Valfrido Silva*
A arquiduquesa Leopoldina atravessou o Atlântico trazendo na bagagem um sobrenome que já abria portas na Europa muito antes de o Brasil descobrir que poderia ter uma porta própria. Filha do imperador da Áustria e integrante da casa de Habsburgo-Lorena, uma das mais duradouras famílias reinantes do continente, casou-se por procuração, em 1817, com o príncipe que conheceríamos como dom Pedro I. O noivo não precisou comparecer à cerimônia, no Palácio Belvedere, em Viena. Naquele mundo, as famílias acertavam o casamento, os diplomatas cuidavam da papelada e os povos recebiam os desdobramentos. Dona Leopoldina, que depois seria nossa imperatriz, veio descobrir nos trópicos que sobrenome ilustre não garantia sossego conjugal.
O casal nos deixou, entre outros filhos, aquele que seria dom Pedro II. O nome vinha acompanhado de um numeral, expediente bastante prático para as monarquias: distinguia-se o filho do pai sem interromper a continuidade da família no poder. A criança podia herdar o trono antes de aprender a governar. O aprendizado ficava para depois; o lugar já estava reservado. Na República, pelo menos no regulamento, invertemos a ordem: o pretendente precisa convencer o eleitor de que merece o lugar. O parentesco pode ajudar na campanha, mas ainda não substitui a urna.
Também fomos simplificando o modo de chamar os nossos governantes. Juscelino Kubitschek de Oliveira entrou para a intimidade nacional como JK. Um dos grandes estadistas brasileiros coube em duas letras, para alívio de quem precisava escrever aquele sobrenome. Confesso que, depois de mais de meio século de jornalismo, ainda recorro ao Google para conferir o Kubitschek. O homem construiu uma capital; eu continuo precisando de ajuda para atravessar o nome. As iniciais fizeram esse serviço ao país, além de acomodarem, com invejável economia, o tamanho de sua ambição.
Fernando Henrique Cardoso também encontrou abrigo nas letras: FHC. Outro estadista de quem se pode discordar à vontade, mas cuja autoridade intelectual faz falta nestes tempos em que tanta gente confunde autoestima com o volume da própria voz. Antes de sua chegada ao Planalto, Antônio Carlos Magalhães já fazia das três letras uma instituição. ACM foi governador, ministro das Comunicações de Sarney, senador e um manda-chuva cujo alcance dispensava as fronteiras da Bahia. Havia gente que precisava apresentar currículo. ACM apresentava as iniciais.
Outros não precisaram dessa economia. Leonel de Moura Brizola era simplesmente Brizola. Bastava o sobrenome para os adversários enxergarem a “ameaça comunista” e os seguidores reconhecerem o líder trabalhista. Lula coube em quatro letras, sem que precisassem ser iniciais. E chegamos a Jair Messias Bolsonaro, que encontrou no último sobrenome a marca pela qual se tornou conhecido. O Messias permaneceu disponível para os devotos. Bolsonaro serviu à política, aos palanques e, naturalmente, aos filhos que fizeram carreira carregando o mesmo nome.
É nesse ponto que este escriba pede licença para explicar o Nantes. O candidato chama-se Flávio Nantes Bolsonaro. Não precisei inventar apelido, consultar a heráldica ou convocar um tabelião: o nome já estava lá, esperando uso. Resolvi trazê-lo para os textos porque o brasileiro merece saber, a cada frase, de qual Bolsonaro estamos falando. O pai já teve sua Presidência. O filho disputa a dele. A influência de um sobre o outro é assunto para o jornalismo; a distinção entre os dois também.
Bolsonaro Segundo teria certa sonoridade de almanaque imperial, mas seria inadequado até na contabilidade doméstica: Flávio é o filho mais velho, o número um da família. E o Brasil, apesar de alguns hábitos resistentes, deixou de ser monarquia. Não cabe ao jornal conceder numeral de soberano a candidato. Tampouco o Nantes o coloca, por antecipação, na companhia dos estadistas citados aqui. Nome curto facilita a conversa; lugar na História exige mais serviço.
Daí este esforço hercúleo para acostumar o leitor. Se o eleitor lhe entregar a Presidência, já saberemos como chamá-lo. Se não entregar, o nome continuará sendo dele, sem qualquer prejuízo ao registro civil. Dona Leopoldina atravessou o oceano com o casamento resolvido por procuração. Nantes ainda precisa resolver sua pretensão com os brasileiros. O pai pode lhe emprestar o sobrenome. A assinatura na autorização para governar continua sendo nossa.
(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.
