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segunda-feira, setembro 28, 2026

Na TV Morena, uma frase em falso pode mandar a eleição para o ralo

Riedel entra no último debate defendendo uma vitória no primeiro turno; Fábio Trad precisa transformar audiência em voto, enquanto Delcídio e Lucien podem escolher de que lado colocar o peso — ou a casca de banana

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Valfrido Silva

Passada a refrega das pesquisas do fim de semana, com institutos apanhando da oposição e dos governistas, a campanha ao Governo de Mato Grosso do Sul chega ao momento em que números, projeções e planilhas precisarão abrir espaço para a palavra ao vivo. O debate desta terça-feira na TV Morena, afiliada da Rede Globo, não será apenas o último encontro entre os candidatos antes da votação. Será a derradeira oportunidade de alterar, diante de uma audiência ampliada, a fotografia eleitoral que hoje favorece Eduardo Riedel e deixa Fábio Trad na difícil obrigação de produzir em algumas horas aquilo que ainda não conseguiu construir durante toda a campanha: a sensação de que a eleição continua aberta.

A expectativa natural está no tête-à-tête entre Riedel e Fábio, os dois primeiros colocados nas pesquisas, ainda que separados por uma distância que torna a expressão “confronto direto” mais apropriada ao palco do que às urnas. Na última Quaest divulgada pela TV Morena, o governador apareceu com 51% das intenções de voto, contra 12% de Fábio e 6% de Delcídio do Amaral. Se o levantamento estiver correto, Riedel entrará no estúdio não apenas como favorito, mas carregando nos ombros a expectativa de liquidar a eleição no primeiro turno. Fábio, por sua vez, não poderá se limitar a fazer um bom debate. Precisará provocar um fato eleitoral.

É justamente aí que mora o perigo para quem parece estar com a vitória encaminhada. Pesquisa mede intenção; debate testa nervos. O candidato pode passar semanas cuidadosamente protegido por marqueteiros, discursos ensaiados, vídeos editados e agendas planejadas, mas bastam cinco segundos de transmissão ao vivo para que a campanha inteira escorregue pela boca. A televisão aberta ainda possui esse poder. Talvez já não eleja sozinha, como em outros tempos, mas conserva capacidade suficiente para desmontar certezas, transformar uma frase infeliz em símbolo e entregar aos adversários o material que procuravam para os últimos programas eleitorais.

A nossa querida e perfumada Simone Tebet acaba de oferecer uma demonstração prática. Ex-ministra do Planejamento de Lula, ex-senadora por Mato Grosso do Sul e candidata a retornar à Câmara Alta, Tebet participava de um debate semana passada em São Paulo quando afirmou que “a classe política tem que roubar menos”. Provavelmente pretendia condenar a corrupção, os desperdícios e os privilégios. Entretanto, política não é concurso de intenção; é também domínio da palavra. Seu concorrente direto, Guilherme Derrite, percebeu imediatamente a avenida aberta e respondeu que político não deve roubar menos: não deve roubar nada. Nunca. Em poucos segundos, Simone deixou de discutir seus projetos e passou a explicar aquilo que desejara dizer. Uma eleição que parecia confortável ganhou uma frase capaz de persegui-la até a abertura das urnas.

Mato Grosso do Sul conhece muito bem esse fenômeno. Pedro Pedrossian, o maior e mais completo personagem político produzido pelos dois Mato Grossos, aprendeu da maneira mais dolorosa que nem os monstros sagrados são maiores que um microfone aberto. Em sua última tentativa de voltar ao governo, entrou no debate da TV Morena convencido de que ainda ocupava lugar central na história e saiu dele praticamente despedido. Diante de Zeca do PT, declarou que preferia estar pescando umas piaparas em seu pesqueiro Touro Morto, no Rio Miranda, a permanecer ali discutindo uma eleição que, em sua avaliação, pouco lhe acrescentava.

Pedrossian talvez acreditasse estar demonstrando desprezo pela pobreza do debate. O eleitor enxergou desprezo pela própria disputa — e, por extensão, por quem ainda teria de votar. O homem que governara Mato Grosso antes da divisão, comandara Mato Grosso do Sul, desenhara obras na prancheta do gabinete e entrava em qualquer ambiente ocupando até o espaço alheio não chegou sequer ao segundo turno. Enquanto Pedrossian escolhia mentalmente a isca, o eleitor escolheu Zeca e Ricardo Bacha. O Touro Morto entrou para a história não pelas piaparas, mas como o pesqueiro onde uma eleição considerada certa acabou fisgada pela soberba.

Eduardo Riedel certamente conhece essa história. Depois do deplorável espetáculo em que se transformou o debate promovido pelo Midiamax, o governador admitiu ao contrapontoMS que aquele espetáculo o desanimava da política. Agora terá de entrar no estúdio da TV Morena sem levar consigo o desalento — e muito menos a certeza anunciada pelos aliados de que a eleição já terminou. Ele possui números para defender, realizações para apresentar e uma larga vantagem para administrar. Possui também tudo a perder. Quanto mais próxima parece a vitória no primeiro turno, mais cara se torna qualquer derrapada.

Fábio Trad vive situação oposta. Tem pouco a perder e precisa correr riscos. Jurista experiente, bom debatedor e dono de reconhecida capacidade verbal, deverá tentar deslocar a campanha do terreno administrativo, em que Riedel se sente confortável, para o campo político, no qual poderá explorar alianças, contradições, denúncias e desgastes do grupo que governa o Estado há mais de uma década. Entretanto, também estará sob pressão. Se exagerar na acusação, poderá confirmar a imagem do candidato que oferece conflito onde o eleitor procura estabilidade. Se for excessivamente professoral, corre o risco de produzir uma aula brilhante para uma plateia que, àquela hora, estará esperando uma disputa pelo governo.

Restará saber de que lado jogarão Delcídio do Amaral e Lucien Resende, os outros convidados pela emissora. Delcídio possui experiência, memória política, conhecimento da máquina pública e contas antigas espalhadas por quase todos os palanques. Poderá concentrar fogo em Riedel, disputar com Fábio a condição de principal oposicionista ou atacar os dois para tentar emergir como alternativa na última curva. Lucien terá oportunidade semelhante: cobrar do governador pela esquerda, pressionar Fábio nos temas em que o petista tenha moderado o discurso para ampliar alianças ou aproveitar o duelo dos favoritos para falar diretamente ao eleitor que não se sente representado por nenhum deles.

Os dois aparentemente coadjuvantes podem acabar decidindo a qualidade — e até o resultado — do espetáculo. Num debate, quem não disputa a liderança frequentemente ganha liberdade para formular as perguntas mais incômodas. Delcídio e Lucien não precisam vencer Riedel ou Fábio naquela noite. Basta obrigá-los a responder aquilo que prefeririam deixar para depois da eleição. Também poderão funcionar como escudos involuntários, dividindo os ataques, desviando assuntos ou oferecendo a um dos ponteiros a oportunidade de parecer equilibrado diante do excesso alheio.

A eleição não será decidida apenas no estúdio da TV Morena. Seria ingenuidade atribuir a um debate poder absoluto num ambiente fragmentado pelas redes sociais, grupos de WhatsApp, vídeos curtos e bolhas ideológicas. Mas justamente por isso cada frase terá duas audiências: aquela que acompanhará o programa inteiro e a multidão que receberá, na manhã seguinte, apenas quinze segundos cuidadosamente recortados. O debate terminará de madrugada; os memes, os vídeos e as acusações continuarão trabalhando até a véspera da votação.

Riedel entrará tentando não perder a eleição que as pesquisas dizem estar ganhando. Fábio entrará precisando ganhar no palco a eleição que os levantamentos dizem estar perdendo. Delcídio e Lucien poderão escolher se ajudam a construir um confronto de propostas ou se espalham cascas de banana entre os dois. Ninguém precisa apresentar uma obra-prima. Todos precisam evitar a frase fatal.

Simone Tebet já ensinou, diante das câmeras, que “roubar menos” pode custar muito mais. Pedro Pedrossian demonstrou há décadas que uma pescaria imaginária pode afundar uma candidatura real. Se Riedel acreditar demais nas pesquisas, Fábio exagerar na artilharia, Delcídio resolver acertar contas ou Lucien trocar proposta por performance, a eleição poderá sair do roteiro.

Na reta final, portanto, a pergunta não é apenas quem vencerá o debate da TV Morena. É quem conseguirá atravessá-lo sem reservar lugar ao lado de Simone no constrangimento — ou de Pedrossian no Touro Morto.

(*) Jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.

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