Anita Tetslaff*
A eleição presidencial de 2026 não será uma disputa convencional entre os dois principais candidatos. Analistas, políticos, juristas e movimentos sociais concordam com um diagnóstico que vai além da polarização partidária: o pleito representa, na prática, um plebiscito sobre o próprio funcionamento do Estado brasileiro. De um lado, forças progressistas defendem a manutenção do Estado Democrático de Direito, consolidado após a Constituição de 1988. Por outro, a extrema direita, que não foi completamente desarticulada após a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, trabalha para construir um Estado autoritário, com ataques sistemáticos às instituições e a promoção de anistia para os condenados pelos atos antidemocráticos.
Diferentemente do que se poderia supor, uma tentativa de golpe não é sufocada de imediato. A história política brasileira e internacional demonstra que movimentos de ruptura institucional raramente desaparecem por completo quando seus líderes, financiadores e apoiadores permanecem livres, organizados e ocupando espaços de poder. O caso brasileiro é emblemático porque após o 8 de janeiro de 2023, quando milhares de manifestantes invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília, o que se viu não foi o desmantelamento completo da rede golpista, mas sua reorganização sob novas formas.
Segundo o relatório da Polícia Federal, concluído em 2024, a investigação sobre a tentativa de golpe identificou núcleos de financiamento, articulação política e apoio militar que permaneceram ativos mesmo após a posse do governo eleito. O documento aponta que parte expressiva dos envolvidos migrou para o debate público acerca da chamada “anistia”, uma das principais pautas que, na prática, busca a impunidade aos crimes contra o Estado Democrático de Direito.
A segunda frente foi a desmoralização das instituições com ataques sistemáticos ao Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente ao ministro Alexandre de Moraes e à produção de instabilidade institucional. O Monitor de Ameaças à Democracia, mantido pela Universidade de São Paulo (USP), aponta que entre 2023 e 2025 houve um aumento de 47% nas ameaças públicas aos ministros do STF e de 62% nas campanhas de desinformação contra o sistema eleitoral brasileiro. Isso cria o ambiente propício para o que cientistas políticos como Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, autores de “Como as Democracias Morrem”, classificam como “autocratização gradual”, processo no qual as instituições democráticas são corroídas por dentro, sem necessidade de um golpe militar clássico.
O atual cenário político divide-se em dois campos claramente distintos. De um lado está a extrema direita, incluindo desde setores do bolsonarismo até movimentos neofascistas organizados, que abertamente defende a ruptura com o Estado de Direito, a prisão de opositores políticos e a subordinação do Judiciário ao Executivo. Desse campo, o articulador principal é o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que, segundo a mais recente pesquisa do Instituto Datafolha, divulgada em 11 de setembro de 2026, aparece com 35% das intenções de voto no primeiro turno.
Do outro lado, os progressistas, que reúnem desde o Partido dos Trabalhadores (PT) até movimentos sociais, partidos de centro-esquerda e setores da sociedade civil, que querem manter as instituições democráticas, a regulação das plataformas digitais e a responsabilização dos envolvidos nos atos golpistas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o principal nome desse campo e lidera as pesquisas com 39% das intenções de voto no primeiro turno; a simulação do segundo turno entre os dois mostra um empate técnico: Lula registra 46% e Flávio Bolsonaro, 44%.
A eleição de 2026 não será assim uma questão entre Lula e Flávio Bolsonaro. Será uma disputa sobre o próprio modelo de Estado: manter um sistema no qual o Executivo é fiscalizado pelo Legislativo e pelo Judiciário, e as eleições são organizadas por um órgão independente (Tribunal Superior Eleitoral) e a liberdade de imprensa e de expressão é garantida, mesmo para aqueles que atacam esses princípios.
O cientista político Sérgio Abranches, em artigo na revista Novos Estudos (Cebrap), resume o dilema: “O Brasil vive um momento de escolha civilizatória. Ou reafirmamos o pacto democrático de 1988, ou aceitamos a possibilidade de um retrocesso autoritário que já tem rosto, voz e estrutura organizada.”
O pleito de 2026 será, acima de tudo, um teste de resistência democrática. A tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 não terminou com a posse do governo eleito. Ela apenas mudou de forma. O que está em jogo não é a vitória deste ou daquele candidato, mas a sobrevivência do próprio Estado Democrático de Direito. A história recente, do Brasil e do mundo, mostra que golpes não são eventos isolados, mas processos. E processos, quando não interrompidos, tendem a se completar. A escolha de 2026 definirá se o Brasil interrompe esse ciclo ou se assiste, passivamente, à sua consumação.
(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.
