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quarta-feira, outubro 21, 2026

General de Bolsonaro aparece na campanha de Lula e leva a disputa até a porta dos quartéis

A quatro dias do segundo turno, o depoimento de Santos Cruz e a presença de Alckmin na propaganda petista expõem a disputa pelo eleitor conservador e levantam uma pergunta: como a caserna acompanha o confronto entre Lula e Nantes?

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Valfrido Silva*

O general Carlos Alberto dos Santos Cruz, que integrou o primeiro escalão do governo Jair Bolsonaro, apareceu nesta quarta-feira na propaganda eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não vestia farda, não falava em nome do Exército e tampouco anunciava adesão ao PT. Era um trecho de entrevista em que o militar da reserva criticava duramente o antigo chefe e seu filho, Flávio Nantes Bolsonaro, candidato à Presidência. A campanha petista encontrou no depoimento uma maneira de conversar com eleitores conservadores que não se identificam com Lula, mas também não se sentem representados pelo bolsonarismo. A quatro dias da votação, o episódio tem um significado que ultrapassa os segundos reservados ao general na televisão: um homem que conheceu o governo Bolsonaro por dentro tornou-se personagem da propaganda de seu principal adversário político.

Santos Cruz foi ministro-chefe da Secretaria de Governo de Jair Bolsonaro e deixou o cargo em 2019, depois de divergências no interior da administração. Desde então, tornou públicas críticas ao ex-presidente. Na entrevista recuperada pelo programa eleitoral de Lula, classificou Bolsonaro como despreparado, questionou o comportamento de seus seguidores mais radicais e afirmou que Flávio representa interesses familiares. São avaliações do próprio general, não conclusões das Forças Armadas. A distinção é indispensável, sobretudo num país que passou os últimos anos discutindo os limites entre a atuação institucional dos militares e a participação de integrantes da caserna na política partidária. Um general da reserva tem direito a opinião e manifestação política. Isso não transforma sua posição em pronunciamento do Exército.

A presença de Geraldo Alckmin no mesmo programa ajuda a explicar a operação eleitoral. Ex-governador de São Paulo, antigo dirigente do PSDB e adversário de Lula em eleições anteriores, o vice-presidente representa uma trajetória política distante das origens petistas. Santos Cruz acrescenta outro elemento: a experiência de quem participou do governo Bolsonaro e rompeu com ele. São biografias diferentes, reunidas pela campanha para sustentar uma mensagem comum, a de que votar em Lula não exige identificação com a esquerda. Não há novidade no esforço de ampliar alianças no segundo turno. A particularidade está na escolha dos porta-vozes e no momento em que suas declarações são levadas ao horário eleitoral, quando as campanhas procuram falar com um eleitorado que já conhece os candidatos e dispõe de poucos dias para decidir.

Mas como estará a caserna diante dessa cena? A pergunta é pertinente; a resposta exige cautela. Não existem elementos públicos suficientes para afirmar que os quartéis tenham recebido a aparição de Santos Cruz com aprovação ou repúdio predominante. A instituição militar não é um partido político, e oficiais da ativa, da reserva e integrantes das diferentes Forças não formam um eleitorado de pensamento único. Há, entretanto, razões para que o episódio desperte atenção. O governo Bolsonaro ampliou a presença de militares em funções civis, enquanto a administração Lula procurou reconstruir a relação institucional com os comandos depois da crise que se seguiu às eleições de 2022. As condenações relacionadas à tentativa de golpe e os debates sobre o papel político das Forças Armadas também integram esse ambiente. A manifestação de Santos Cruz deve ser compreendida nesse contexto, sem ser confundida com uma posição coletiva dos militares.

O outro lado da disputa também se movimenta nessa direção. Reportagem da CNN Brasil publicada em 13 de outubro revelou que emissários de Nantes transmitiram à cúpula militar a promessa de que não haveria perseguição a oficiais que se aproximaram do governo Lula. Segundo a mesma apuração, o candidato pretende manter militares da ativa fora de cargos políticos no Planalto e escolher um civil para o Ministério da Defesa. São intenções atribuídas à campanha, não decisões de governo. O contraste merece registro: enquanto Lula exibe um ex-ministro militar de Bolsonaro criticando o antigo chefe, Nantes procura apresentar aos comandos das Forças Armadas uma relação institucional diferente daquela mantida por seu pai. Ambos reconhecem, por caminhos distintos, que o assunto militar continua sensível na política brasileira.

O peso eleitoral do depoimento de Santos Cruz, por sua vez, não pode ser medido apenas pela patente. A autoridade de um general pode chamar a atenção, especialmente quando ele critica um governo do qual participou. Mas patente não é pesquisa de opinião, assim como uma aparição na televisão não assegura transferência de votos. O primeiro turno terminou com Nantes à frente de Lula, e a disputa agora se concentra também nos eleitores que não se identificam plenamente com nenhum dos dois. A propaganda petista tenta oferecer a esse público referências que não pertencem à tradição do partido. Já a campanha de Nantes procura ampliar sua própria imagem, inclusive apresentando o candidato como uma versão mais moderada do bolsonarismo. As duas estratégias revelam a importância atribuída aos eleitores que estão fora dos núcleos mais fiéis de cada candidatura.

Há uma ironia histórica nesse encontro de trajetórias. Alckmin disputou a Presidência contra Lula em 2006. Santos Cruz serviu ao governo Bolsonaro. Hoje, um ocupa a Vice-Presidência da República e o outro tem suas críticas exibidas na propaganda eleitoral petista. Nenhuma dessas circunstâncias apaga o passado de seus protagonistas. Pelo contrário, é justamente o passado que dá sentido político às aparições. Se fossem petistas históricos, suas falas provavelmente despertariam menos curiosidade. O interesse está no percurso que os levou até ali e na tentativa de apresentar ao eleitor uma convergência que não depende de identidade partidária.

Resta saber como essa movimentação será recebida pelo público e, particularmente, pelos militares que acompanham a campanha. Não há pesquisa capaz de atribuir, desde já, determinado número de votos ao depoimento do general. Também não seria correto interpretar o silêncio institucional dos comandos como concordância ou discordância. A função das Forças Armadas, numa eleição, não é escolher candidato nem produzir sinais de preferência, mas cumprir suas atribuições constitucionais e respeitar o resultado das urnas. Santos Cruz falou como cidadão e militar da reserva. Lula decidiu utilizar suas palavras. Nantes mantém seus próprios interlocutores na área militar. A política fez o restante.

Na reta final, a imagem de um general que serviu a Bolsonaro surgindo na propaganda de Lula talvez diga menos sobre uma mudança de posição dos quartéis do que sobre a transformação das alianças políticas brasileiras. Os candidatos procuram referências capazes de dialogar com quem está além de suas bases tradicionais, enquanto personagens de antigas administrações reaparecem em posições inesperadas. A farda de Santos Cruz ficou fora da tela, mas sua biografia entrou inteira no programa eleitoral. E essa é a fronteira que a democracia precisa conservar bem demarcada: o general pode escolher seu candidato; a caserna, como instituição, não.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.

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