Quando sei que cerca de 645 milhões de pessoas passaram fome no mundo em 2025, segundo a ONU, o que corresponde a aproximadamente 7,8% da população mundial, tenho dificuldade em compreender por que, nas nossas sociedades ditas «desenvolvidas», podemos encontrar pão no lixo.
Aqui na França, a legislação prevê a prevenção do desperdício alimentar. Doações devem ser feitas quando os alimentos ainda são próprios para o consumo. Muitos supermercados trabalham com associações de ajuda alimentar, que recolhem e distribuem os produtos.
Caso contrário, se o alimento não puder mais ser doado, ele deve entrar no circuito adequado de resíduos alimentares, os biodéchets, ou seja, na lixeira destinada a esse tipo de resíduo. Em Paris, os resíduos alimentares são recolhidos separadamente e encaminhados para valorização, inclusive para a produção de biogás. O que significa que o comerciante não deve simplesmente abandonar os alimentos na rua ou colocá-los de qualquer maneira em uma lixeira pública.
Em Paris, os imóveis têm lixeiras amarelas para plásticos, papel e latas; brancas para vidros; e verdes para o restante do lixo. Os restos de comida, ossos de aves ou de peixes, cascas de frutas e legumes, enfim, tudo que é de origem vegetal, devem ser colocados nas lixeiras destinadas aos resíduos alimentares, existentes nas calçadas da cidade.
Em relação aos comerciantes, o problema é que não existe fiscalização suficiente, nem conscientização por parte de alguns deles. É como a pessoa que, em vez de colocar seu lixo na lixeira, joga-o em jardins e lugares inadequados. Cabeças de bagres, como dizia meu amigo “Zeca Diabo”.
E é por isso que, quando vejo uma lixeira geral com alimentos, como foi o caso em frente a uma padaria, durante a semana, quando encontrei pães dentro de uma delas, tenho vontade de ir falar com o comerciante. O cidadão pode entrar no site da Prefeitura e fazer uma denúncia contra o comerciante. Mas é tanta energia para fazer algo que, penso, deveria contar com um serviço específico de fiscalização da própria Prefeitura, que isso me cansa.
Diria que, antes da fiscalização e da aplicação de multas, a Prefeitura deveria educar. Por exemplo, essa padaria poderia colocar, em um espaço dentro da loja, uma placa dizendo: «Pão velho, sirva-se», ou sei lá o quê. Seria uma maneira simples de evitar que um alimento ainda consumível fosse parar no lixo.
Não posso deixar de pensar no poema de Emmanuel Marinho, “Genocíndio”, publicado em seu livro Margem de papel, de 1994, em que uma criança indígena pergunta: «Tem pão velho?». Uma pergunta simples, mas que se transforma em uma imagem dolorosa da fome e do desperdício. E talvez seja justamente essa contradição que mais me incomoda: de um lado, alguém procurando pão; de outro, pão ainda próprio para consumo sendo jogado fora.
Mazé Torquato Chotil: Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Atualmente vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 15 livros publicados (seis em francês).
Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus.
Recebeu os prêmios da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB): Prêmio Romance 2025, pelo livro Mares Agitados: Na periferia dos anos 1970, e Prêmio Biografia 2022, por Maria d’Apparecida: negroluminosa voz.
