19.2 C
Dourados
sexta-feira, setembro 18, 2026

Bolsa família: se a Justiça deixar, Lula dá R$ 91; se barrar, a oposição tira

Reajuste do Bolsa Família chega às contas de parte dos beneficiários às vésperas do segundo turno e coloca os adversários do presidente numa armadilha em que contestar o benefício pode custar mais votos do que o próprio aumento renderá

- Publicidade -

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acaba de executar uma dessas jogadas políticas em que o adversário pode escolher de que lado pretende perder. A dezessete dias do primeiro turno, anunciou reajuste de 15,04% no Bolsa Família, elevando o piso mensal de R$ 600 para R$ 691. São R$ 91 a mais no bolso de quase 20 milhões de famílias, aumento apresentado pelo governo como reposição da inflação acumulada desde a reformulação do programa, em março de 2023. A justificativa econômica existe, o benefício social é evidente e a necessidade dos brasileiros pobres dispensa discurso. O pequeno detalhe — sempre aparece um pequeno detalhe — está no calendário: os pagamentos com os novos valores começam no dia 19 de outubro, seis dias antes do segundo turno presidencial.

Não se pode afirmar, sem provas, que o reajuste tenha sido concebido apenas como artifício eleitoral. Pode-se, entretanto, constatar que, planejado ou não, funciona como uma extraordinária operação de marketing político. Se o aumento entrar na conta, Lula será o presidente que deu R$ 91 aos pobres na semana decisiva da eleição. Se a Justiça Eleitoral barrar a medida, Lula será o presidente que tentou dar e foi impedido pelos adversários. Se Flávio Bolsonaro atacar o reajuste, correrá o risco de aparecer como candidato que pretende retirar dinheiro de quem precisa. Se prometer mantê-lo, como já prometeu, ajudará a legitimar a decisão do governo. É o equivalente político de uma moeda que cai em pé — e ainda pede voto.

A armadilha começou a produzir efeito poucas horas depois do anúncio. O deputado federal Zé Trovão, aliado de Flávio Bolsonaro, recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral acusando Lula de abuso de poder político e pedindo a suspensão do reajuste. André Mendonça rejeitou a ação sem examinar o mérito, por entender que o parlamentar, candidato em Santa Catarina, não possui legitimidade para contestar ato relacionado à disputa presidencial. Flávio correu para desautorizar o aliado, declarou que não havia pedido a iniciativa, disse discordar da tentativa de barrar o aumento e assegurou que manterá os novos valores caso seja eleito. Lula nem precisou responder. O próprio adversário tratou de informar aos beneficiários que os R$ 91 estão garantidos, qualquer que seja o vencedor.

Convém esclarecer que nem todas as famílias receberão antes da votação. Os depósitos obedecem ao número final do NIS: parte dos beneficiários terá o dinheiro liberado entre 19 e 23 de outubro, antes do segundo turno, enquanto os demais receberão depois. Ainda assim, o efeito político não respeita o calendário individual. A notícia chega a todos de uma vez; o dinheiro entra primeiro em algumas contas, mas a expectativa entra em todas. Em Dourados, onde mais de 80 mil pessoas estão ligadas ao Cadastro Único — o que não significa que todas recebam Bolsa Família —, basta imaginar o alcance de uma decisão capaz de atravessar bairros inteiros, circular entre famílias, movimentar o comércio e desembarcar na conversa da fila do supermercado.

A operação não veio sem custo. O reajuste exigirá aproximadamente R$ 5,8 bilhões adicionais ainda em 2026 e R$ 22,7 bilhões em 2027. O dinheiro extra não estava previsto no Orçamento deste ano nem no projeto orçamentário do próximo, obrigando o governo a remanejar despesas e buscar autorização para crédito suplementar. A correção pode ser socialmente justa, mas a conta continua sendo pública. O benefício tem dono na propaganda e milhões de donos na necessidade; a fatura, como sempre, pertence ao contribuinte.

Também seria desonesto tratar a manobra como invenção petista. Jair Bolsonaro fez coisa parecida em 2022, quando elevou o Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600 poucos meses antes da eleição. Na época, Lula denunciou a medida como eleitoreira, acusou o adversário de usar a pobreza para tentar comprar a simpatia do eleitor e, percebendo que seria suicídio político combater o benefício, prometeu manter os R$ 600 se chegasse ao Planalto. Chegou, manteve e agora acrescentou R$ 91. Mudam os personagens, permanece a velha descoberta de que programas sociais são indispensáveis para quem precisa deles e irresistíveis para quem precisa de votos.

A diferença está na embalagem. Bolsonaro recorreu à chamada PEC Kamikaze e promoveu um aumento de 50% em meio a críticas sobre responsabilidade fiscal. Lula apresenta uma reposição baseada no INPC, veste a decisão com a respeitabilidade da correção inflacionária e deixa o calendário produzir sozinho o efeito eleitoral. Os petistas são craques nesse tipo de construção narrativa: não vendem apenas a medida; organizam previamente o cenário em que qualquer reação do adversário reforça a mensagem do governo. Quem apoia reconhece a justiça social. Quem critica parece insensível à fome. Quem tenta barrar tira dos pobres. Quem promete manter admite que Lula acertou.

Talvez a oposição ainda encontre fundamento jurídico e legitimidade processual para questionar o decreto. Mas precisará explicar ao eleitor, em linguagem compreensível, por que considera ilegal o reajuste de um benefício que promete preservar. É uma tarefa ingrata, especialmente numa campanha polarizada em que Lula e Flávio aparecem praticamente empatados e cada voto pode decidir quem ocupará o Palácio do Planalto. Nos tribunais, a discussão será sobre orçamento, abuso de poder e legislação eleitoral. Nas ruas, será muito mais simples: Lula aumentou; tentaram impedir.

No dia 19 de outubro, quando os primeiros R$ 691 começarem a cair nas contas, faltarão seis dias para a votação. Se o dinheiro chegar, ponto para Lula. Se não chegar porque a Justiça o impediu, Lula apontará quem entrou com a ação e tentará transformar a frustração em voto. O presidente colocou R$ 91 sobre a mesa e deixou a oposição diante de duas escolhas: aceitar o presente ou assumir a culpa por tentar devolvê-lo. Em marketing eleitoral, às vezes a melhor jogada não é garantir a vitória. É oferecer ao adversário várias maneiras de ajudar você a vencer.

Contraponto-MS–IA, sob revisão e edição final do autor.

- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -

Últimas Notícias

Últimas Notícias

- Publicidade-