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sábado, setembro 19, 2026

Contraponto triplo: Riedel rejeita salto alto, Contar mira STF e Azambuja deixa terno da posse na loja

Em coletiva em Dourados, governador rejeita o “já ganhou”, candidato ao Senado bate no STF sem aplicar a mesma régua a Flávio Bolsonaro e ex-governador contesta a debandada de prefeitos para Vander

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Valfido Silva

O governador Eduardo Riedel tirou o salto alto antes que alguém pudesse acusá-lo de estar desfilando com ele, Capitão Contar disse entender que o pau usado para bater em Chico nem sempre alcança Francisco e Reinaldo Azambuja, diante de uma conta eleitoral que ainda não fecha, preferiu deixar o terno da posse na loja até combinar a compra com o eleitor. Foi esse o retrato da coletiva concedida neste sábado (19), em Dourados, num hotel em Dourados, pelo governador e seus dois candidatos ao Senado, uma conversa que começou sob o peso das pesquisas favoráveis ao grupo governista, passou pelo Supremo Tribunal Federal e terminou com aquela velha prudência que costuma reaparecer quando o político se lembra de que pesquisa é fotografia, campanha é filme e urna, muitas vezes, escreve o final que ninguém havia colocado no roteiro.

A primeira pergunta foi para Riedel e nasceu de uma conversa da pré-campanha com um calejado coordenador, descontraído numa roda de conversa, resumin o ambiente de confiança com a frase de que “campanha sem adversário não tem graça”. Como os levantamentos continuam colocando o governador em posição confortável, a questão era saber se aquele sentimento permanecia ou se o grupo já havia percebido o perigo do salto alto, esse calçado que começa elegante nas pesquisas e, não raramente, termina atolado nas urnas. Riedel negou que sua campanha trabalhe com a eleição ganha, reconheceu a existência de oito candidatos ao governo — alguns mais expressivos, outros menos — e disse que pretende respeitar todos eles, mantendo uma campanha propositiva, baseada no que realizou no primeiro mandato e no plano preparado para um eventual segundo governo.

“Esse não é o meu sentimento”, respondeu, lembrando que as pesquisas retratam apenas determinado momento da disputa. Disse ainda que sua aliança conseguiu reunir o centro e a direita em torno de uma linha política comum e que não pretende alimentar a polarização ou acompanhar adversários que, segundo ele, escolheram uma campanha mais virulenta e pessoal. Quando provocado a apontar o concorrente mais expressivo, citou Fábio Trad, candidato do PT mais bem colocado nos levantamentos, e tratou como decisão pessoal o fato de ele enfrentar o governo enquanto o irmão, senador Nelsinho Trad, permanece próximo ao grupo governista. Riedel elogiou o senador Nelsinho Trad, destacou sua atuação no Senado e encerrou o assunto no território sempre seguro das escolhas individuais feitas dentro das famílias — sobretudo das famílias políticas.

Com Capitão Contar, o contrapontoMS se inspirou naquele princípio de justiça que atravessa gerações: pau que bate em Chico também deveria bater em Francisco. O candidato tem alertado para o risco de uma eventual reeleição de Lula permitir ao presidente indicar novos ministros para o Supremo Tribunal Federal. Restava saber se enxergaria o mesmo perigo numa vitória de Flávio Bolsonaro, que também teria a caneta para escolher ministros e, dependendo da composição do Senado, encontraria a porteira aberta para acomodar no STF nomes afinados com seu grupo político.

Contar, entretanto, não respondeu diretamente. Em vez de dizer se aplicaria a Flávio a mesma régua usada contra Lula, preferiu bater no Supremo. Afirmou que o STF não pode se transformar em “puxadinho de partido político”, acusou o Judiciário de invadir atribuições do Congresso e criticou a concentração de poder nas mãos de um único ministro. Depois avançou sobre Alexandre de Moraes, dizendo que sua sustentação dentro do próprio tribunal teria acabado e que o STF deveria afastá-lo, já que o Senado, em sua avaliação, não teve coragem de fazê-lo. “Cada dia que dá mais uma cavucada ali aparece mais sujeira”, disparou. Chico apanhou novamente; Francisco, protegido pelo sobrenome Bolsonaro, escapou pela tangente sem levar sequer uma varada.

A aritmética mais complicada ficou para Azambuja. O contraponto foi na linha de que bolsonarismo raiz tende a entregar parcela considerável de seus votos a Contar, embora o ex-governador também integre a chapa apoiada pelo PL. Ao mesmo tempo, prefeitos que cresceram politicamente sob a bandeira municipalista desfraldada durante os governos de Azambuja aparecem declarando voto no petista Vander Loubet. Para deixar a equação ainda mais interessante, até lideranças ligadas ao agronegócio, base histórica da centro-direita sul-mato-grossense, admitem caminhar com Vander. Somam-se dois candidatos governistas, dividem-se os votos conservadores, subtraem-se prefeitos e ruralistas e, no fim, ninguém sabe com absoluta certeza quem ficará com o resultado.

Foi a vez de Azambuja fazer o contraponto. Disse que o voto para o Senado tem forte componente pessoal e negou que cerca de 40 prefeitos estejam apoiando Vander. Segundo ele, não chegam a dez e, mesmo entre esses, haveria adesões apenas aparentes. “Apoio também fake, não é um apoio efetivo”, afirmou. O ex-governador disse enxergar forte adesão à chapa formada por ele, Contar e Riedel e apontou a falta de um palanque sólido como um dos motivos que levaram Nelsinho Trad a desistir da candidatura à reeleição.

Admitiu que integrantes da esquerda podem votar nele e que algumas lideranças conservadoras talvez apoiem Vander, mas tratou esses movimentos como exceções depois da união do centro com a direita. Para relativizar as divisões ideológicas, Azambuja recorreu ao bolso: “Não interessa se você tem R$ 100 no bolso direito ou no bolso esquerdo. Ele é R$ 100”. A comparação serviu para defender uma campanha concentrada no custo de vida, no endividamento público e nas dificuldades do comércio, da indústria e do agronegócio. Serviu também, involuntariamente, para lembrar que voto, ao contrário da nota de R$ 100, muda de valor conforme o bolso político onde é depositado.

Restava saber se, apesar de toda essa prudência, Azambuja já havia comprado o terno da posse. A resposta recuperou uma lição de 2014, quando, segundo ele, seu adversário (Delcídio do Amaral, o mesmo que hoje disputa o governo novamente) comprou o traje e chegou a nomear o secretariado antes da eleição, esquecendo-se apenas de combinar o resultado com quem votava. “Então, vamos combinar com o eleitor no dia 4 de outubro. Se der certo, depois a gente compra o terno.”

E assim a coletiva terminou exatamente onde havia começado. Riedel recusou o salto alto, Contar bateu em Chico e poupou Francisco, Azambuja tentou fechar uma conta cheia de votos cruzados e o terno permaneceu no cabide. É melhor assim. Na política, roupa de posse comprada antes da apuração costuma envelhecer mais depressa do que promessa de campanha — e, quando o eleitor resolve mudar o roteiro, não há alfaiate capaz de ajustar o tamanho da derrota.

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