Lendo o texto de Ricardo Kotscho no site da UOL, na terça-feira, dia da morte do jornalista e autor Zuenir Ventura, lembrei-me do encontro que tive com ele aqui em Paris. O artigo do amigo Kotscho sobre essa figura, um dos maiores mestres do jornalismo brasileiro, segundo ele, apontava uma série de momentos em que testemunhou a humanidade de Ventura.
Meu encontro com Zuenir Ventura não foi marcado, mas espontâneo. Entrei no metrô feliz por ter visto tantos autores brasileiros reunidos naquele 18º Salão do Livro de Paris, que, na época, acontecia no sul de Paris, em alguns pavilhões do centro de convenções da Porte de Versailles. O ano era 1998, e o Brasil era o país homenageado, o “convidado de honra”.
E Zuenir Ventura veio com uma comitiva de cerca de 40 autores. Fazia parte da lista oficial de escritores convidados pela Fundação Biblioteca Nacional e pelo Ministério da Cultura.
Quando entrei no metrô e me sentei, dei-me conta de que estava diante dele. Imagina a minha felicidade! Tímida como era — e continuo sendo —, com desejo de escrever, quando o jornalista-escritor que eu admirava estava ali, ao meu alcance. Tive um segundo de hesitação, um segundo apenas, pois ele estava lá, ao meu lado!
Comecei a lhe falar da felicidade que estava sentindo ao encontrar, assim, tantos outros escritores brasileiros. Eu, longe da minha terra, e eles vindo até mim! A conversa foi, em seguida, para a polêmica que se estabelecera em relação a Paulo Coelho.
O autor de O Alquimista, que os franceses tinham conhecido e pelo qual haviam se extasiado, publicado pela editora francesa Anne Carrière e tido como uma grande figura da literatura brasileira, veio a Paris a convite de sua editora e não fazia parte da lista oficial dos convidados. O autor já era um fenômeno editorial. Em maio de 1996, a Folha de S.Paulo, citando a revista francesa L’Express, noticiava que O Alquimista já havia vendido 1,2 milhão de exemplares na França (o total posterior foi de 3,7 milhões).
A polêmica estabelecida tinha duas alas: a dos prós e a dos contras. Para uns, ele deveria fazer parte dos convidados oficiais. Para outros, não! Para uns, a escrita de Paulo Coelho era literatura; para outros, não!
As vitrines das livrarias parisienses apresentavam as obras dos brasileiros durante o período do Salão. E Zuenir Ventura, quando constatou que uma livraria perto de onde estava hospedado não tinha Paulo Coelho na vitrine, foi conversar com o livreiro.
— Por que o Paulo Coelho não faz parte dos brasileiros que estão na vitrine?
— Porque o que ele escreve não é literatura.
Zuenir me disse: se “não era literatura”, o que era? O importante era que era um livro e que tinha um número enorme de leitores. Deveria ser considerado na história da edição brasileira. Defendeu sua presença, sua participação oficial. Ele tinha o que ensinar para nós.
Gostei da visão do Zuenir e, agora, lembro com saudades daquela grande pessoa — pela sua humanidade e pela sua estatura. Até breve, caro Zuenir.
Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Atualmente vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 15 livros publicados (seis em francês). Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus. Recebeu os prêmios da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB): Prêmio Romance 2025, pelo livro Mares Agitados: Na periferia dos anos 1970, e Prêmio Biografia 2022, por Maria d’Apparecida: negroluminosa voz.
