O dia começa a surgir no hemisfério sul. As cores avermelhadas passam para o cinza e, em seguida, para o cinza-chumbo. De repente, tudo fica somente cinza, no meio das nuvens, a cerca de 10.000 metros de altura, no céu brasileiro. É como se a noite retomasse e engolisse o dia iniciado.
Em um piscar de olhos, surge uma brecha nas nuvens cinzas, e o sol consegue aparecer, como se fosse uma caverna onde o vermelho, com tonalidades de laranja, se oferece. Diria até que um azul ou um verde se mistura à bela paisagem. Um comissário de bordo fica por minutos com o olhar fixo na janelinha para ver tal boniteza. As formas também variam: ali, uma montanha; segundos depois, um elefante…
Ainda dentro das nuvens, o café da manhã. As nuvens, quando brancas, me lembram algodão-doce. Minha vontade de um café com croissant não é satisfeita. Nem a de queijo branco com goiabada, pensando em comida brasileira. Nem o café tem o aroma da memória. Mas a chegada se anuncia em breve. E, quando a aterrissagem é feita, algumas palmas brasileiras se ouvem, um tanto discretas, indecisas, talvez pensando que é uma prática ultrapassada, mas, ainda assim, contentes por terem aterrissado bem.
Abraços, cheiros e papilas felizes. O gosto do mamão maduro, da manga e de todos os velhos e bons sabores a degustar. Os ventos de 80 km/h previstos não apareceram. Felicidade em ser acolhida sem tempestade.
A saudade dos que ficaram já se mostra. Mas vamos aos prazeres dos encontros. Em São Paulo, com os alunos do Liceu Francês Internacional, a entrevista na TVT e a palestra no Museu Lasar Segall, todos em torno de Lucy Citti Ferreira: a pintora esquecida do modernismo.
O final de semana será rumo a Campo Grande, para pesquisas na UEMS sobre a nossa Professora Glorinha, importante figura da educação e da cultura do nosso Mato Grosso do Sul. A intenção é ter sua biografia pronta para lançamento no seu aniversário de 100 anos, no ano que vem.
Depois, rumo a Minas Gerais, passando por São Paulo: Academia Mineira de Letras, Universidade de Alfenas e o festival Flipoços.
- Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Agora vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 14 livros publicados (cinco em francês). Fazem parte deles: Na sombra do ipê e No Crepúsculo da vida (Patuá); Lembranças do sítio / Mon enfance dans le Mato Grosso; Lembranças da vila; Nascentes vivas para os povos Guarani, Kaiowá e Terenas; Maria d’Apparecida negroluminosa voz; e Na rota de traficantes de obras de arte.
Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus.
