26/01/2014 – 08h04
Quando, ainda criança, ao pegar uma tangerina para descascar, corria para meu pai e pedia: – pai, começa o começo!. Na verdade o que eu queria era que ele fizesse o primeiro rasgo na casca, o mais difícil e resistente para as minhas pequenas mãos. Depois, sorridente, ele acabava descascando toda a fruta para mim. Mas, outras vezes, eu mesmo tirava o restante da casca a partir daquele primeiro rasgo providencial que ele havia feito.
Meu pai faleceu há muito tempo e, há anos, muitos, não sou mais criança. Mesmo assim, sinto grande desejo de tê-lo ainda ao meu lado para, pelo menos, começar o começo de tantas cascas duras que encontro pelo caminho. Hoje, minhas tangerinas são outras. Preciso descascar as dificuldades do trabalho, os obstáculos nos relacionamentos com amigos, os problemas no núcleo familiar, o esforço diário que é a construção de um casamento, os retoques e pinceladas de sabedoria na imensa arte de viabilizar filhos realizados e felizes, ou então, o enfrentamento, sempre tão difícil, de doenças, perdas, traumas, separações, mortes, dificuldades financeiras e, até mesmo, as dúvidas e conflitos que nos afligem diante de decisões e desafios.
Em certas ocasiões, minhas tangerinas transformam-se em enormes abacaxis…
Como eu gostaria que ele estivesse aqui, mesmo sabendo que jamais poderia fazer nada, neste conturbado mundo em que vivemos. A educação que nos deu, rígida e pautada em sérios costumes, nunca pactuaria com o que assistimos indolentes e inoperantes, diante do que acontece, diuturnamente, em nosso País.
Inventam tanta coisa. Aliás, não há povo com tanta criatividade. De arrastões a rolezinhos, vemos parte de nossos adolescentes e jovens, vagabundos, com tempo de sobra para pensar e agir sobre coisas tão torpes e insolentes.
A culpa não é apenas deles, nem de seus pais. Há uma visão política que opera a maioria desses problemas. Associa-se inerentemente a isso, um ECA, estatuto do menor que facilita, através da imunidade, a impunidade que campeia por todos os lados. Escabroso é ver chamar de criança uns brutamontes que medem mais de 1.80 e quase um metro de largura, chamados de crianças ou, simplesmente, menores infratores.
A criatividade de nosso povo alça horizontes insondáveis. Nem bem havia chegado às ruas o tal ECA, bandidos da pior espécie, principalmente, os narcotraficantes, escolhiam para frente das batalhas, menores pela sua imuno putabilidade. Assassinos cruéis matam e colocam a culpa num menor. Afinal, são imunes e imputáveis. Não podem sofrer as consequências da lei e da justiça que um maior sofreria.
Dias passados assisti, atônito os parceiros do ex-deputado federal e ex-presidente do PT, pedir ajuda a todos os brasileiros para pagar a multa que o STF impôs como parte da pena que lhe foi devida em razão do que fez e, por isso mesmo, julgado como criminoso, nas ações do MENSALÃO. Esse tal Genoino é aquele dos “dólares na cueca”, cotado e referendado pelo Roberto Jefferson como a alcagueta da época da ditadura.
Ao saber que ajudando ao tal Genoino, que já levantou quase R$ 700.000,00 (setecentos mil reais), fico perplexo diante de tudo isso, pois cada um dos colaboradores podem estar sendo coniventes com o que ele fez e, por isso mesmo, cumplices de seu pecado. No mínimo, estão afrontando a justiça, fazendo sua própria justiça. O próprio Genoino renunciou ao mandato de deputado federal.
Oras, se o condenado tem que pagar o preço pelo erro, por que haveria de ser o povo a saldar a conta?
Essas e tantas outras, meu caro leitor e amigo, meu pai não iria entender e nem iria fazer para mim o: começa o começo.
Bom dia. Melhor semana, sempre.
Benê Cantelli – Professor e Campista/bncantelli1@gmail.com

