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sábado, junho 20, 2026

A melhor seleção continua nas arquibancadas da Copa

Entre velhos ídolos, seis minutos de acréscimo e uma vitória protocolar sobre o Haiti, a transmissão acabou mostrando onde anda a magia do futebol brasileiro

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Valfrido Silva

Confesso que talvez esteja ficando velho, afinal, no próximo 30 serão setenta e dois anos de meus dias. Ou apenas desconfiado. Mas assistindo ao jogo entre Brasil e Haiti tive a impressão de que a Rede Globo transmitia duas partidas ao mesmo tempo. Uma acontecia no gramado. A outra, muito mais interessante, nas arquibancadas. Enquanto a seleção brasileira fazia sua obrigação diante de um adversário infinitamente mais modesto, as câmeras insistiam em buscar Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo Fenômeno, Kaká, Roberto Carlos e outros remanescentes de um tempo em que o Brasil entrava em campo não apenas para vencer, mas para encantar.

Talvez essa sensação venha de longe. Durante anos atribuí boa parte dos fracassos recentes da seleção brasileira à combinação explosiva entre os interesses comerciais da televisão e a torcida quase militante de alguns de seus narradores. Galvão Bueno, por exemplo, nunca me convenceu inteiramente como narrador. Sempre me pareceu mais torcedor do que locutor, mais protagonista do espetáculo do que seu observador. Veio depois Luiz Roberto, herdeiro legítimo da escola segundo a qual toda bola na trave obrigatoriamente vai parar em Pindamonhangaba, terra de Geraldo Alckmin. Quis o destino, porém, que uma grave doença o afastasse justamente antes desta Copa. Sobrou Everaldo Marques, mais sóbrio, mais moderado, menos inclinado a transformar cada lateral em capítulo decisivo da história nacional. Ainda assim, vez ou outra, a transmissão deixa escapar sentimentos que talvez digam mais sobre o futebol brasileiro do que a própria partida.

Pode ser injustiça com os jogadores atuais. Pode ser saudosismo de quem viu Pelé, Tostão, Rivellino, Zico, Falcão, Romário, Ronaldo e Ronaldinho. Mas a sensação era de que os protagonistas da noite estavam todos sentados. Os heróis apareciam sorrindo nas arquibancadas enquanto seus sucessores corriam lá embaixo tentando convencer um país inteiro de que ainda existe alguma magia naquela camisa amarela. Ops!, a de ontem era azul.

O momento mais revelador veio ao final do primeiro tempo. O Brasil já vencia por confortáveis 3 a 0 quando o árbitro anunciou seis minutos de acréscimo. Apenas seis. Em tempos de Copa do Mundo, em que a Fifa transformou os acréscimos em pequenos segundos tempos, não era exatamente um exagero. Em outras épocas, a notícia seria recebida como oportunidade. Mais seis minutos para aumentar a goleada. Mais seis minutos para empilhar gols. Mais seis minutos para transformar uma vitória protocolar em espetáculo.

Mas a reação de um dos comentaristas foi quase um protesto. Seis minutos para quê?

A observação pode parecer banal, mas revelou algo muito maior. Ninguém tinha medo do Haiti. Ao mesmo tempo, ninguém parecia esperar nada extraordinário do Brasil. Era como se o jogo já estivesse resolvido e a única preocupação fosse chegar logo ao intervalo, ao comercial ou ao churrasco na área de lazer.

Talvez aí esteja o retrato mais sincero da seleção brasileira contemporânea. Ela continua vencendo. Continua classificando. Continua acumulando estatísticas. O que já não consegue é produzir aquela sensação de inevitabilidade que acompanhava as grandes gerações. O torcedor já não espera o impossível. Espera apenas que não passe vergonha.

E talvez seja por isso que a televisão voltou tantas vezes para as arquibancadas. Não era apenas homenagem. Era comparação involuntária. De um lado, Ronaldinho, Ronaldo, Kaká e Roberto Carlos. Do outro, uma seleção eficiente, organizada e até competitiva, mas incapaz de despertar a mesma fascinação.

No fundo, a Globo apenas captou o sentimento nacional. Durante décadas, os brasileiros olhavam para o gramado procurando seus ídolos. Agora olham para as arquibancadas procurando suas lembranças.

E talvez por isso também tenha me vindo à memória uma resposta atribuída a Rivellino, o eterno reizinho do Parque São Jorge, quando questionado sobre qual seria o resultado caso a seleção tricampeã de 1970 fosse convocada hoje para buscar o hexacampeonato. “Ganharíamos por pelo menos dois a zero”, respondeu, referindo-se ao jogo com Marrocos. Diante do espanto do interlocutor, completou: “Isso porque o Pelé morreu, recentemente também o Brito, e os outros já passaram dos oitenta”. Exagero, claro. Mas como toda boa piada, carregando uma verdade desconfortável.

Assistindo ao Brasil contra o Haiti, tive a impressão de que a melhor seleção brasileira presente no estádio não estava em campo. Estava espalhada pelas arquibancadas, entre velhos craques, velhas lembranças e um tempo em que seis minutos de acréscimo serviam para aumentar a goleada, não para acelerar a chegada do intervalo.

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