22/03/2014 – 09h50
Em sua raiz grega, “apology” (apologia) significa um discurso para se justificar ou se defender. Nós, às vezes, ainda usamos a palavra com esse sentido, talvez com uma inclinação para justificação própria em vez de autodefesa. Mas hoje, “apology” (desculpa) é um reconhecimento de erro, assim como uma declaração de pesar e conciliação em relação à parte ofendida.
As palavras mudam de significado e adquirem diferente peso à medida que seu uso prossegue; no passado, um político acusado de algum grande crime –corrupção no exercício do cargo, um fracasso imenso no cumprimento do dever nos assuntos de Estado ou (talvez ainda mais hoje) assediar membros de seu gabinete– poderia ter feito uma “apology” na forma de uma defesa. Atualmente, se defender exige que não se peça desculpas.
Um grande uso do conceito da “apology” nos primeiros séculos do cristianismo foi para a defesa de suas alegações contra o ceticismo desdenhoso das pessoas educadas. Aquilo era apologético: a descoberta, invenção, arranjo e insistência com base em argumentos e evidência putativa em prol da fé.
A aquisição pela Igreja do poder temporal tornou esse esforço desnecessário. Assim que se tornou crime capital não acreditar, o esforço de persuadir as pessoas pelo argumento e evidência se tornou obsoleto. Onde quer que o poder temporal da religião tenha diminuído em nosso mundo, agora é o simples peso da história que faz o trabalho da apologética.
Um mórmon disse, certa vez, ao ser cobrado sobre as profundas improbabilidades de sua religião, que ela não pareceria improvável dali a mil anos. Ele acertou em cheio: nem a apologética nem justificativas seriam necessárias, caso o mundo continuasse em seu caminho atual.
Os políticos não gostam de pedir desculpas por nada, se puderem evitar, precisamente por esse ato envolver o reconhecimento de fracasso ou culpa. Isso traz as imagens dos primeiros-ministros japoneses se curvando ao renunciarem: elas têm a conotação figurativa de corpos em queda sobre espadas.
Outra palavra que adquiriu aspecto negativo nesse domínio é “responsável”. Pense na diferença entre dizer “ele é um homem responsável” e “ele é o homem responsável”. Ser responsável por algo significa que alguém tem o dever de cuidar ou uma obrigação em relação a algo; ser responsável por algo que saiu errado significa que alguém precisa se desculpar. E, é claro, os políticos não gostam de admitir que as coisas deram errado.
Pedidos de desculpa se tornaram uma espécie de dinheiro político. Os descendentes de escravos exigem pedidos de desculpa dos governos atuais por atividades que ocorreram há dois séculos ou mais. (Eles falham em reconhecer que todo indivíduo no planeta é descendente de escravos ou de proprietários de escravos. Quem deve pedir desculpas a quem, se voltarmos na história o bastante?) Mas, em um sentido ao menos eles têm razão. A psicologia da exigência de um pedido de desculpas é que, quando alguém é vítima de um erro, há o desejo de reconhecimento do fato na forma como ele se aplica a alguém e o reconhecimento do perpetrador do erro cometido e do mal causado. Há bons motivos práticos para punçar as úlceras do ressentimento dessa forma, nos ensinando como fazermos melhor no futuro. Na vida doméstica cotidiana, dar e receber desculpas é um regulador chave das relações, como um termostato.
Nossa prontidão em pedir desculpas a outros por trombar com eles no supermercado ou por não vê-los entrando pela porta atrás de nós é um marcador de quão estavam certos filósofos como Mêncio e David Hume –apesar de grandes diferenças em outros âmbitos– ao verem a natureza humana como sendo mais, e não menos, benevolente.
Para a maioria das pessoas, na maior parte do tempo, a atitude padrão é uma prontidão instintiva em manter boas relações com quem quer que encontrem ao longo do dia. Como em nossos prédios lotados nós temos que navegar por uma dança de espaços pessoais e ajustes mútuos, o “Me desculpe!” por reflexo é comum. (Parece que apenas atrás do volante de um carro é que essa atitude muda para algo bem diferente.)
Mas, a política não é uma estação de trem ou um supermercado. As regras de engajamento são muito diferentes ali no gelo fino da vida política. Ocasionalmente um político pedirá desculpas –mais facilmente se por algo que aconteceu séculos atrás; ele poderia receber crédito por assumir a culpa por antecessores distantes–, mas geralmente é um suicídio político fazê-lo em relação a um assunto atual.
Isso resulta em um jogo: quanto menos inclinado um político se mostra em pedir desculpas, mais perseguição pela imprensa ocorre. O único resultado invariável é que isso, cedo ou tarde, desvia a atenção de outras coisas frequentemente (dado ao que a imprensa tende a cobrar dos políticos) mais importantes. Quando a imprensa entende errado, ela imprime um pedido de desculpas. Quão fácil é isso: um pequeno parágrafo escondido, deixando desdenhosamente implícito o oposto do que diz, rejeitando ao mesmo tempo que alega aceitar a culpa.
Há algo muito insatisfatório nos pedidos de desculpa corporativos. Quanto maior a corporação, menos satisfatório tende a ser seu pedido de desculpas (por vazamentos de petróleo e coisas assim). Esse é o motivo, eu suponho, para aqueles que buscam um reconhecimento de responsabilidade por parte dos patifes corporativos preferirem qualquer pedido de desculpa resultando em dinheiro vivo.
A.C. Grayling – mestre do New College of the Humanities/Tradutor: George El Khouri

