06/05/2016 – 09h54
Deputado afastado trocou número de imóvel para não ser relacionado a estelionato
No cartório do 2º Registro de Imóveis do Rio de Janeiro, o número oficial da casa de seis suítes da Rua Sergio Porto, no alto da Gávea, Zona Sul da cidade, é 171. Porém, durante os nove anos que ocupou o imóvel, um inquilino não quis associar o número da residência ao artigo do Código Penal pelo qual são conhecidos os estelionatários. Preferiu dar ao lugar uma numeração fantasia — 173. À revelia da prefeitura, fixou na porta uma plaquinha que encobria a original. A dona da casa, a advogada aposentada Regina Gonzalez Pinheiro Machado, de 78 anos, disse que o morador, que viveu ali de 1998 a 2006, jamais pediu o seu consentimento para apagar o número 171.
Ao mudar-se dali para a Barra “sem nunca ter devolvido as chaves”, garante a proprietária, Eduardo Cunha, afastado da presidência da Câmara na quinta-feira, levou também a plaquinha com o número 173. Hoje, de vestígio do antigo inquilino, só restaram as marcas do número falso. Mas, na memória de Cunha, o endereço não deve ser de boas lembranças. Foi ali, na casa com piscina, pomar e garagem para oito carros que o político enfrentou o primeiro de uma coleção de escândalos: a denúncia de favorecimento da obscura construtora Grande Piso na construção de unidades habitacionais populares, quando presidia a Cehab.
— Ele vivia sempre assustado e cercado de seguranças — recorda-se um antigo vigilante da rua, que se identificou como “Zé”.
Antes da temporada na Gávea, Cunha já havia comandado a Telerj no governo Collor. Economista formado pela Cândido Mendes, com uma rápida passagem pela empresa de auditoria Arthur Andersen (1978 a 1980), ele teria encantado alguns políticos pela facilidade de lidar com números e finanças. Até chegar ao quartel-general da campanha de Collor a presidente, em 1989, teria testado a expertise nas eleições disputadas por Eliseu Resende em Minas (1982) e Moreira Franco no Rio (1986).
Para assumir um posto tão alto no governo Collor, Cunha teria contado com um empurrão de Paulo Cesar Farias, o PC, apontado como operador do presidente recém-eleito e que acabou sofrendo impeachment. Até então, seu padrinho mais forte era Daniel Tourinho, presidente do PRN. Em 2001, Cunha foi eleito deputado estadual, no Rio, pelo PPB, o atual PP. Dois anos depois, aterrissou em Brasília, mas não sem dificuldades. Impedido, a princípio, de disputar as eleições de 2002 por ter ficha suja no Tribunal de Contas do Estado (TCE), arranjou-se com um nada-consta assinado por membros do Ministério Público do Rio. Elegeu-se e foi em frente, enquanto o então subprocurador-geral de Justiça, Elio Fischberg, viu a carreira ruir ao ser acusado de falsificar as assinaturas do documento que liberou Cunha. Mais tarde, para afastar as suspeitas, Cunha garantiu que funcionara como testemunha de acusação a Fischberg, que jamais abriu a boca sobre o caso.

