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sábado, setembro 26, 2026

Quaest apanha dos dois lados e governistas prometem goleada no primeiro turno

Fábio Trad cobra transparência porque aparece com apenas 12%; aliados de Riedel dizem que os 51% do governador também estão abaixo da realidade e preveem mais de 70% em Dourados

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Valfrido Silva

Quinze dias atrás, durante a passagem do governador Eduardo Riedel e de toda a sua entourage por Dourados, o prefeito Marçal Filho deu um susto no público que se comprimia no salão de festas da Seleta Sociedade Caritativa e Humanitária. Com a experiência de quem passou boa parte da vida diante de um microfone e conhece como poucos o tempo de uma plateia, fez uma pergunta que, durante alguns segundos, pareceu anunciar uma preocupação: “Vocês não estão achando esta campanha muito silenciosa, diferente dos anos anteriores? Poucos carros de som, quase nada de bandeiras e nem tantos cabos eleitorais nas ruas…”

O salão ficou em silêncio. Marçal, bom animador de auditório que sempre foi e continua sendo, tratou imediatamente de desfazer o clima de velório eleitoral diante dos candidatos a governador, senador, deputados federais e estaduais presentes à festa. A campanha estava quieta, explicou, porque o eleitor já havia decidido. Não haveria mais disputa. Era apenas questão de esperar a abertura das urnas. E então repetiu, para entusiasmo do palanque, a previsão que já fizera dias antes, depois de uma reunião do vice-governador Barbosinha com os vereadores douradenses aliados de Riedel & Companhia: “Vamos ganhar e vai ser de goleada!”

A Quaest divulgada nesta sexta-feira pela TV Morena parece não ter desagradado somente a oposição. Fábio Trad, apresentado pelo levantamento com 12% das intenções de voto contra 51% de Riedel, mobilizou sua equipe jurídica para cobrar da Justiça Eleitoral a divulgação integral do relatório, dos municípios e dos bairros alcançados pela amostra. O petista quer saber onde a pesquisa encontrou tão pouco Fábio. Agora, governistas de Dourados também questionam o levantamento, mas pelo motivo oposto: consideram que os 51% atribuídos a Riedel ficaram abaixo do apoio que enxergam nas ruas e nos próprios levantamentos internos.

“Vai ser no primeiro turno, com mais de 60% no Estado. Em Dourados, passa de 70%”, afirmou neste sábado, por WhatsApp, um dos coordenadores da campanha governista, sob a condição de não ser identificado. E ainda deixou a cobrança devidamente agendada: “Anota aí. Domingo à noite você me fala”, referindo-se ao ansiosamente aguardado 4 de Outubro.

O entusiasmo, segundo ele, não brota apenas do calor natural de quem vive cercado de santinhos, bandeiras e candidatos. A coordenação trabalharia com números atualizados diariamente por mecanismos próprios de aferição das tendências eleitorais, produzidos exclusivamente para orientar a campanha. Seriam esses dados internos que sustentariam a expectativa de uma vantagem muito superior à apontada pela Quaest, inclusive em Dourados, onde a estrutura política reunida em torno do governador inclui o prefeito Marçal Filho, um dos mais bem avaliados da história, o vice-governador Barbosinha e a maioria esmagadora dos vereadores.

Convém separar, entretanto, pesquisa eleitoral de instrumento interno de campanha. Sem registro, metodologia pública, tamanho conhecido da amostra, distribuição territorial e margem de erro, o acompanhamento citado pelo coordenador não pode ser apresentado ao eleitor como pesquisa. É um termômetro privado, útil para quem está dentro do comitê, mas insuficiente para medir oficialmente a temperatura do lado de fora. Pode estar captando uma onda silenciosa. Também pode estar apenas refletindo o calor produzido pelo próprio palanque.

A ironia é que a Quaest conseguiu desagradar simultaneamente quem aparece muito atrás e quem aparece muito à frente. Fábio Trad suspeita que seus 12% sejam poucos. Os governistas acreditam que os 51% de Riedel também sejam poucos. Cada lado olha para a mesma fotografia e reclama que o instituto escolheu justamente o ângulo que o deixou menor.

A pesquisa Ranking/Top FM, divulgada neste sábado, adicionou combustível à discussão. Nela, Riedel aparece praticamente no mesmo patamar, com 50%, mas Fábio sobe para 18%. O novo levantamento oferece seis pontos de alento ao candidato petista, sem retirar do governador a possibilidade de vitória no primeiro turno. Para os aliados que esperam mais de 60% no Estado e mais de 70% em Dourados, porém, até a Ranking estaria enxergando apenas parte da goleada anunciada por Marçal.

Existe alguma lógica política no otimismo governista. Riedel reuniu uma coligação gigantesca, conta com o apoio da maioria dos prefeitos, possui uma estrutura eleitoral poderosa e chega à reta final liderando todos os levantamentos publicados. Em Dourados, acrescentam-se o peso da administração municipal, a presença de Barbosinha e uma aliança que ocupa quase todo o espaço disponível no palanque. Tudo isso pode produzir uma vitória larga. Mas transformar possibilidade em placar antecipado é o esporte predileto das campanhas — justamente aquele em que os marqueteiros raramente pedem a intervenção do VAR.

A frase de Marçal sobre o silêncio das ruas também permite duas leituras. Pode significar que o eleitor já decidiu e considera desnecessário buzinar sua escolha pela cidade. Pode indicar apenas que as campanhas mudaram, migraram para os celulares e abandonaram parte do barulho que, no passado, confundia poluição sonora com entusiasmo popular. E pode esconder o chamado voto silencioso, que tanto serve para ampliar uma vantagem quanto para preparar uma surpresa. Silêncio eleitoral não traz legenda.

Resta saber se a vontade dos governistas de contestar a Quaest chegará efetivamente à Justiça ou permanecerá como indignação de bastidor. Se avançar, teremos uma situação deliciosa: Fábio Trad pedindo explicações porque acredita ter mais votos, enquanto aliados de Riedel fazem o mesmo por considerarem modesta uma pesquisa que já dá ao governador 51% e vitória no primeiro turno. A Quaest ficará no meio do tiroteio, acusada pela oposição de favorecer demais o favorito e pelos governistas de favorecê-lo de menos.

Talvez Marçal esteja certo e a campanha silenciosa termine numa goleada. Talvez o coordenador anônimo apareça domingo à noite para cobrar o cumprimento da aposta. Antes disso, porém, há um pequeno detalhe que nem Quaest, Ranking, aferição interna, prefeito empolgado ou coordenador de WhatsApp consegue eliminar: falta combinar com o eleitor. E ele, embora muito cortejado nesta última semana, continua sendo o único instituto autorizado a divulgar o resultado definitivo.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.

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