Mazé Torquato Chotil
Olhos pretos, pele cor de chocolate. Seus cabelos pretos e lisos escorrem pelos ombros e caem pelas costas, sobre a camiseta que deve ter recuperado de algum candidato ou de alguma casa comercial. Ela leva uma publicidade que não consigo enxergar. A camiseta devia ter sido branca. Agora tem quase a cor da terra vermelha do chão. Um short de tecido leve cobre suas “vergonhas”.
Seu pequeno tamanho a força a se colocar nas pontas dos pés para tocar a campainha. A casa tem um muro de arrimo e um portão de ferro que impedem a visão do interior. De bom tamanho, bem desenhada, a casa parece ter um bom terreno e, possivelmente, uma piscina atrás, longe do possível barulho da rua, onde se pode refrescar do calor do verão.
Ninguém!
Nos minutos seguintes, novamente nas pontas dos pés, aperta a campainha. Ninguém. Espera um pouco. Sem resposta, depois de algum tempo, vai ao encontro do irmão, um pouco maior que ela, sentado sob a árvore da esquina. Senta-se ao seu lado, sem dizer nada.
Já passou por todas as casas da direita daquela quadra. Conseguiu, no seu embornal, uma banana, dois pães secos e uma camiseta. Não tem fome. Algo que não consegue definir bloqueia seu estômago. Sob o sol quente, tem sede, mas nada para beber.
Olha para o chão asfaltado, para as casas da frente, de alvenaria, desenhadas por arquitetos. Do outro lado da rua — que, na verdade, é uma estrada que vai tão longe, tão longe que não consegue imaginar —, o muro é mais alto e não deixa ver as casas que estão dentro. É impossível pular o muro ou entrar pelo portão principal, com todos os guardas fora ou dentro da guarita, uma cabine de vidro fumê.
Será que ela olha também para o passado, quando seu povo vivia livre na floresta que existia por todo o lugar? Quando seu povo tinha comida farta, com o milho ou a mandioca que se plantavam nas imediações da oca, a caça e a pesca, ou ainda as frutas nativas como o mamão, o jatobá, a laranja-da-terra… que existiam no Tekoha, seu território de vida?
A caça há muito tempo não existe mais, depois das derrubadas feitas pelos brancos para o uso da terra. Os peixes não conseguem viver no rio próximo, por causa dos pesticidas que os plantadores de soja — que ninguém por aqui come — espalham pelas terras vizinhas, pelo chão ou pelo ar, fazendo cair do céu, nas suas terras minguadas, o veneno que provoca dores de cabeça, tontura, náusea e vômito, além de irritação nos olhos e coisas piores depois. Os suicídios e o sofrimento psíquico teriam a ver também com essa peste que mata até as abelhas?
tem pão velho?
não, criança
temos comida farta em nossas mesas
abençoada de toalhas de linho, talheres
temos mulheres servis, geladeiras, automóveis, fogão
mas não temos pão.
Emmanuel Marinho
