Um dia depois de a sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) ser inviabilizada pela ala próxima a Alexandre de Moraes, que conseguiu adiar as deliberações sobre abertura de investigação sobre o ministro, os principais candidatos à Presidência se pronunciaram sobre a crise na Corte. Tanto a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto a de Flávio Bolsonaro (PL) avaliam que o escândalo exerce influência direta sobre o pleito, com possibilidade maior de desgaste sobre o atual ocupante do Palácio do Planalto. Na quarta-feira, o petista resolveu citar diretamente os nomes dos magistrados, algo que vinha evitando. Cobrou o presidente da Corte, Edson Fachin, a assumir a responsabilidade de que o episódio não afete o processo eleitoral e, embora tenha defendido investigação, pontou o “trabalho extraordinário” de Moraes em “prender Jair Bolsonaro”.
Já o filho do ex-presidente, investigado no STF em inquérito que apura o financiamento de uma cinebiografia sobre seu pai, buscou associar politicamente os magistrados a Lula e disse que quem vota no adversário “também vota em Alexandre de Moraes”.
‘Responsabilidade’
Pressionado pelo avanço de Flávio nas pesquisas, Lula defendeu as apurações, criticou a sessão de terça-feira e mandou recado direto ao presidente da Corte:
— O presidente Fachin tem a responsabilidade de não permitir que isso atrapalhe o processo eleitoral — afirmou Lula, em entrevista ao Desce a Letra Show, no YouTube.
A sessão foi interrompida por um pedido de vista de Flávio Dino, ex-integrante do governo Lula e um dos principais aliados de Moraes. A suspensão ocorreu antes de a Corte analisar o conteúdo das mensagens enviadas por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, a Moraes. Pelo regimento do STF, o pedido de vista pode atrasar em até 90 dias a deliberação, o que pode jogar o caso para depois das eleições.
A pouco mais de 15 dias para o primeiro turno, a disputa é acirrada. Levantamento da Quaest divulgado na última segunda-feira mostrou, pela primeira vez, desde o início da campanha, Flávio com vantagem numérica em relação a Lula no segundo turno (42% a 40%). No primeiro turno, Lula manteve 36%, e Flávio foi de 29% para 31%.
O petista disse que Vorcaro “envolveu todo mundo” e fez considerações sobre as festas promovidas por ele.
— O que está acontecendo na Suprema Corte não é uma coisa boa, porque significa que aquele mafioso chamado Vorcaro envolveu todo mundo — disse. — Agora a gente vai saber quem é que estava com mulher, quem é que fez suruba. É uma orgia pura. Está todo mundo na expectativa: por que esses caras fizeram tudo isso? Tudo isso vai aparecer agora. É importante que apareça para a gente poder limpar este país. A Suprema Corte não pode ter a sua vida manchada.
O presidente, porém, criticou o que chamou de “denuncismo”. Segundo ele, a exposição contínua de acusações sem uma conclusão das investigações prejudica a imagem das instituições. Lula também indicou não ter gostado do ambiente em plenário do STF. A sessão foi marcada por troca de acusações e ofensas.
— Aquele debate ontem na televisão, eu assisti a uma parte dele. Não é correto — disse. — Estou indignado porque a sociedade brasileira não merece isso.
Em meio à crise, o presidente voltou a defender mudanças no funcionamento do Judiciário. Lula afirmou que pretende promover uma discussão sobre uma reforma no Poder, em um eventual novo mandato, mas não detalhou quais seriam as alterações.
Ao ser perguntado sobre Moraes, Lula evitou criticar o magistrado e o enalteceu:
— Ele foi presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) na eleição que eu ganhei. Fez um trabalho extraordinário para garantir a democracia nesse país, prendendo Jair Bolsonaro e os golpistas que estavam com ele. É por isso que o Flávio Bolsonaro está nervosinho.
O presidente também marcou distância ao dizer que não foi ele o responsável pela indicação de Moraes ao Supremo. Integrantes da campanha têm reforçado que é necessário que Lula repita que o magistrado foi indicado por Michel Temer para conter a associação que Flávio tem feito.
Lula manteve uma relação amistosa com Moraes ao longo do seu terceiro mandato. Houve, porém, um afastamento entre ambos após a derrota de Jorge Messias no Senado a uma vaga no STF em abril. Recentemente, no entanto, retomaram contato.
O ministro foi um dos responsáveis por sua reaproximação com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), em um jantar na noite de 4 de agosto na casa de Moraes, em Brasília.
Também na quarta-feiraDa estratégia revista por Lula ao flanco aberto para Flávio, entenda como a crise estendida no STF impacta na eleiçãoDa estratégia revista por Lula ao flanco aberto para Flávio, entenda como a crise estendida no STF impacta na eleiçãoDa estratégia revista por Lula ao flanco aberto para Flávio, entenda como a crise estendida no STF impacta na eleição, em encontro com pastores e lideranças evangélicas, o petista disse que não pretende transformar igrejas em palanques durante a campanha eleitoral. Lula classificou a religião como “sagrada” e disse que prefere fazer atos políticos nas ruas.
‘Ministros de Lula’
Flávio, por sua vez, afirmou que o julgamento representa uma “esperança”. Em agenda em Juazeiro do Norte (CE), ele direcionou seus ataques aos integrantes do STF indicados pelo atual presidente.
— Ninguém aguenta mais os ministros do Lula no Supremo melando o Brasil, atrapalhando a nossa democracia. O que nós vimos ontem é a esperança do povo brasileiro que está vivo ainda. Sem os ministros do Lula no Supremo, a democracia vive, o Brasil vive, o Judiciário vive — afirmou.
Flávio também voltou a criticar a proteção a Moraes.
— O próximo presidente da República, que vai ser Flávio Bolsonaro, indicará mais cinco ministros do Supremo. Nós não veremos mais esse triste espetáculo de tentativa de proteger Alexandre de Moraes. Hoje, quem está votando em Lula está votando em Alexandre de Moraes, mas isso tem dia e hora pra acabar, que é a partir de janeiro do ano que vem.
A estratégia de aproximar ambos politicamente já vinha sendo adotada pela campanha. Após o julgamento, Flávio afirmou que o adiamento provocaria desgaste eleitoral para Lula. O coordenador da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), também declarou que Lula e Moraes seriam “duas faces da mesma moeda”.
Por ora, a campanha de Flávio decidiu manter Fachin fora da linha de ataques e orientou o candidato a evitar críticas também a Gilmar Mendes, numa tentativa de preservar interlocutores na Corte enquanto explora eleitoralmente a crise envolvendo Moraes. O magistrado possui interlocução com Marinho.
Em paralelo, auxiliares do senador começaram a solicitar novas audiências com ministros para a próxima semana, ainda sem datas confirmadas, com o objetivo de acompanhar os desdobramentos da crise sem fechar canais de diálogo com o tribunal.
O presidenciável do PL e aliados também têm buscado focar as críticas em Flávio Dino, que foi ministro da Justiça de Lula e indicado por ele à Corte.
Em outra frente, bolsonaristas buscam se vincular a André Mendonça, que foi o responsável por solicitar o relatório que expõe as relações de Moraes com o banqueiro. O ministro foi indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, em 2021, para a Corte. À época, foi qualificado como o nome “terrivelmente evangélico” escolhido para ocupar a vaga aberta pela aposentadoria de Marco Aurélio Mello.
O Globo — Brasília
