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sábado, outubro 31, 2026

A missa de sétimo dia de Flávio Bolsonaro: o réquiem do ex-futuro presidente

Uma semana depois de bolsonaristas fanáticos desfilarem pela avenida Marcelino Pires com um caixão destinado a enterrar Lula, a voz que se ergue dos Estados Unidos é a do próprio Flávio Bolsonaro, anunciando que pretende voltar antes da hora — como se a derrota nas urnas fosse apenas um intervalo na sucessão familiar.

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Valfrido Silva*

Quem diria! Exatamente uma semana depois de bolsonaristas fanáticos, como o vereador douradense sargento Prates e seus áulicos, desfilarem pela avenida Marcelino Pires com um caixão para anunciar o enterro político de Lula, a voz que se ouviria, como se viesse das trevas, seria a do próprio Nantes, Flávio Bolsonaro. O cortejo que pretendia sepultar o adversário acabou oferecendo uma imagem involuntariamente profética: a cerimônia fúnebre agora parece ter outro homenageado. É a missa de sétimo dia do ex-futuro presidente da República.

A gravação feita nos Estados Unidos tem a atmosfera de um réquiem. Flávio aparece diante da câmera com semblante carregado, olheiras pronunciadas e uma expressão que combina com a solenidade triste e acabrunhada de quem ainda não encontrou lugar para acomodar o resultado das urnas. Não cabe à imprensa fazer diagnóstico a partir de uma imagem, mas o personagem escolheu apresentar-se em tom grave, quase penitencial, como se estivesse transmitindo ao país uma mensagem de resistência saída de algum exílio épico. O cenário, porém, é menos heroico do que a narrativa pretende: o filho de Jair Bolsonaro deixou o Brasil e agora fala aos brasileiros de fora, da terra do padrinho Donald Trump.

Como durante toda a campanha, a primeira pessoa do singular é predominante do pronunciamento. Eu, minha decisão, minha volta, meu projeto. O país aparece como pano de fundo de uma história cujo personagem principal é sempre o próprio Flávio. A política, nessa versão familiar da República, parece funcionar como uma espécie de inventário: o poder não é exatamente uma responsabilidade conferida pelo eleitor, mas um bem que a família considera ter perdido temporariamente e ao qual pretende retornar. O Brasil, coitado, entra na conversa como se fosse uma propriedade à espera da retomada pelos legítimos donos — legitimidade que, ao que parece, não depende das urnas.

Há uma frase que resume o esforço de transformar a fuga em gesto patriótico: “Eu não saí do Brasil, eu saí pelo Brasil”. É uma construção engenhosa, dessas que tentam resolver com palavras uma contradição que a geografia insiste em manter. Saiu do Brasil, mas garante que saiu pelo Brasil, insiste o senador fujão. O endereço é americano; a retórica, nacional. A distância física vira uma espécie de sacrifício cívico, e a viagem com a família ganha ares de missão política. Falta combinar essa interpretação com o restante dos brasileiros, que continuam vivendo aqui, enfrentando os problemas do país sem precisar atravessar fronteiras para demonstrar patriotismo.

Flávio também volta a falar em perseguição e em um suposto regime de exceção, além de alimentar suspeitas sobre o processo eleitoral. São acusações graves, mas a gravidade de uma acusação não a transforma automaticamente em prova. A democracia admite contestação, recursos e oposição dura; o que exige é fundamento verificável. Insinuar irregularidades sem apresentar demonstração consistente não esclarece o resultado eleitoral: apenas prolonga a inconformidade de quem não conseguiu vencê-lo.

Mas a parte mais saborosa — e talvez a mais reveladora — vem quando Nantes trata do futuro. Antes mesmo de encerrar o luto pela derrota, anuncia disposição para voltar à disputa presidencial. Antes de 2030. É uma espécie de ressurreição antecipada. O candidato ainda está explicando por que perdeu, mas já se apresenta como candidato da próxima temporada. Nem terminou a missa de sétimo dia e o finado anuncia que pretende disputar a próxima eleição. Se depender dele, o calendário eleitoral será adaptado ao ritmo da ambição familiar.

A pilhéria seria completa se não houvesse um aspecto que merece atenção. Quando alguém transforma a derrota em suspeita permanente, questiona a legitimidade do resultado sem provas e se apresenta como futuro presidente antes de aceitar a decisão dos eleitores, não está apenas fazendo propaganda antecipada de uma candidatura. Está alimentando uma cultura política na qual a vontade popular só vale quando coincide com a vontade do candidato. Não é possível afirmar, apenas com esse pronunciamento, que exista uma nova tentativa de golpe em preparação. Mas é perfeitamente legítimo perguntar se a retórica de inconformidade não prepara o terreno para mais uma aventura contra as regras democráticas.

A história recente do país já mostrou aonde pode levar a mistura de ambição pessoal, desconfiança fabricada e desprezo pelo resultado das urnas. A ameaça de voltar antes da hora, portanto, merece ser tratada com a dose certa de humor e vigilância. Humor porque há algo de caricatural em alguém que, depois de uma derrota, anuncia a própria ressurreição política como se estivesse apenas aguardando a liberação do túmulo. Vigilância porque a democracia não pode ser obrigada a conviver com a ideia de que cada eleição é provisória até que a família derrotada decida aceitar o resultado.

Enquanto Nantes organiza sua narrativa de resistência a partir dos Estados Unidos, o Brasil continua aqui. Lula terá de governar, enfrentar um Congresso difícil, negociar com forças políticas adversas e responder aos problemas concretos da população. A oposição tem todo o direito de se organizar, fiscalizar, criticar e apresentar alternativas. Flávio também pode, dentro das regras legais, disputar futuras eleições. O que não pode reivindicar é uma espécie de direito hereditário à Presidência, nem transformar a derrota em autorização para deslegitimar a escolha popular.

E há uma ironia adicional para os bolsonaristas de Dourados que, há apenas sete dias, carregavam o caixão de Lula pela Marcelino Pires. O cortejo talvez tenha sido prematuro. O presidente que pretendiam enterrar continua no Palácio do Planalto, enquanto o herdeiro que se imaginava pronto para substituí-lo aparece do outro lado do continente, em uma gravação de tom fúnebre, explicando sua saída e anunciando a próxima candidatura. A política tem dessas crueldades: às vezes, quem prepara o funeral do adversário acaba tendo de comparecer ao próprio.

A missa de sétimo dia de Nantes não precisa de padre, incenso ou procissão. A gravação já oferece o réquiem, o celebrante e o personagem principal. O morto político ainda fala, promete voltar e parece não aceitar que a urna tenha encerrado um capítulo. Resta saber se, na próxima tentativa, virá apenas como candidato — ou se continuará confundindo a Presidência da República com um lugar que a família tem o direito de ocupar.

Por ora, fica a recomendação: guardem o caixão. Pelo andar da carruagem, a política brasileira ainda terá muitas cerimônias, mas a democracia não pode ser obrigada a enterrar o próprio resultado eleitoral toda vez que um derrotado anuncia que pretende ressuscitar.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor

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