Valfrido Silva*
O candidato Flávio Nantes Bolsonaro já sabe de quem pretende receber a faixa. Os interessados em ministério também vão procurando seu lugar na fotografia. A cerimônia começa a ganhar uma organização invejável para um acontecimento que ainda depende de uma pequena formalidade: vencer a eleição. O eleitor, esse funcionário inconveniente da democracia, insiste em conservar a prerrogativa de autorizar a festa. E tem o péssimo hábito de contrariar quem já mandou ajustar o terno.
Nantes afirmou que receberá a faixa das mãos do pai. É uma imagem poderosa para sua campanha, embora a Presidência da República não seja um estabelecimento familiar cuja administração se transfere ao primogênito. Jair pode desejar entregar; o filho pode desejar receber. Entre os dois desejos existe uma urna. E, neste caso, uma decisão judicial: o ex-presidente cumpre prisão domiciliar. A eleição pode abrir ao filho a porta do Planalto; não abre automaticamente ao pai a porta de casa.
Antes da fotografia, Nantes precisaria ganhar, ser diplomado e tomar posse perante o Congresso. A passagem da faixa é uma cerimônia; a investidura no cargo exige os atos constitucionais. O indulto prometido ao pai, por sua vez, é prerrogativa de quem já exerce a Presidência, e sua aplicação ao caso enfrentaria discussão judicial. O roteiro familiar foi anunciado com uma desenvoltura que o departamento jurídico talvez não consiga acompanhar. Por enquanto, a presença de Jair depende de algo mais complicado do que confirmar o convite.
Aqui em Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja já apareceu nas especulações para o Ministério da Agricultura. Convém registrar que ele próprio considerou prematuro discutir a possibilidade antes das eleições. A prudência merece reconhecimento. Nos bastidores, porém, a palavra “eventual” costuma ser a primeira a perder o emprego: começa-se falando de um eventual governo, passa-se ao provável ministro e, quando se percebe, alguém já está escolhendo a sala. Falta apenas o eleitor assinar a autorização de mudança.
Fernando Henrique Cardoso conhece o desconforto desse mobiliário antecipado. Em 1985, candidato à Prefeitura de São Paulo, deixou-se fotografar sentado na cadeira do prefeito. As urnas preferiram Jânio Quadros, que, na posse, tratou de “desinfetar” a poltrona, sob a alegação de que “nádegas indevidas a usaram”. A própria Fundação FHC registra o episódio e a posterior autocrítica do candidato. A cadeira ficou na história como uma aula bastante prática sobre a diferença entre pose e posse. O fotógrafo pode acomodar o candidato; só o eleitor autoriza o ocupante.
Lula não precisa aparecer com um spray para aproveitar a lembrança. Basta continuar disputando enquanto os adversários cuidam do protocolo. Se o favoritismo produzir acomodação, se os aliados gastarem mais energia repartindo o governo do que conquistando votos, o antigo passageiro de pau de arara nordestino poderá reencontrar caminho para subir novamente a rampa. O salto alto atrapalha sobretudo quem acredita que já chegou.
Enquanto isso, o debate de Lula e Nantes previsto para este domingo, 11, na Record foi cancelado, segundo a emissora, por incompatibilidade de agendas. Encontra-se ocasião para falar de faixa e futuro governo, mas falta um horário comum para explicar ao eleitor como serão pagas as promessas. A cerimônia imaginária exige menos respostas. No debate, além de vestir o terno, é preciso sustentar o argumento.
E, se alguém imagina resolver os obstáculos retirando Alexandre de Moraes e outros ministros do Supremo, encontrará outra fila. CPI investiga; não destitui ministro. A responsabilização por crime de responsabilidade exige fundamento e processo no Senado, onde o Centrão também sabe fazer contas. Mesmo uma eventual destituição não apagaria automaticamente a condenação de Jair. Vencer a eleição não entrega ao presidente uma borracha para apagar decisões judiciais.
Pode-se criticar uma decisão, recorrer e pedir revisão pelos caminhos legais. O que não cabe é tratar a Constituição como inconveniente que a vitória autoriza remover. O 8 de Janeiro já deixou sua advertência. Para esta crônica, basta a cadeira de Jânio: o país não precisa de outra aula prática sobre portas arrombadas.
A eleição termina em 25 de outubro. Se Lula contrariar o roteiro, restará descobrir quem lhe passará a faixa, já que ela continua com ele. Se Nantes vencer, terá de cumprir as etapas e resolver os impedimentos antes de realizar a fotografia prometida. A menos que pretenda tomar posse no puxadinho da casa do pai, em Brasília. Mas aí terá de combinar com o Congresso, com a Justiça e, antes de todos, com o eleitor. A Presidência ainda não aceita transferência de titularidade em reunião de família.
(*) jornalista e editor do contrapontoMS em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor
