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Mea-culpa com a turma dos retornos

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09/06/2014 – 10h29

Há muito tempo que não acontecia. Pois nesta noite perdi o sono. Não sei se ressentindo a ausência da arruaça das saracuras, substituída pelo ronco dos possantes motores de alguns imbecis que insistem em aproveitar o asfalto zerado dos altos da Monte Alegre para fazer o tal zerinho, ou, se impressionado pelo tanto que o corintiano Neto secou a atual seleção brasileira durante replay (para comparações, na Band) da final em que o Brasil conseguiu o Penta, em cima da Alemanha, no Japão. Menos mal, pois aproveitei a insônia para meditar sobre os ensinamentos de Santo Agostinho, o bispo de Hipona que, uma vez desencarnado, foi convocado pelo Espírito da Verdade para ajudar na Codificação Espírita. O peso na consciência veio pelo excesso de chamadas, no Facebook, para reportagem em que o Fantástico prometia mostrar o bê-á-bá da corrupção no Brasil. Não consegui me conter quando vi a palavra retorno, no sentido em que mais é aqui usada, nas vinhetas da toda poderosa rede Globo.

Santo Agostinho ensina que quando estava na Terra, ao final de todos os dias interrogava sua consciência, passando em revista o que fizera e perguntando a si mesmo se não faltara a algum dever, procurando saber se ninguém teria motivo para dele se queixar. Fiquei mais tranquilo, quando um deputado, candidato a reeleição, com a garantia do anonimato assegurada pelo repórter Marcos Losekan, disse que só resolveu falar depois que a consciência dele também pesou por não aguentar mais ver crianças passando fome e estradas sem asfalto pelo interior do País. Isto, numa reportagem em que o foco maior da denúncia foi o desvio de dinheiro na área de Educação, pegando-se como exemplo a cidade de São Pedro de Água Branca, no Sul do Maranhão, onde se registrou a maior evasão escolar do Estado, não por coincidência, onde, também, o prefeito foi condenado por compra de votos com o dinheiro da merenda escolar.

No mais, nada que não se saiba, com a ilustração da fala de um assessor parlamentar, para quem “político não tem memória, apenas conta bancária”. E o registro do cinismo do deputado: “a gente não precisa fazer muita coisa pra ter o voto porque a população não tem força, nem segurança para contestar nada”. Esse “nada”, segundo a reportagem, são os retornos que giram de, no mínimo, 20%, podendo chegar a 50%. Retornos das famigeradas emendas parlamentares, das quais se vincula a destinação à retenção desses desavergonhados percentuais. Retornos pago por empreiteiras, que fazem doações, na verdade empréstimos. “Os deputados que eu conheço, todos pegam retorno”, enfatizou um dos assessores parlamentares.

Muito bem. Desta vez não foi o blog do Valfrido Silva que denunciou. Foi a Vênus Platinada. Com todas as letras – “todos pegam”. E não é só deputado e senador. É de vereador a governador, com a complacência dos Tribunais de Contas dos Estados. Será que vão processar a Globo? Provável que não, já que o Fantástico tem como álibi o personagem Cândido Peçanha, o “nobre deputado” que dá nome ao livro do juiz Marlon Reis, que participou da elaboração da lei da Ficha Limpa, com o qual ele põe na ficção a triste e dura realidade da política brasileira. Não é o caso dos personagens, da vida real, que aqui, há tempos, viraram protagonistas. Como as denúncias deste Blog em nadica de nada são diferentes das mostradas no Fantástico, na terra dos Sarney, certamente que Santo Agostinho há de tê-las na conta de alguma missão, e, por isso, não precisarei me colocar diante do espelho todas as noites, muito menos reforçar a medicação para a hipertensão em caso de retorno, ops!, da insônia.

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Assessor parlamentar, protegido pelo anonimato, no Fantástico

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