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sábado, agosto 15, 2026

A “Missão” impossível de Flávio Bolsonaro

Em meio a uma candidatura presidencial marcada por denúncias de filiação fraudulenta, vídeos adulterados, "laranjas" digitais e uma trama financeira digna de Hollywood, o senador Flávio Bolsonaro (PL) parece ter importado da Venezuela a estratégia da "fraude narrativa" para tentar, mais uma vez, se vitimizar diante do eleitorado

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Anita Tetslaff*

A última trapalhada da campanha do senador tem contornos de uma trama de espionagem amadora. Em 12 de agosto de 2026, a poucos dias do prazo final para o registro de candidaturas, o nome de Flávio Bolsonaro apareceu misteriosamente como filiado ao Partido Missão, uma legenda nanica e adversária declarada do bolsonarismo.

O que poderia ser um erro burocrático, rapidamente se revelou como um escândalo em potencial. O Partido Missão, através de nota oficial, afirmou ter sido “vítima de uma tentativa de filiação fraudulenta” e acusou o gabinete do senador de ter sido alertado sobre a fraude desde 2 de agosto, sem que qualquer providência tivesse sido tomada.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) afirma que o cadastro foi feito por alguém que possuía as credenciais da legenda, apontando para um “uso indevido da ferramenta”, descartando a hipótese de invasão hacker, confirmando que a filiação partiu de um representante do próprio partido. Em uma declaração que promete incendiar ainda mais o debate, o presidente do Missão, Renan Santos, afirmou que vai provar a fraude “IP por IP, log por log”.

Diante do ocorrido, Flávio Bolsonaro rapidamente acionou o manual de defesa do clã: virou vítima. Em discurso, afirmou que “tentaram fraudar sua candidatura”. A estratégia é clara de criar uma narrativa de perseguição para blindar seu próprio erro, ou o que pode ser um ato deliberado para “boicotar” a própria candidatura e alimentar o discurso de que o sistema eleitoral é frágil.

Para o professor Célio de Morais, da UFRJ, não se trata de coincidência. Ele vincula o caso a uma manobra observada na última eleição da Venezuela. Na ocasião, o partido da candidata inabilitada, María Corina Machado, teria atrasado propositalmente a filiação de uma candidata com o mesmo nome para, após perder o prazo, judicializar a disputa e criar uma narrativa de fraude, culminando no não reconhecimento internacional da eleição de Nicolás Maduro. “Flávio parece estar seguindo um script parecido em que simula uma fraude para depois poder reclamar que o sistema é fraudulento”, analisa o professor.

A tática de Flávio não se resume à filiação fantasma. O senador tem repetido em suas falas a tese de que o sistema eleitoral brasileiro é frágil, ecoando o discurso do pai, Jair Bolsonaro. Recentemente, chegou a afirmar falsamente que a empresa venezuelana Smartmatic forneceu as urnas eletrônicas do Brasil, uma desinformação antiga e já desmentida pelo TSE, que nunca utilizou os equipamentos da empresa.

A falta de compromisso com a verdade se estende ao dia a dia do brasileiro. Em agosto, Flávio compartilhou um vídeo emocionante de uma mulher em Belo Horizonte que afirmava ter gasto R$ 626 em compras de supermercado sem levar carne. O post, que viralizou, seria a prova cabal da carestia sob o governo Lula.

No entanto, uma checagem minuciosa do Estadão Verifica expôs a mentira. Ao acessar a chave da nota fiscal exibida no vídeo, a reportagem descobriu que a consumidora havia comprado mais de 6 kg de carne de cinco tipos diferentes (que custaram R$ 130) e itens não básicos, como bebidas energéticas. A farsa foi tão descarada que o próprio senador, ao ser questionado, não se manifestou.

Enquanto tenta se passar por vítima de um sistema que ele mesmo tenta fraudar, Flávio Bolsonaro vê seu entorno ser engolido por uma das maiores crises éticas de sua campanha que é o filme “Dark Horse”. O projeto, que supostamente exaltaria a vida de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, tornou-se o epicentro de uma investigação da Polícia Federal sobre os negócios do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, preso em novembro de 2025 por suspeita de comandar fraudes bilionárias.

Áudios divulgados pela imprensa revelam que o próprio Flávio pediu dinheiro a Vorcaro para o filme, chamando-o de “irmão” e cobrando o repasse de valores. Só entre fevereiro e maio de 2025, mais de R$ 61 milhões teriam sido liberados para a produção, com o banqueiro arcando com 90% dos custos.

A PF investiga se esses recursos, enviados para um fundo no Texas (EUA), podem ter financiado a vida do deputado cassado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, que atuou como produtor-executivo do filme, ou outras ações políticas. A defesa de Vorcaro chegou a apresentar uma proposta de delação premiada, mas foi rejeitada pela PGR por falta de “elementos novos”, o que sugere que o banqueiro tentava proteger o clã Bolsonaro.

A campanha de Flávio, abalada, já perdeu estrategistas importantes e tenta desesperadamente mudar o foco para a “guerra espiritual” e a “reanimação da base bolsonarista”, na tentativa de esconder o rastro de esmolas e laranjas que parece seguir sua trajetória política.

A pré-campanha de Flávio Bolsonaro é um espelho da crise ética que se abate sobre o bolsonarismo. Entre a filiação fraudulenta, a narrativa golpista importada da Venezuela, a disseminação de “fakes news” e a suspeita de que seu filme foi bancado com dinheiro de um banqueiro preso por um esquema bilionário, o candidato do PL tenta construir uma candidatura baseada na ficção. Seu principal trunfo, aparentemente, é o mesmo do pai que é acusar os outros do que ele mesmo pratica, na esperança de que o eleitor não preste atenção na “faxina” que ele insiste em não fazer na própria casa.

(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.

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