onde uma dancinha, uma performance doméstica, uma provocação ou a reinvenção diária do próprio personagem conseguem empurrar alguém na direção da urna. Entre os mais espalhafatosos temos o professor petista Tiago ‘amigo do Lula’ Botelho, dançarino aplicado das redes, candidato a deputado estadual depois de já ter experimentado disputas eleitorais maiores; temos Isa Marcondes, a Cavala, vereadora de Dourados agora candidata à Câmara Federal, aquela que, antes mesmo de chegar ao Legislativo municipal prometendo resolver os problemas de uma cidade que dizia estar uma “zona”, avisava que daquele assunto entendia; e a deputada estadual Lia Nogueira, autointitulada “Bichão do MS”, em busca da reeleição e dona de um repertório digital capaz de levá-la, conforme a conveniência do episódio, da madame nos salões de beleza sofisticados da capital às recordações da menina pobre da Cabeceira Alegre, lavando louça, limpando quintal e, num esmero incomum, preparando cachorro-quente para trabalhadores das unidades de saúde.

Isa, aliás, parece estar se dirigindo para a Casa adequada ao tamanho de sua performance. Com todo respeito a alguns poucos parlamentares que ainda nos fazem lembrar que pelo Congresso brasileiro já passaram homens como Ulysses Guimarães, Paulo Brossard, Pedro Simon, Teotônio Vilela, Mário Covas e Franco Montoro, entre tantos outros grandes tribunos da política brasileira, a Câmara dos Deputados de hoje parece oferecer ambiente bastante mais receptivo à política-espetáculo — sem falar na numerosa bancada negocista do Centrão, onde capacidade de chamar atenção jamais constituiu defeito. Nada disso significa, evidentemente, antecipar o destino eleitoral de Isa, Botelho ou Lia. Muito menos negar que os três possuam trajetórias políticas para além do telefone celular. Significa apenas que eles oferecem, por características diferentes, personagens quase didáticos para uma pergunta que as urnas responderão dentro de poucos meses: desde quando visualização virou voto?

Não há absolutamente nada de errado em candidato usar internet. Seria estupidez imaginar uma campanha eleitoral em 2026 feita apenas com santinho, comício, carro de som, bandeira na esquina e aperto de mão na feira. A política mudou porque a comunicação mudou, e quem não entender isso provavelmente será atropelado por quem entendeu. O problema começa em outro lugar: quando o candidato passa a confundir performance digital com desempenho eleitoral. O vídeo alcançou cem mil pessoas? Excelente. Teve dez mil curtidas? Melhor ainda. Viralizou? Abra o champanhe. Só existe um pequeno inconveniente nessa contabilidade: nenhuma dessas métricas aparece no boletim emitido pela urna eletrônica às cinco da tarde do dia 4 de Outubro. O sujeito pode dançar, cozinhar, lavar louça, limpar quintal, visitar salão, fazer cachorro-quente, provocar adversário, responder comentário, produzir meme e descobrir diariamente uma nova versão de si mesmo para alimentar o algoritmo. Pode até conseguir aquilo que todo influenciador deseja: engajamento. Mas, em política, resta uma pergunta ligeiramente mais incômoda: engajou para quê?

Botelho, por exemplo, é um ótimo caso para impedir que essa discussão descambe para a caricatura. Ele já possui experiência eleitoral e votação expressiva, além de trajetória acadêmica e política. Portanto, seria simplório reduzi-lo à pé-de-valsa. E é justamente por isso que seu desempenho em outubro será interessante: até quem já demonstrou possuir eleitorado terá de descobrir quanto do cidadão que ri, comenta, compartilha e assiste ao vídeo também estará disposto a digitar seu número na urna. Isa, por sua vez, já demonstrou numa eleição municipal que comunicação provocadora pode converter atenção em voto. Lia já possui mandato e, portanto, também não nasceu eleitoralmente dentro de um Reels. A questão para todos eles é outra: a rede amplia uma base política ou começa a ser confundida com a própria base política?

É aí que a advertência de Manzar Feres talvez seja ainda mais incômoda para a política. Quanto mais sofisticada fica a tecnologia, mais valiosa se torna justamente aquilo que ela não consegue fabricar sozinha: conexão humana. E conexão humana não é o candidato aparecer no bairro acompanhado de três celulares, um assessor segurando equipamento de iluminação e outro pedindo ao morador que repita o abraço porque a primeira tomada ficou ruim. Conexão é entrar numa casa sem transformar o dono dela em figurante. É sentar. É ouvir. É voltar quando não existe câmera. É saber o nome de quem conversou com você seis meses antes. É descobrir que o eleitor tem problemas que não cabem em quinze segundos e, pior ainda para alguns políticos, que às vezes ele não quer assistir ao candidato falando; quer que o candidato cale a boca e o escute. A internet conseguiu aproximar pessoas separadas por milhares de quilômetros, mas produziu também uma extraordinária ilusão de intimidade entre gente que jamais se encontrou. Na política, essa diferença pode custar mandato.

Há outra armadilha particularmente cruel: o algoritmo conhece o seguidor; a urna conhece o eleitor. E os dois não são necessariamente a mesma pessoa. Uma postagem pode atravessar Mato Grosso do Sul, chegar a São Paulo, Lisboa, Miami e Tóquio, receber duzentos mil acessos e produzir no candidato a deliciosa sensação de que o Estado inteiro está falando dele. Talvez esteja. Só falta descobrir quantos dos que estão falando possuem título eleitoral em Mato Grosso do Sul, quantos votarão para aquele cargo, quantos pertencem à mesma bolha política e quantos simplesmente assistiram porque acharam engraçado. Há ainda os que compartilham para debochar, os que comentam para xingar e os que seguem justamente porque consideram o personagem uma atração. Audiência não pergunta intenção de voto antes de entregar visualização. É perfeitamente possível ser um extraordinário sucesso digital e uma completa insignificância eleitoral. Também é possível ocorrer o contrário: há políticos incapazes de produzir um vídeo minimamente divertido que continuam reunindo milhares de votos porque passaram anos construindo relações onde algoritmo nenhum chega. Os decanos deputados Londres Machado e Zé Teixeira são os maiores exemplos disso.

Talvez esteja aí uma diferença que nossa política esteja desaprendendo: ser conhecido não é ser escolhido. O candidato pode entrar todos os dias na casa do eleitor pelo telefone e nunca ter entrado verdadeiramente na vida dele. Pode fazer o sujeito rir e não conquistar sua confiança. Pode ser reconhecido na rua e não receber seu voto. Pode reunir uma multidão de seguidores e descobrir que boa parte dela não atravessaria a rua para assistir a um comício seu. Pode ainda ser campeão de curtidas numa plataforma frequentada predominantemente por determinado público e descobrir, no domingo da eleição, que o eleitorado real é muito mais velho, mais diverso, menos conectado e infinitamente mais complexo do que sua timeline fazia parecer. É nesse momento que a matemática das redes apresenta um pequeno defeito: coraçãozinho não aperta botão de urna eletrônica.

Willian Bonner acrescenta outra dimensão indispensável a essa conversa: influência traz consigo responsabilidade. Quanto maior o alcance de alguém, maior deveria ser o cuidado com aquilo que oferece ao público. Essa talvez seja uma advertência ainda mais importante quando o influenciador não está tentando vender um tênis, um cosmético ou uma marca de refrigerante, mas a si próprio como representante do cidadão. Candidato não é produto comum, embora algumas campanhas pareçam tratá-lo como tal. Quem compra um produto ruim pode trocá-lo, reclamar ou simplesmente não voltar à loja. O mandato adquirido na urna dura quatro anos. Por isso a política exige algo que a publicidade, sozinha, não consegue entregar: conteúdo depois da embalagem. A graça pode conseguir audiência; o bordão pode garantir lembrança; a dancinha pode fazer o candidato atravessar a bolha. Mas em algum momento alguém perguntará o que ele pensa, o que propõe, o que já fez e o que pretende fazer com o poder que está pedindo.

Talvez Bonner e Manzar tenham oferecido, sem pretender escrever manual para candidato sul-mato-grossense, uma advertência providencial para outubro. Tecnologia é ferramenta extraordinária. As redes sociais democratizaram a comunicação, romperam monopólios, permitiram que candidatos sem dinheiro e sem máquina partidária chegassem diretamente ao eleitor e obrigaram a velha política a aprender novas linguagens. Tudo isso é verdadeiro e irreversível. Mas nenhuma dessas conquistas revogou a matéria-prima mais antiga da política: credibilidade, confiança e relação humana. O candidato pode usar inteligência artificial para ajudá-lo a escrever discurso, algoritmo para encontrar público, impulsionamento para ampliar alcance, drone para filmar carreata e aplicativo para editar o vídeo antes que o último carro chegue à esquina. No fim de tudo, porém, haverá uma cabine, uma máquina e um ser humano sozinho diante dela.

É justamente ali que termina a performance. Não haverá assessor pedindo para repetir a cena, filtro para melhorar a imagem, editor para cortar o trecho ruim nem equipe comemorando número de visualizações em tempo real. O candidato não saberá se aquele eleitor curtiu sua última postagem, assistiu à dancinha de Botelho, riu da Cavala ou acompanhou mais um capítulo da transformação digital do “Bichão do MS”. Muito menos saberá se o sujeito que compartilhou seu vídeo estava fazendo campanha a favor ou apenas mostrando aos amigos o tamanho da presepada. Estarão apenas o eleitor e a urna, numa solidão democrática que nenhuma rede social conseguiu eliminar.

Aí outubro fará sua auditoria mais impiedosa. Depois da última dancinha, do último cachorro-quente, da última postagem e do último Reels, os candidatos guardarão o celular no bolso e começarão a descobrir quanto havia de política dentro daquela audiência toda. A urna não perguntará quantos seguidores possuíam, quantas vezes viralizaram, quantos comentários receberam nem quantos coraçõezinhos fizeram pulsar na tela. Registrará somente quantos seres humanos, depois de toda a campanha, decidiram confiar neles o suficiente para digitar aquele número e apertar CONFIRMA.

Porque, apesar de toda a tecnologia que mudou o mundo, ainda existe uma brutalidade matemática que influencer nenhum conseguiu revogar: mil likes continuam valendo exatamente zero votos até que alguém saia da internet e vá votar.

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