Valfrido Silva
Na reta final, o eleitor mais cobiçado de Mato Grosso do Sul é justamente o que não se entrega a palanque nenhum. Ouve promessas, vê pesquisas e guarda o voto para a única conversa que importa: a que terá, sozinho, diante da urna. O entorno do governador Riedel gostaria de enxergar nesse silêncio a confirmação da vitória no primeiro turno; os adversários esperam encontrar ali os votos capazes de forçar o segundo. Nenhum dos dois pode reivindicá-lo. E talvez o maior risco para o governador esteja no contraste: enquanto o eleitor cala, parte do entorno azambujista já faz barulho de festa. A urna ainda não disse uma palavra.
Há até uma razão mais sólida para imaginar que esse silêncio favoreça Riedel do que a velha história de que eleitor não gosta de perder o voto. O governador já figurou entre os mais bem avaliados do país e sabe “vender” muito bem a própria gestão. Em que pesem as críticas dos adversários, tem tantos números positivos para mostrar que às vezes transforma o palanque numa prestação de contas comprida: a plateia entende o recado antes de acabar a lista. Pode ser enfadonho, mas há consistência no discurso. O entorno azambujista não precisa anunciar vitória em nome do eleitor calado. Basta não atrapalhar o que Riedel tem a dizer.
Riedel, quando perguntado, rejeitou o salto alto. Fez bem. A pesquisa pode autorizar confiança; não entrega a chave do gabinete para mais quatro anos. O problema é convencer disso o entorno azambujista, onde o nariz empinado aponta para a fatura já liquidada. O ex-governador lidera a corrida ao Senado e, por essas bandas, liderança às vezes vira ensaio de posse antes de virar voto. Mas o eleitor, esse personagem inconveniente, não recebeu o roteiro. Nem assinou compromisso de votar casado. Pode escolher um nome para uma das vagas e mandar o companheiro de chapa passear de volta ao comitê.
É aí que Capitão Contar começa a atrapalhar a arrumação da mesa. Aparece à frente de Vander Loubet em levantamentos recentes e não demonstra vocação para figurante no palanque de ninguém. Sua subida anima os que imaginam duas cadeiras para o mesmo campo político, mas também complica a vida de quem contava com uma distribuição obediente dos votos. No Senado, cada eleitor tem duas escolhas; nenhuma lei obriga que façam a viagem juntas. Azambuja pode receber a primeira e perder a segunda para Contar. Ou pode descobrir que o silêncio, além de não falar, também não respeita hierarquia.
Vander Loubet, por sua vez, ainda olha para o céu de Campo Grande. Na imaginação de sua campanha, um KC-390 poderia surgir carregado dos prometidos “santinhos” presidenciais, com Lula descendo a escada a tempo de dar à reta final o empurrão que falta. Por enquanto, há expectativa, cobrança e nenhuma agenda confirmada. Avião não joga voto direto na urna, mas uma visita pode acordar militância, produzir imagem e lembrar ao eleitor que a disputa não terminou. Se o pouso não vier, Vander terá de fazer no chão o trabalho que espera ver chegar pelo ar.
O silêncio, portanto, tanto pode proteger Riedel da reação que seus adversários esperam quanto esconder uma reação de que seu entorno não quer nem ouvir falar. Pode ser apatia, cálculo, desinteresse ou simples recusa de transformar o próprio voto em conversa de esquina. A uma semana do tão esperado pililim das urnas, o mais prudente seria baixar o nariz, guardar o terno e parar de atribuir palavras a quem não abriu a boca. No dia da eleição, o voto silencioso falará. E, quando falar, não haverá salto alto que abafe o barulho.
