20/06/2014 – 10h21
Num país onde o governo que se diz do proletariado desvia bilhões, em dólares, no superfaturamento de uma refinaria adquirida lá fora pela Petrobras, depois impedindo as investigações num Congresso pra lá de subserviente, quando uma funcionária do Ministério da Saúde é flagrada aceitando cheques pré-datados como propina, como aconteceu esta semana em Campo Grande, a impressão que se tem é de que tudo não passa de armação, do próprio governo, para passar a impressão de que nunca antes na história se investigou e se puniu tanto. Como acontece nas operações de rotina da mesma PF, às vezes com a colaboração de colegas de outras Forças, principalmente a PRF, apreendendo-se pequenas quantidades de drogas camufladas em veículos de passeio, não sendo segredo que o grosso do produto para o abastecimento dos grandes centros consumidores cruza nossas fronteiras em grandes comboios rodoviários e passam incólumes pelas barreiras Brasil afora.
O que mais chama a atenção no flagrante dado no Hospital do Câncer (o mesmo cujas estruturas já haviam sido abaladas com outras denúncias de corrupção) é a frieza durante as negociações, tanto do funcionário do HC quanto da enviada especial Ministério da Saúde na hora em que recebe voz de prisão, sem esboçar qualquer reação, parecendo até coisa ensaiada. Sem falar no deboche de Roberlayne Patrícia Alves. Como se acometida por alguma premonição, ao recusar uma pechincha, dizendo já estar “esmagada”, numa referência à pressão de seus superiores no Ministério, e que só veio de Brasília para se livrar logo disso. “Nunca mais eu faço isso”, acrescentou, antecipando-se em arrependimentos. Uma vez presa, entregou, de cara, os colegas do MS.
A grande expectativa agora é quanto à eficiência da polícia chefiada pelo petista José Eduardo Cardozo, um dos mais queridinhos de madame Dilma Rousseff. Diante da hercúlea dificuldade que deverá encontrar para chegar aos signatários das famigeradas emendas parlamentares, para os quais certamente se destinariam os borrachudos, o ministro da Justiça poderia aproveitar este momento de mea-culpa do governo americano, por conta, ainda, dos grampos telefônicos, e pedir socorro à CIA ou ao FBI. Até, para que inocentes não paguem por pecadores. Afinal, entre os onze ilustres representantes do Mato Grosso do Sul em Brasília, além da maioria que busca a reeleição há até candidatos ao governo do Estado. Um constrangimento geral, como coloquei ontem no Facebook, embora nenhum deles tenha vindo a público ainda para se defender.
O pior disso tudo é a resiliência de petistas e afins nas redes sociais, na tentativa de livrarem a cara da recandidata e cumpanheira presidenta. Convenhamos, aliás, que resiliência é uma deferência a alguns petistas históricos, que hoje não sabem onde enfiar a cara de tanta vergonha. É caradurismo, mesmo, diante de um batom na cueca mais vermelho que o da estrela famosa, como o do cidadão que teve o cinismo de dizer que a pobrezinha da Roberlayne poderia ter sido plantada por tucanos no ministério da saúde. Ou de outro que, além de reforçar a tese de que a emenda poderia ser de algum parlamentar da oposição, teve o desplante de afirmar que isso é normal, que todo mundo leva dez por cento. Como se o dinheiro roubado não tivesse destinação tão nobre, como a aquisição de um equipamento para o combalido hospital do câncer Alfredo Abraão. Se roubam sem escrúpulos, até da saúde, imagina o que não sai pelo ralo das galerias de águas pluviais, do esgoto e do asfalto, sem contar os tão cobiçados retornos das sempre intermináveis obras de tapa-buracos e de drenagem. E aí vêm os puristas censurando torcedores que ainda têm a capacidade de se indignar, mandando dona Dilma e Cia. tomar naquele lugar. Depois de Passadena, receber comissão com pré-datado é coisa de trombadinha.
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