10/07/2014 – 09h11
Das tantas brincadeiras que André Puccinelli faz com aquele seu peculiar jeitão de falar sério ou de advertir seus companheiros, a que achei mais sem graça foi quando qualificou Geraldo Resende como rico. Isto, logo após um acidente envolvendo o deputado, que pela segunda vez tombava o carro. “O importante é ele estar bem, caminhonete ele compra uma nova, como fez da outra vez, ele está com muito”. Uma sacanagem, imaginei, rebobinando a fita da história de meu colega de gráfica que sempre se orgulhou de sua origem humilde e que, pela maestria com que vendeu a imagem de engraxate, picolezeiro e jornaleiro que só virou médico graças a ajuda dos irmãos se elegeu sucessivamente vereador, deputado estadual e federal. Só agora, vendo a declaração de rendas apresentada pelo filho de dona Hermenegilda à Justiça Eleitoral, dou a mão à palmatória. Puccinelli, mais uma vez, estava com a razão.
Se do picolezeiro-jornaleiro que só no último de seus retornos à Câmara Federal quase triplicou a fortuna (que passou de cerca de um milhão para cerca de 2,5 milhões – isto, bem dito, o que não conseguiu esconder do leão da Receita), o que o gozador Puccinelli diria de seu figadal adversário da paróquia de Fátima do Sul, Londres Machado, apontado como o mais rico entre os candidatos a vice-governador? Em onze anos de mandato, uma pequena fortuna de 12 milhões de reais. Pequena, se comparada aos padrões de espólios como os das famílias Coelho, Dibo e Morais dos Santos. Aliás, e a propósito, entre tantos números que não batem nessa história de quem é quem na dança dos cifrões, os da pobrezinha pastora Janete Morais, candidata a vice-governadora do não menos pobretão Nelsinho Trad, pelas mesmas circunstâncias declarando à Justiça Eleitoral ter um patrimônio orçado em apenas de 2,7 milhões. Apenas, bem entendido, para uma família que doou 15 milhões de reais ao Hospital do Câncer de Campo Grande. Só nessa caridade dos Morais, como se vê, muito mais grana que a fortuna de Londres. E o único traço em comum entre Londres Machado e Antônio Morais são algumas máquinas de costura – a que Morais presenteou a mãe com o primeiro dinheirinho que ganhou, ainda em Minas Gerais, e as muitas, da Vigorelli, que Londres vendia em Fátima do Sul para ganhar a vida antes de entrar na política.
Diferentemente de Janete Morais, que só agora, para entrar na política, deve leiloar a primeira das muitas boiadas deixadas pelo pai, o também pecuarista Zé Teixeira pode ser considerado um dos maiores exemplos de empreendedorismo no campo. Ele nunca fez segredo, pelo contrário, sua cantilena é conhecida pelos frequentadores do La Minuta, o ponto de sua sagrada sinuquinha dominical: a cada eleição é uma boiada. Mesmo assim “seu Zé”, neste último mandato, conseguiu triplicar a fortuna, pulando dos cerca de cinco milhões, dos bons tempos em que os regimes especiais privilegiavam tudo o que era verde, nas campinas, para 15 milhões, depois que descobriu as vantagens da citricultura de selo azul.
Mas é por pouco tempo. Na desenfreada toada em que vem atrás, ignorando, sempre (e principalmente), as placas de “proibido retorno”, Geraldo Resende já já deixa todo mundo comendo poeira. Imagine se for tão longe como Londres Machado. Ou se conseguir transformar em realidade o sonho que é sua obsessão, de ser prefeito de Dourados. O espólio do conterrâneo Antônio Morais dos Santos vai ser pouco.
Ainda bem que nem tudo está perdido. Nem todos vão – aí, sim, sem retorno – para o inferno. Nessa onda de fazer inveja aos surfistas do mensalão petista, um paradoxo. Um raro espécime de médico humanitário cujos consultórios se assemelham a ambulatórios do SUS – o franciscano George Takimoto, daí o atestado de pobreza que acaba de conseguir junto ao mesmo TRE. Ele continua mais pobre que quatro anos atrás, quando se elegeu deputado. Um “incompetente” para os atuais padrões da política nacional. Não faz jus, pois, ao milagre da multiplicação dos mandatos.
←TEXTO ANTERIOR ouPÁGINA INICIAL→

