A Torre Eiffel ficou atrás. Agora, atravesso o Sena, driblando os turistas. Há de tudo, mas não tenho tempo para observá-los. Uma vez do outro lado, sigo à direita, pela avenida d’Iéna. Alguns metros adiante, já vejo o prédio: o Palais d’Iéna, onde funciona o CESE (Conseil économique, social et environnemental). O edifício, em concreto armado, é um marco da arquitetura modernista, um exemplo emblemático do uso do concreto.
Sua entrada é oval — ou redonda? — marcada por colunas repetidas. Foi construído entre 1937 e 1946, tendo a guerra interrompido as obras nesse período. Trata-se de um projeto do arquiteto Auguste Perret, um dos primeiros a valorizar o concreto armado como estética, e não apenas como técnica, deixando a estrutura visível. Perret influenciou, inclusive, os “pais” de Brasília.
É nesse espaço que chego para visitar a exposição Brasília, que, depois de circular pelo mundo, chega a Paris por uma semana. Os franceses influenciaram os brasileiros: Le Corbusier influenciou Niemeyer. A diferença é que o nosso arquiteto transformou o concreto em curvas, leveza e poesia — uma arquitetura mais escultural e sensual, com menos rigidez e mais liberdade.
Após a entrada — e os controles de praxe, como em um aeroporto —, uma larga escada me leva ao primeiro andar. À minha frente, um espaço com imensas janelas e pilares dispostos ao longo de um grande salão, onde se encontra a exposição. À direita, antes de seguir adiante, outras escadas, que provavelmente servem a todos os andares, chamam a atenção por suas formas curvadas.
A Brasília de Juscelino Kubitschek, de Niemeyer, de Lúcio Costa e dos candangos se abre ao público e a mim. Uma cidade nascida de uma utopia, diz um painel. A audácia de um projeto visionário: transferir a capital brasileira do litoral para o planalto central, no coração da América do Sul — um sonho do século XVIII. Foram necessários apenas três anos e dez meses para que a cidade surgisse no cerrado, quase como uma “mágica” de seus construtores.
A exposição apresenta documentos como desenhos preparatórios de Niemeyer, correspondências de Le Corbusier, esculturas de Bruno Giorgi, fotografias, pinturas e uma grande maquete de Brasília. As formas de Niemeyer conduzem a uma verdadeira viagem artística e cultural. Destacam-se também a arquitetura e a riqueza cultural da cidade, por meio das obras de Roberto Burle Marx, Athos Bulcão e Maria Martins.
As fotografias de Orlando Brito, Fabio Colombini e Rui Faquini captam a cidade sob ângulos inéditos. A exposição destaca as etapas-chave dessa aventura: Brasília em construção, a catedral, os palácios, a chegada dos candangos…
É uma exposição que evidencia a influência do modernismo francês e o diálogo entre dois países. Auguste Perret, mestre do concreto armado, e Le Corbusier, teórico da cidade funcional, inspiraram Lúcio Costa e Oscar Niemeyer.
Organizada com a Embaixada do Brasil na França, a mostra é uma imersão na epopeia arquitetônica e urbana da capital brasileira.
O lado positivo do Brasil apresentado aos franceses desperta o orgulho de ser brasileira.
- Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Agora vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 14 livros publicados (cinco em francês). Fazem parte deles: Na sombra do ipê e No Crepúsculo da vida (Patuá); Lembranças do sítio / Mon enfance dans le Mato Grosso; Lembranças da vila; Nascentes vivas para os povos Guarani, Kaiowá e Terenas; Maria d’Apparecida negroluminosa voz; e Na rota de traficantes de obras de arte.
Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus.
