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Ou o PT muda ou acaba, garante Marta Suplicy

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12/01/2015 – 10h59

De saída do partido, senadora se diz estarrecida com desmandos, critica Dilma Rousseff e ataca colegas petistas

Em entrevista concedida à Eliane Cantanhêde (ex-Folha de S. Paulo) em sua estreia no Estado de S.Paulo, a senadora Marta Suplicy (PT-SP), umas das correligionárias mais próximas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, fez fortes críticas ao PT, ao chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e à própria presidente Dilma. Ela revelou na entrevista os bastidores inéditos da disputa interna do partido e da campanha “Volta Lula”.

Marta confirmou que Lula quis sim ser candidato em 2014, mas desistiu diante da insistência da presidente da República, Dilma Rousseff, em se manter no poder.

Marta articulou o movimento ‘Volta, Lula’ e deixou claro que teve a chancela de Lula nesse sentido. Diante da falta de crescimento econômico e da inflação alta, Marta conta que recorreu a Lula para que ele tomasse providências para colocar o Brasil de volta ao rumo da prosperidade. Lula foi claro na resposta: “Não adianta, Dilma não me ouve”.
Lula estava extremamente incomodado com Dilma, disse Marta. “A verdade é que ele nunca disse, mas sempre quis ser candidato e achou que ia ser”. E foi movida por esse sentimento não verbalizado de Lula que Marta passou a trabalhar para o “Volta” do ex-presidente.

Marta contou que, em meados de 2013, Lula pediu a ela que organizasse um jantar com empresários para tentar ajudar a encontrar soluções para a política econômica, o que foi feito, no início de 2014, “com os 30 PIBs paulistas”. Lula conversou com os empresários e concordou com as críticas ao governo: “[no jantar] Foi do Lázaro Brandão a quem você quiser imaginar. Eles fizeram muitas críticas à política econômica e ao jeito da presidente. E ele não se fez de rogado, entrou nas críticas, disse que era isso mesmo.” Os empresários saíram da casa de Marta Suplicy satisfeitos e com a certeza de que Lula seria, sim, o candidato à presidência da República.

Marta se diz decepcionada com a forma como o PT a tratou e com a corrupção no partido. “Ou o PT muda ou acaba”.

Por que a senhora articulou o movimento “Volta, Lula”?Em meados de 2003 os desmandos aconteciam e a economia ia de mal a pior. Foi aí que disse ao Lula: ‘Presidente, está acontecendo uma coisa séria. O que o senhor acha que está acontecendo?’ Conversamos a primeira, a segunda, a terceira, a quarta vez… E ele dizia: ‘É verdade, estou conversando com ela, mas ela não houve’. A coisa foi piorando e, um dia ele disse: ‘Os empresários estão se desgarrando… ’. E perguntou se eu podia ajudar e organizei um jantar na minha casa, já no início de 2014, com os 30 PIBs paulistas. Foi do Lázaro Brandão a quem você quiser imaginar. Eles fizeram muitas críticas à política econômica e ao jeito da presidente. E ele não se fez de rogado, entrou nas críticas, disse que era isso mesmo. Naquele jeito do Lula, né? Quando o jantar acabou, todos estavam satisfeitíssimos com ele.

E falaram nele como candidato?Ninguém falou claramente, mas todo mundo saiu dali com a convicção de que ele era, sim, candidato.

Ele admitia que quisesse ser?Nunca admitiu, mas decepava (sic) ela: ‘Não ouve, não adianta falar’.

Ele estava incomodado com Dilma?Extremamente incomodado. E isso é que foi levando ele a achar que tinha de ser o candidato e fui percebendo que a ação dele foi mudando. A verdade é que ele nunca disse, mas sempre quis ser candidato e achou que ia ser.

Por isso a senhora trabalhou pela candidatura do Lula?Sim, providenciando os encontros para ele poder se colocar. Foi quando convidei políticos, artistas para um grande encontro político. Convidei a Dilma, o Mercadante e todos os ministros de São Paulo, avisando que o Lula estaria presente. Todos confirmaram, mas, na véspera, todos cancelaram. E ela, Dilma, também não foi. Nessa época, ainda estava confuso quem seria o candidato. Tinha uma disputa. E, depois, quando ela virou candidatíssima, ele não falava mais com ela.

O Lula deixava uma porta aberta?

Quando o Lula escolheu o Fernando Haddad para disputar a prefeitura, eu avisei a ele que eu ia sair do ministério, porque discordava da política econômica, da condução do País, e ia voltar para o Senado. ‘E vou dizer que o candidato é o senhor. A única que tem coragem de dizer isso publicamente sou eu e vou dizer’. E ele: ‘Não vai, não, de jeito nenhum’. Eu: ‘Por quê?’ Ele: ‘Porque não é hora’. Veja bem, ele não negou, ele disse que não era hora.

Depois, como evoluiu?Um dia, eu fui direta: ‘Lula, tem de ir pro pau, tem de ter clareza nisso’ E listei pessoas com quem poderia conversar para dizer que ele tinha interesse, que estava disposto. Aí ele disse que não, que não era para falar com ninguém. O que eu ia fazer? Concordei. Só que, quando eu já estava saindo, perto da porta, ele disse: ‘Pode falar com o Rui (Falcão, presidente o PT)’. Dois dias depois, sentei duas horas e meia com o Rui e disse a ele: ‘A situação está muito difícil eleitoralmente para o PT, mas muito difícil para o País. Porque vai ser muito difícil a Dilma conduzir o País de outro jeito, você já conhece o jeito dela’. Mas ele disse que íamos ganhar e que eu estava falando de coisas que eu não entendia.

Acredita que o Lula queria ser (candidato em 2014?)Ele é um grande estadista, mas não quis enfrentar a Dilma. Pode ser da personalidade dele não ir para o enfrentamento direto, ou porque achou que geraria tal disputa que os dois iriam perder.

E quando o próprio Lula encerrou de vez o assunto?Foi quando ele disse: ‘Marta, acabou. Vamos trabalhar para a Dilma e pronto. Você vai enfiar a camisa e trabalhar de novo’.

E a senhora nunca pensou em ser candidata?A quê?

A presidente…Pensei sim. Quando era neófita, tinha clareza de que poderia ser presidente. Depois, isso caiu por terra, até que um dia o Lula, no avião dele, quando era presidente, me disse: ‘Minha sucessora vai ser uma mulher’ E pensei que ou seria eu, ou a Marina (Silva) ou Dilma. Logo vi aquela história de ‘mãe do PAC’ e que era a Dilma. Pensei: ‘O que faço?’. Bom, ou ficava contra ou não fazia coisa nenhuma, ou ajudava. Mais uma vez, decidi ajudar. Sempre achei que ia acabar ficando meio de fora das coisas, talvez pela origem, talvez por ser loura de olho azul, não sei.

Como vê o governo Dilma?Os desafios agora serão gigantescos, porque não se engendraram as ações necessárias quando se percebeu o fracasso da política econômica liderada por ela. Em 2013, esse fracasso era mais do que evidente. Era preciso mudar a equipe econômica e o rumo da economia, e sabe por que não mudou? Porque isso fortaleceria a candidatura do Lula, o ‘Volta Lula’.

E a nova equipe econômica?É experiente, qualificada. Vai depender de a Dilma respeitar a independência da equipe. Se não respeitar, vai ser desastroso. Agora, é preciso ter humildade e a forma de reconhecer os erros a esta altura é deixar a equipe trabalhar. Mas ela não reconheceu na campanha, não reconheceu no discurso de posse. Como que ela pode fazer agora?

Se Dilma não deixar a equipe econômica trabalhar, os ministros Joaquim Levy (Fazenda) e Nelson Barbosa (Planejamento) podem correr para o Lula, pedindo apoio?Você não está entendendo. O Lula está fora, está totalmente fora.

Tudo isso criou uma cisão indelével no PT, entre lulistas e dilmistas, como ficou claro na posse, quando o Lula foi frio com o Mercadante?O Mercadante é inimigo, o Rui traiu o partido e o projeto do PT, e o partido se acovardou ao recusar um debate sobre quem era melhor para o País, mesmo sabendo as limitações da Dilma. Já no primeiro dia, vimos um ministério cujo critério foi a exclusão de todos que eram próximos do Lula. O Gilberto Carvalho é o mais óbvio.

Qual o efeito disso em 2018?Mercadante mente quando diz que Lula será o candidato. Ele é candidatíssimo e está operando nessa direção desde a campanha, quando houve um complô dele com Rui e João Santana (marqueteiro de Dilma) para barrar Lula.

Quais as chances de vitória do PT com Mercadante?Ele vai ter contra si sua arrogância, seu autoritarismo, sua capacidade de promover trapalhadas. Mas ele já era o homem forte do governo. Logo, todas as trapalhadas que ocorreram antes ocorrerem agora e que ocorrerão depois terão a digital dele.

Afinal, quais são os desmandos da gestão do Juca Ferreira na Cultura?Foi uma gestão muito ruim. Enviei para a CGU (Controladoria Geral da União) tudo sobre os desmandos e irregularidades da gestão dele.

O que aconteceu com a Petrobras?Para mim, todo o conselho e diretoria deveriam ser trocados. Respeito a Graça (Foster), até gosto dela. Não questiono sua seriedade e honradez. Mas, no momento, o mais importante é salvar a Petrobras.

O PT foi criado com a aura de partido ético. Imaginava que pudesse chegar a esse ponto?Cada vez que abro um jornal, fico mais estarrecida com os desmandos do que no dia anterior. É esse o partido que ajudei a criar e fundar? Hoje é um partido que sinto que não tenho mais nada a ver com suas estruturas. É um partido cada vez mais isolado, que luta pela manutenção no poder. E, se for analisar friamente, é um partido no qual estou há muito tempo alijada e cerceada, impossibilitada de disputar e exercer cargos para os quais estou habilitada.

Então a sem hora vai sair do PT?A decisão não está tomada ainda, mas passei um mês e meio, dois meses, chorando, com uma tristeza profunda, uma decepção enorme, me sentindo uma idiota. Não tomei a decisão nem de sair, nem para qual partido, mas tenho portas abertas e convites de praticamente todos, exceto do PSDB e do DEM.

Para concorrer à prefeitura?Não será uma decisão em função de uma possível candidatura à Prefeitura, por isso é tão dura. É uma decisão duríssima de quem acreditou tanto, de quem engoliu tanto.

Tem uma gota d’água?Não, mas na campanha da Dilma e do (Alexandre) Padilha em São Paulo, fui totalmente alijada. Quando Padilha me ligou pedindo para eu gravar, disse: ‘Ô Padilha, entenda. Eu não sou mais objeto utilitário, acabou essa minha função no PT’.

Por que Padilha e Dilma foram tão mal em São Paulo?Não foi um foto pró-Aécio (Neves), foi um voto anti-PT, pelos desmandos que o PT tem perpetrado nesses anos todos.

O que vai ocorrer com o PT?Ou o PT muda ou acaba.

Ou o PT muda ou acaba, garante Marta Suplicy

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