Anita Tetslaff*
Em um mundo polarizado entre progressistas e a extrema direita, uma batalha silenciosa é travada pelo legado de pensadores como Friedrich Hayek, Ludwig von Mises, John Maynard Keynes, John Stuart Mill, John Locke, Jeremy Bentham, Roger Scruton e Isaiah Berlin. Enquanto a extrema direita se apropria seletivamente dessas obras para legitimar políticas que penalizam as classes mais pobres, uma leitura progressista revela que muitos desses autores, em suas versões originais, oferecem ferramentas para criticar, e não para defender o ultraconservadorismo que hoje domina parte do debate público. O resultado é contraditório, com ícones do liberalismo sendo invocados para justificar a austeridade fiscal, o desmonte de direitos sociais e a criminalização da pobreza.
A coisa começa a ficar clara quando olhamos para a Escola Austríaca. Friedrich August von Hayek (1899–1992) e Ludwig Heinrich Edler von Mises (1881–1973) são tratados pela direita como grandes gurus do “Estado mínimo”, em que o governo deve meter a mão o menos possível na economia, porque o mercado se organiza sozinho e melhor, do que qualquer planejador central. Mas o historiador Quinn Slobodian mostra, no livro “Hayek’s Bastards”, que a extrema direita não nasceu como inimiga do neoliberalismo. Ela nasceu de dentro dele. Slobodian afirma que os extremistas não são monstros que apareceram do nada para atacar o sistema; eles são filhos bastardos dessa própria forma de pensar.
A partir daí, formou-se uma aliança, no mínimo estranha: neoliberais de um lado e, do outro, psicólogos racistas, defensores da supremacia branca e nacionalistas étnicos. Juntos, esse grupo deu origem ao que hoje chamamos de alt-right, a “direita alternativa”. Esse grupo defende a identidade branca como base de tudo e carrega uma série de pautas: anti-imigração, antissemitismo, antifeminismo, machismo e uma rejeição ferrenha ao multiculturalismo e ao politicamente correto. O resultado é uma mistura que usa um discurso supostamente “científico” para dizer que as hierarquias de raça, gênero e classe são coisas naturais, como se fossem leis da biologia. Traduzindo: não é que os pobres, os negros e as mulheres estejam em desvantagem por acaso, por causa de injustiças históricas ou estruturais, mas que nasceram para ocupar esse lugar, e ponto final.
No Brasil, essa fusão tem nome. O bolsonarismo se vende como defensor do “Estado mínimo”, mas, na prática, defende o Estado mínimo apenas para políticas redistributivas. Um grupo expressivo de deputados bolsonaristas votou contra a distribuição gratuita de gás para famílias pobres, invocando “responsabilidade fiscal” e “risco de assistencialismo”. Ao mesmo tempo, o mesmo Congresso aceita, sem escândalos, renúncias fiscais que ultrapassam R$ 800 bilhões para setores empresariais, principalmente do agronegócio. Austeridade, nesse contexto, é o nome elegante da hierarquia social em que o Estado pode tudo para o capital, quase nada para o povo.
Outra vítima da apropriação dos clássicos pela direita é John Maynard Keynes (1883–1946). Esse autor criticou os “austerianos” de seu tempo, alertando que tais medidas alienariam os trabalhadores e os tornariam presas fáceis da demagogia de direita. No entanto, como observa um estudo da Review of Keynesian Economics, a gestão da demanda keynesiana tornou-se parte do “kit de ferramentas de partidos políticos autoritários de direita ao redor do globo”. Governos populistas de direita usam cortes de impostos e aumentos de gastos para estimular economias nacionalistas, o que se tornou uma ironia amarga para um autor que via o Estado como ferramenta de social-democracia.
Por sua vez, Isaiah Berlin (1909–1997) é frequentemente invocado pela direita para defender a “liberdade negativa” contra qualquer intervenção estatal. Mas o filósofo George Crowder argumenta que o pluralismo de valores “implica uma crítica ao neoliberalismo global e apoio ao liberalismo igualitário ou à social-democracia”. O próprio Berlin reconhecia que a liberdade sem condições materiais é vazia, e seu pluralismo exige que a sociedade promova o maior número possível de bens, e não apenas a liberdade de mercado.
Nessa linha, John Locke (1632–1704), “pai do liberalismo”, defendia direitos naturais à vida, à liberdade e à propriedade, mas sua teoria da propriedade baseada no trabalho foi usada para justificar a expropriação dos pobres, como se a pobreza fosse uma falha moral e não estrutural. Enquanto John Stuart Mill (1806–1873), liberal radical para seu tempo, defendia os direitos das mulheres e criticava a má distribuição da propriedade; no entanto, sua ênfase na autossuperação individual é distorcida pela direita para negar qualquer responsabilidade coletiva pela miséria.
Por outro lado, Roger Vernon Scruton (1944–2020) é outro autor que leva a distorção a um nível ainda mais grave. O filósofo britânico não se limitava a defender a tradição e a propriedade como pilares da civilização. Ele foi além ao elogiar abertamente Augusto Pinochet, argumentando que o ditador chileno teve que agir violentamente e de forma contínuada para estabelecer uma ordem contra a degradação de uma sociedade devotada à justiça social. Essa retórica faz duas coisas perigosas ao mesmo tempo. Primeiro, desumaniza os pobres, tratando-os como invejosos e oportunistas, como se a revolta com a desigualdade fosse apenas ressentimento mesquinho. Para o autor, “somente a inveja explica a revolta com a diferença no consumo dos mais ricos”. É a velha ideia de que, para proteger os privilégios de alguns, vale tudo, inclusive eliminar quem ousa questionar.
Da mesma forma, Jeremy Bentham (1748–1832), criador do utilitarismo, buscou “a maior felicidade para o maior número”, mas suas propostas para confinar pobres em casas de trabalho sob princípios punitivos revelam as contradições de um pensamento que, apropriado pela direita, serve para justificar o sacrifício dos mais vulneráveis em nome de um “bem maior”, geralmente o lucro dos ricos.
A polarização política contemporânea não é apenas uma disputa por votos; é uma batalha pela memória e pelo significado das ideias. A extrema direita não inventou Hayek, Mises ou Scruton, ela os sequestrou. Leu o que lhe convinha, ignorou o que a contradizia e construiu uma ideologia que naturaliza a desigualdade, criminaliza a pobreza e legitima a violência. A tarefa dos progressistas não é abandonar esses autores, mas resgatá-los: o radicalismo de Mill, o pluralismo de Berlin, a intervenção anticíclica de Keynes, a preocupação de Bentham com o sofrimento dos pobres. A liberdade sem igualdade é privilégio; a tradição sem justiça é opressão. Em um mundo onde a extrema direita usa clássicos do liberalismo para justificar políticas que punem os mais pobres, a resposta progressista não pode ser o silêncio, tem de ser a disputa pelas ideias.
(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.
