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A influência dos Alpes

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02/01/2015 – 10h58

A Suíça foi eleita, em 2013, o melhor lugar para nascer do mundo. Ricos e educados, vivendo no coração da Europa, os suíços são um dos povos que mais próximo chegaram da ideia de civilização. A precisão dos relógios, a pontualidade nos compromissos e o perfeccionismo simbolizam uma cultura que deu um novo sentido a palavra “educação”: nela não é suficiente instruir e informar – como se a escola fosse mera enciclopédia de saberes –, é necessário disciplinar o caráter, domar vícios pequenos ou grandes, formar um cidadão de verdade. É preciso, enfim, dar às pessoas uma “educação suíça”.

Nascer no paraíso é um privilégio de poucos. Num mundo de 7 bilhões de pessoas, os 8 milhões de suíços representam apenas 0,1% da população do planeta. No país que construíram, protegido pelas montanhas e geleiras dos Alpes, é possível gozar de uma renda anual média de US$ 51 mil – cerca de quatro vezes a brasileira –, o que costuma ser suficiente para uma vida sem grandes angústias. E para explicar a diferença de renda entre nós e eles, basta olhar para a escolaridade: enquanto no Brasil acessar a universidade é uma realidade para apenas 12% das pessoas, na Suíça 40% da população tem nível superior.

No capitalismo, riqueza e escolaridade raramente andam separadas. Um estudo recente mostrou que, para cada um ano acrescentado na escolaridade de uma sociedade, sua renda cresce em média 10%. Segundo os dados do IBGE, a escolaridade do Brasil é de 8,8 anos – um grande avanço perto dos 5,7 de 1992 –, mas aquém dos 12 anos que seriam necessários desde a pré-escola até o término do Ensino Médio. Se chegássemos a tanto, a renda per capita aumentaria em cerca de 32%. Qual política social é mais eficiente que investir no chamado “capital humano”?

Mas ainda maior que o abismo que separa os países é o abismo que separa as classes sociais no Brasil. Se as melhores escolas privadas não chegam a ser uma Suíça – porque para isso teriam de melhorar muito –, tampouco as piores escolas públicas se afastam da África. A realidade é heterogênea e existem exceções, mas os dados são impressionantes: em Mato Grosso do Sul, por exemplo, das 20 melhores escolas na pontuação do Enem, 19 eram privadas, enquanto entre as 20 piores, 18 eram públicas – e a última e a penúltima eram escolas indígenas. Adivinhe quem serão os “doutores”…

A escola não é neutra no conflito distributivo da sociedade. Ela reproduz, na criança, o modelo hierárquico das classes sociais ao proporcionar conhecimentos insuficientes para que o estudante supere, na vida adulta, as condições econômicas que herdou ao nascer. O esforço individual e o mérito do aluno logo dissolvem-se num ambiente cultural pobre, sem inovação no aprendizado ou estímulo à curiosidade científica, destinado a dotá-lo apenas do elementar para que ele se torne um trabalhador mediano e frustrado, anos depois. A escola se tornou um fardo ao estudante – um dos motivos da elevadíssima taxa de evasão escolar no País.

A produção social do “doutor”, do bacharel, do assalariado, do trabalhador sem qualificação, do que vive da força braçal resulta do acesso – ou das barreiras que lhe foram impostas – à aquisição do conhecimento. A utopia suíça permanecerá como tal, apenas uma miragem dos Alpes, enquanto a “democracia de oportunidades” não se tornar o cerne da política social brasileira. Ensino público, de qualidade, para todos – uma fórmula tão simples, tão óbvia, mas cuja negação parece esconder a vontade de que tudo permaneça exatamente como está. Viva a Suíça!

Pedro Pedrossian NetoEconomista, professor e mestre em Economia Política pela PUC-SP e diretor-executivo da Nova Miranda Urbanizadora

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