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sábado, setembro 26, 2026

O terno de Zeca do PT, o cabide de Azambuja e a zebra que galopa outra vez

Em 2018, última pesquisa colocava o ex-governador petista onze pontos à frente de Soraya; dois dias depois, as urnas mandaram Zeca para o quinto lugar e vestiram a candidata do PSL para o Senado

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Valfrido Silva

Há oito anos, a dois dias da eleição, Zeca do PT podia encomendar o terno da posse sem parecer excessivamente otimista. A última pesquisa Ibope apontava Nelsinho Trad na liderança da disputa pelo Senado, com 25% dos votos válidos, seguido pelo ex-governador petista, com 19%. Moka vinha com 15%, Delcídio do Amaral marcava 10% e, lá atrás, em quinto lugar, aparecia uma advogada douradense estreante na política, com modestos 8%. Chamava-se Soraya Thronicke e, para os donos da lógica eleitoral, disputava apenas o direito de participar da fotografia. Dois dias depois, o eleitor revelou o filme inteiro: Nelsinho confirmou a primeira vaga, Soraya saltou para a segunda e Zeca, que parecia instalado no Senado, terminou em quinto. O terno ficou sem posse e Mato Grosso do Sul aprendeu — ou deveria ter aprendido — que urna não lê pesquisa, não respeita currículo e adora soltar uma zebra quando os favoritos começam a caminhar como se já conhecessem o gabinete.

Os números ajudam a medir o tamanho do coice. Na sondagem divulgada em 5 de outubro de 2018, Zeca tinha onze pontos de vantagem sobre Soraya. Nas urnas, ela recebeu 373.712 votos, 16,19% dos válidos, e ficou atrás apenas de Nelsinho, eleito com 424.085 votos. Moka terminou em terceiro, Marcelo Miglioli em quarto e Zeca só apareceu depois, com 294.059 votos e 12,74%. Soraya não ultrapassou apenas o petista. Passou por quatro candidatos, apagou a fotografia da véspera e entrou no Senado sem jamais ter ocupado cargo público. Levava consigo a onda bolsonarista daquele ano, fenômeno que as pesquisas registraram quando já havia virado maré, mas não conseguiram medir em toda a profundidade.

Oito anos depois, a cena começa a produzir aquela incômoda sensação de déjà-vu. Mudaram os personagens, trocaram-se algumas siglas e o terno agora pertence a Reinaldo Azambuja, mas a presunção de que a eleição já está resolvida continua pendurada no mesmo cabide. Na pesquisa Ranking divulgada nesta reta final, Azambuja aparece com 31,7%, seguido por Capitão Contar, com 25,5%, e Vander Loubet, com 17,3%. Já a Quaest virou a ordem na dianteira: Contar chegou a 23%, Azambuja marcou 22%, Soraya reapareceu com 10% e Vander ficou com 8%. Os levantamentos usam metodologias diferentes e produzem retratos distintos, mas concordam num ponto essencial: há duas vagas e gente demais querendo sentar nelas.

O detalhe é que a pesquisa do Senado possui uma matemática especialmente traiçoeira. Cada eleitor vota duas vezes, as combinações nem sempre obedecem às alianças oficiais e o segundo voto costuma escapar dos cabrestos partidários. Um eleitor de Riedel pode votar em Azambuja e Contar, em Azambuja e Vander, em Contar e Vander ou até reservar uma das escolhas para Soraya. Prefeitos que sobem no palanque governista não necessariamente carregam nos dois bolsos os votos determinados pela coordenação. O primeiro voto pode ser ideológico, o segundo municipalista; um pode obedecer ao coração, o outro à conveniência. Quando essa mistura chega à urna, a soma nem sempre reproduz a fotografia organizada para o horário eleitoral.

É justamente por isso que o contrapontoMS vem mantendo o terno de Azambuja no cabide. Não por torcida, antipatia ou desejo de fabricar uma derrota, mas por coerência com aquilo que a história eleitoral do Estado já ensinou. O ex-governador possui estrutura, capilaridade, prefeitos, alianças, dinheiro de campanha e uma trajetória que naturalmente o coloca entre os favoritos. Zeca também tinha história, recall, militância e aparecia em segundo lugar a quarenta e oito horas da votação. Nada disso impediu uma candidata com 8% de passar por ele quando o eleitor resolveu votar.

A comparação não transforma Contar, Vander ou a própria Soraya numa repetição automática da zebra de 2018. Eleição não é sessão reprisada e o passado não entra na urna. Serve, porém, como advertência aos que confundem liderança em pesquisa com diploma expedido pelo TRE, palanque cheio com voto depositado e máquina partidária com escritura de cadeira no Senado. A Quaest já colocou Contar numericamente à frente de Azambuja; o Ranking mantém o ex-governador na liderança e aponta Vander tentando alcançar o pelotão da frente; Soraya conhece melhor que todos o caminho pelo qual uma candidatura desacreditada pode atravessar a reta final, mas tem contra a velha máxima segundo a qual um raio não cai duas vezes num mesmo lugar. Ponto para Loubet.

Em 2018, a zebra vestia Soraya Thronicke e ninguém percebeu as listras até a abertura das urnas. Em 2026, ainda não se sabe quem cavalgará o animal — nem qual favorito poderá acabar no chão. Sabe-se apenas que há oito anos Zeca comprou o terno antes de conferir o tamanho da porta do Senado. Azambuja faria bem em deixá-lo no cabide até domingo à noite. Roupa guardada não perde eleição. Salto alto, às vezes, perde.

(*) Jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.

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