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sábado, setembro 19, 2026

Nas ruínas do neoliberalismo

O neoliberalismo não foi apenas uma política econômica. Ao transformar cidadãos em capital humano, desmantelar o tecido social e capturar a ideia de liberdade, criou o terreno fértil para o autoritarismo que hoje divide o Ocidente

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Anita Tetslaff*

Na América Latina, segundo o Latino barómetro, apenas 28% dos cidadãos dizem estar satisfeitos com a democracia. O Índice de Transformação da Fundação Bertelsmann –  BTI (2026) mostra que 45% dos brasileiros apoiariam um golpe militar para conter a alta criminalidade, percentual que sobe para 49% em caso de corrupção generalizada.

Esses números não são por acaso. São o sintoma de um mal-estar mais profundo que a teórica política Wendy Brown diagnostica precisamente em seu livro Nas ruínas do neoliberalismo: a ascensão da política antidemocrática no Ocidente (Editora Politeia). Sua tese central é que o neoliberalismo não apenas desmantelou a solidariedade social e as instituições democráticas, como também gerou ativamente as condições para a ascensão da extrema direita.

Brown parte de uma premissa que ecoa Foucault: o neoliberalismo não é meramente um conjunto de políticas econômicas. É uma racionalidade que molda o comportamento em todas as dimensões da vida, da educação à saúde, do lazer à aposentadoria. O cidadão deixa de ser sujeito de direitos e se torna capital humano, uma unidade autônoma avaliada por métricas de eficiência e competitividade.

O efeito é imediato e atinge o tecido social. Como argumenta a filósofa, o neoliberalismo busca desintegrar a própria noção de sociedade. A frase de Margaret Thatcher “A sociedade como tal não existe. Existem homens e mulheres individuais e existem famílias” é uma síntese de um projeto que reduz todos a unidades individuais de forma desconectada com o coletivo, responsáveis apenas por seu próprio destino.

A questão central que Brown coloca é: quando as pessoas falam em liberdade, de que liberdade estão falando?

O neoliberalismo produz uma concepção bastante específica de liberdade, que é a de não interferência. Nessa racionalidade, o indivíduo é concebido livre para dispor de seu dinheiro, de suas propriedades, de sua empresa e de suas opiniões como bem entender. Qualquer interferência, como, impostos destinados a financiar políticas públicas, leis que impedem a discriminação e direitos trabalhistas, tende a ser percebida como coerção, isto é, com restrição à liberdade individual.

Essa inversão tem consequências políticas profundas. Programas sociais de transferência de renda são vistos como “tomar o dinheiro de alguém”. Cotas nas universidades são percebidas como tirar a possibilidades do “meu filho”. O problema deixa de ser como construir uma sociedade mais livre e mais justa e passa a ser: por que eu preciso abrir mão de algo em benefício de alguém que eu nem conheço?

Para sustentar o desmantelamento das políticas de bem-estar social, o neoliberalismo recorre a pilares morais tradicionais: a família patriarcal, o conservadorismo religioso, a moralidade restauradora. Essa aliança, analisa Brown, combina a disciplina dos mercados com uma moralidade conservadora patriarcal, racista e xenofóbica.

Sob  a bandeira da liberdade de mercado e de expressão, essa coalizão deslegitima leis de inclusão, direitos das minorias e o próprio caráter laico e igualitário do Estado democrático. O que temos não é um Estado mínimo, mas um Estado “desdemocratizado”, com um administrador da vida econômica que usa o aparato estatal para sustentar ou criar mercados, enquanto esvazia a soberania popular.

A desestruturação econômica provocada pelas políticas neoliberais gerou perda de status na classe média tradicional, especialmente entre homens brancos que se sentem ameaçados pelas pautas de justiça social. Combinado ao niilismo político, Brown identifica nesse ressentimento o combustível do populismo reacionário. Ao ferir acidentalmente a supremacia masculina branca, gerou um populismo apocalíptico disposto a destruir o mundo a aceitar um futuro em que essa supremacia desapareça.

A análise de Brown não é uma profecia abstrata. É um diagnóstico do presente.

Em 1958, auge do capitalismo regulado, 73% dos estadunidenses confiavam no governo. Em 2025, esse número despencou para 17%, o menor patamar em quase sete décadas. A insatisfação com o funcionamento da democracia atinge 62% da população dos Estados Unidos. 

Na Europa, uma em cada quatro pessoas vota hoje em partidos de extrema direita. O Reagrupamento Nacional francês saltou de 19% (2022) para 37% (2024). A Alternativa para a Alemanha passou de 10% para 21% em quatro anos. O Chega português saltou de 7% para 18%. O Fratelli d’Italia foi de 4% para 26%. A extrema direita já integra coalizões de governo na Itália, Croácia, República Tcheca, Finlândia e Suécia, e lidera pesquisas na Áustria, Bélgica, França, Alemanha e Reino Unido.

No Brasil, a eleição de 2026 cristaliza a polarização entre dois projetos antagônicos. Como analisa o economista Carlos Ocké, não se trata de uma disputa eleitoral convencional. O que se vê é apoiadores da extrema direita subordinados ao imperialismo norte-americano, atacando as instituições democráticas, centralizando o capital financeiro e tentando suprimir direitos sociais e esmagar a classe trabalhadora.

A crise descrita por Brown remete diretamente à tradição do contrato social. Para Hobbes, o pacto exige a entrega da liberdade a um governante forte em troca de paz e segurança. Para Locke, o contrato serve para proteger direitos naturais como a vida e a propriedade. Para Rousseau, busca garantir a liberdade coletiva e a soberania baseada na vontade geral.

O neoliberalismo rompe com todas essas tradições. Ele não busca nem a segurança hobbesiana, nem a proteção lockeana, nem a vontade geral rousseauniana. Ele dissolve o próprio fundamento do pacto social ao negar que exista algo coletivo a ser protegido. Quando Thatcher declara que “a sociedade não existe”, ela não estava apenas descrevendo uma realidade, mas prescrevendo um projeto de destruição da própria possibilidade de um contrato social.

A contribuição central de Nas ruínas do neoliberalismo é demonstrar que a extrema direita não é uma aberração, mas um produto da racionalidade neoliberal. O autoritarismo que hoje ameaça as democracias ocidentais não surgiu apesar do neoliberalismo, surgiu por causa dele.

Entender essa genealogia é o primeiro passo para resistir. Como argumenta Brown, em vez de reagir a cada provocação da direita, a esquerda precisa apresentar sua própria visão de futuro. Isso significa reconstruir a ideia de sociedade, recuperar a noção de bem comum e devolver à liberdade seu sentido coletivo. Significa, em última análise, sair das ruínas.

(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.

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