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Dourados
sexta-feira, agosto 21, 2026

Dourados corre o risco de ficar sem deputado federal

Geraldo Resende e Rodolfo Nogueira tentam preservar as duas cadeiras da cidade em Brasília, Isa Marcondes corre por fora e uma eleição de apenas oito vagas promete transformar aliados de partido em adversários ainda mais perigosos

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Valfrido Silva

A eleição para deputado federal deste ano talvez seja a mais cruel de todas. Para ocupar uma das oito cadeiras que o Mato Grosso do Sul tem direito na Câmara Federal não basta ao candidato ser dos mais votados: antes, seu partido ou federação precisa atingir o quociente eleitoral ou ser beneficiado pelas “sobras” e, depois, ele ainda terá de sobreviver aos companheiros do próprio balaio. É nesse funil que Dourados, que já teve por duas legislaturas bancadas com três representantes, corre em 2026, um risco que há muitos anos não existia: ficar sem representação própria em Brasília, apesar de largar com dois deputados tentando a reeleição. Geraldo Resende carrega seis mandatos e o currículo de “maior trazedor” de recursos para a cidade, especialmente para a saúde. Rodolfo Nogueira tenta o segundo mandato agarrado à identidade de guardião da tornozeleira política de Jair Bolsonaro, só que agora com sua principal referência na cadeia e, portanto, com capacidade bem menor de descer pessoalmente ao palanque para socorrer seus discípulos.

Os dois ainda resolveram acrescentar uma dificuldade doméstica à matemática que já não era fácil. Rodolfo ganhou uma muleta chamada Gianni Nogueira, candidata a deputada estadual e, para quem não se lembra da deliciosa definição do próprio marido, a mulher que cuida do cartão de crédito dele. Pode ajudá-lo barbaridade na dobradinha, mas é uma faca de “dois legumes”: candidatos a estadual que anteriormente dividiam campanha e votos com Rodolfo agora têm excelentes motivos para procurar outro federal. Geraldo sofre do mesmo “agravante”. Depois de seis mandatos construindo dobradinhas Estado afora, resolveu fabricar seu próprio chaveirinho: a filha Bárbara Rezende, candidata à Assembleia. Amor de pai não se discute. A conta eleitoral, talvez.

“E aí é que surge o pobrema”, como diria o tio do prefeito Marçal Filho, meu sogro Mané Torquato. Geraldo terá de disputar espaço dentro de uma federação que reúne gente do tamanho eleitoral de Rose Modesto e ainda o ex-prefeito de Dourados Alan Guedes, que, depois de dois anos sabáticos, tenta ressuscitar politicamente “com o coração exalando perdão” e, para complicar ainda mais a vida do companheiro de federação, arrancando votos na mesma terra vermelha de Seo Marcelino. O Gordinho do Bolsonaro está num PL onde aparecem o também “douradense” Marcos Pollon, Dagoberto Nogueira, Mara Caseiro, Edson Giroto & Cia. Isa Marcondes, a Cavala, tenta ampliar o número de gabinetes douradenses para três no Anexo IV do Congresso Nacional, mas corre pelo Republicanos, onde, para se garantir, terá que ter mais votos que o deputado Beto Pereira, em busca da reeleição e favorecido pelo recall da derrota para Adriane Lopes na disputa pela prefeitura de Campo Grande. E ainda temos o vereador douradense Elias Ishy, metido na federação de PT, PCdoB e PV, onde seus votos poderão servir de escadinha para Camila Jara ou para o neo-esquerdista Marquinhos Trad. Eis uma das graças perversas do sistema proporcional: o eleitor pode votar num douradense e ajudar a eleger um campo-grandense.

É por isso que, antes de começarmos os prognósticos desta série — quem puxa, quem entra na sobra, quem corre por fora e quem está apenas ajudando a encher o balaio —, precisaremos escarafunchar partido por partido, federação por federação. Em 2022, o quociente eleitoral para deputado federal em Mato Grosso do Sul ficou em 171.851 votos. Não significa que um candidato precise individualmente dessa montanha de votos, mas ajuda a entender por que uma votação aparentemente extraordinária pode não bastar e outra bem menor podendo terminar em posse. Primeiro é preciso fabricar a cadeira. Depois começa a briga para descobrir quem senta nela.

Para dificultar ainda mais estes cálculos e projeções, uma assombração já ronda os pretendentes. Pelos bastidores “aparece” um ilustre desconhecido para grande parte do eleitorado, desses paraquedistas que desembarcam de repente numa eleição cercados de histórias sobre uma estrutura tão portentosa que, na versão mais pitoresca que já chegou à padaria do fuxico, nem helicóptero comportaria as tais “malas pretas” que ele estaria prometendo distribuir Estado afora. Verdade? Bazófia eleitoral? Conversa de apoiador valorizando o passe? Não se sabe. E enquanto não se souber, ficará exatamente onde deve ficar: no terreno do rumor, jamais da acusação.

Daqui até outubro vamos tentar separar uma coisa da outra. Quociente, sobras, votação anterior, bases eleitorais, puxadores, paraquedistas e, naturalmente, meus pitacos depois de 56 anos vendo candidato favorito morrer na praia e azarão chegar à margem dando risada.

Sem bola de cristal. Longe, como sempre, da famosa mala preta, sem sequer sentir seu cheiro para tentar descobrir se o que tem lá dentro é, mesmo, suficiente para mudar uma tendência eleitoral. Outubro fará a auditoria. Até lá, vamos continuar escarafunchando.

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