Valfrido Silva
Nem eu estava mais aguentando essa história de IAIA para cá, IAIA para lá, o insubordinado entrevistando a dita-cuja, a dita-cuja retribuindo com um texto que este velho escriba, suspeitíssimo, resolveu chamar de antológico. Fui dormir ontem decidido a derrubar, deixar em standby ou simplesmente mandar para a velha cesta-seção das redações o texto em que pretendia responder à homenagem explicando o marco temporal dessa história toda, especialmente para quem chegou agora e talvez imagine que a insubordinação tenha nascido junto com a inteligência artificial. Normalmente, quando isso acontece, Morfeu presta serviços gratuitos à redação e acordo com alguma solução. Desta vez, nada. Nem o banho, sob os efeitos do “precioso líquido” que uma médica da Baixada Santista transformou em panaceia para todos os males do corpo e da mente, ajudou. Foi mais rápido que banho de soldado recém-incorporado. Veio o café e a decisão parecia tomada: gaveta nele.
Foi quando abri o computador para dar meu já rotineiro bom-dia à IAIA e o gancho estava literalmente diante dos meus olhos. Uma zebra, naquela tela de abertura do dia. Claro que a primeira ideia foi correr a uma lotérica e antecipar para esta sexta-feira a fezinha que normalmente faço aos sábados, na volta da padaria do fuxico. Mas havia uma possibilidade muito mais interessante do que qualquer superstição lotérica. A zebra me fez lembrar imediatamente de Juliano Ferro, prefeito de Ivinhema e autointitulado “o prefeito mais louco do Brasil”, anunciando, no dia anterior, em uma de suas popularíssimas lives, que pretende dar seu segundo voto para o Senado a Vander Loubet, do PT. O primeiro, fez questão de esclarecer, continua reservado a Reinaldo Azambuja, em cujo time político joga. Foi aí que a zebra deixou de ser bicho para virar política — e o texto que estava a caminho da cesta-seção ganhou sobrevida.
Porque há uma pergunta esperando resposta desde que o grupo de Azambuja resolveu transformar a dobradinha com Capitão Contar quase numa cláusula de fidelidade. Até onde vai o poder dos caciques para determinar o segundo voto do eleitor? Azambuja bateu na mesa para deixar claro que quem estiver com ele deveria também votar em Contar. A engenharia parecia perfeita enquanto o gado permanecesse comportadamente dentro dos respectivos currais. O problema é que Juliano Ferro acaba de abrir uma porteira. E não é qualquer um: trata-se de um dos personagens mais vistosos do espectro governista estadual, aliado de primeira hora do grupo que comanda Mato Grosso do Sul e que já chegou, inclusive, a se insinuar como candidato a governador. Se ele pode reservar o primeiro voto a Azambuja e entregar publicamente o segundo ao petista Vander Loubet, por que seus eleitores e, principalmente, seus seguidores nas redes sociais não poderiam fazer o mesmo?
É aí que a porteira começa a ficar mais interessante que a própria cerca. O senador Nelsinho Trad, que durante boa parte da pré-campanha trabalhou pela própria reeleição, acabou desistindo da disputa para integrar como suplente a chapa de Azambuja. Ficou para trás um eleitorado que vinha sendo cortejado para votar nele como titular e que, na urna, continuará dispondo de dois votos para o Senado. Para onde irá o outro? Capitão Contar conseguirá herdá-lo por determinação do grupo ou parte dessa boiada eleitoral poderá procurar outra porteira? E se alguns desses eleitores já estiverem dispostos a votar em Fábio Trad para governador e Marquinhos Trad para deputado federal, ambos em outro arranjo político, será tão absurdo imaginar que o segundo voto para senador possa acompanhar Vander Loubet? O mesmo raciocínio vale para eleitores de Soraya Thronicke e de outros candidatos: o segundo voto talvez seja justamente aquele que mais resista ao cabresto partidário.
Não estou decretando transferência de voto nem transformando metáfora rural em pesquisa eleitoral. Estou fazendo aquilo que um velho jornalista aprendeu a fazer diante de uma porteira aberta: perguntar quem pode passar por ela. Se Juliano Ferro, aliado ostensivo de Azambuja, pode subir na cerca e anunciar Vander como sua segunda escolha, a disciplina pretendida pelo grupo governista começa a apresentar uma fissura que merece ser observada até 4 de outubro. E aí surge a ironia: uma estratégia concebida para concentrar os dois votos do mesmo campo político pode acabar estimulando exatamente a liberdade que pretendia conter. Será o feitiço do segundo voto começando a virar contra o feiticeiro do primeiro?
E tinha que ser ele. Juliano Ferro, o prefeito mais louco do Brasil. Só falta agora sua aliada de primeira hora, a vereadora douradense e candidata a deputada federal Isa Marcondes, aquela mesma que ressuscitou o inesquecível slogan “de zona eu entendo”, subir na porteira ao lado de Ferro e anunciar também seu segundo voto no petista. Aí já não seria nem zebra. Seria ferro mesmo, com perdão pelo trocadilho. E, se por aquela porteira começarem a passar também eleitores originalmente destinados aos currais de Contar, Nelsinho ou Soraya, talvez alguém tenha de explicar aos estrategistas eleitorais uma velha característica da pecuária política: pode-se construir a cerca, escolher o curral e até indicar a porteira, mas convencer a boiada a seguir exatamente o caminho desenhado no papel é outra conversa.
Como se a manhã ainda precisasse justificar a decisão de não engavetar tudo, a primeira mensagem recebida pelo WhatsApp veio do médico Luiz Machado, amigo das antigas e personagem de uma história que eu pretendia contar naquele outro texto. Queria saber se não escreveria sobre o imbróglio envolvendo o ministro Flávio Dino, prato cheio para quem aproveita esse tipo de situação para voltar ao tema da censura e da liberdade de imprensa. Machado é o mesmo que, durante uma cirurgia, ouviu um colega questionar se os textos que este escriba assinava em O Progresso eram realmente escritos por ele — uma história deliciosa que fica para outra hora. Respondi que, além de tudo o que já escrevi ao longo da vida sobre liberdade de imprensa, talvez a melhor resposta esteja no meu próximo livro, cujo título por si só já entrega boa parte do conteúdo: “Como se vira jornalista”.
E foi aí que percebi que a zebra tinha resolvido também outro problema. O texto que eu pretendia publicar hoje era uma longa retrospectiva destinada a explicar de onde surgiu esse “insubordinado” que a IAIA incorporou ao vocabulário da casa. Não se trata de autodenominação. A expressão nasceu nos tempos da Operação Uragano, quando passou a identificar profissionais de imprensa que ousavam tocar naquele assunto espinhoso demais para muita gente. Eu poderia seguir daqui recuperando redações, personagens, brigas, censuras, componedores, bolandeiras, histórias da folha de dourados, da Rádio Clube, da TV Morena, de O Progresso e tantos outros episódios acumulados em 56 anos de ofício. Material não falta. Talvez falte ao leitor moderno a obrigação de suportá-lo todo de uma vez — e, convenhamos, um bom gancho sempre deve ter preferência sobre uma chorumela saudosista.
O currículo deste velho escriba, de sobejo conhecido por quem frequenta estas páginas, volta portanto para a gaveta. Fica reservado para algum dia em que me falte inspiração — hipótese que, reconheço, o bicho carpinteiro até agora tem se esforçado para tornar improvável — e, mesmo assim, destinado sobretudo a quem gosta de história. Parte dele já está espalhada pelo contrapontoMS e outra parte encontrará seu lugar no Como se vira jornalista. Afinal, depois de 56 anos de jornalismo, seria imperdoável abrir o computador, encontrar uma zebra, lembrar que o prefeito mais louco do Brasil acaba de escancarar uma porteira eleitoral e trocar tudo isso por uma apresentação de currículo.
Talvez esteja aí, afinal, a única explicação que ainda faltava para essa história de insubordinação. Não é prêmio, título honorífico nem rebeldia cultivada para fazer pose. É simplesmente a incapacidade de continuar escrevendo o texto planejado quando aparece, atravessado no caminho, um gancho melhor. Ontem eu pretendia explicar por que nunca consegui parar de escrever. Hoje uma zebra apareceu na tela, Juliano Ferro abriu a porteira e resolveu a questão por mim. O resto da história? Quem sabe esteja justamente no segundo voto que passar por ela.
