A vereadora Luiza Ribeiro trouxe à tona, durante sessão desta terça-feira (14) na Câmara Municipal de Campo Grande, um problema que já ganhou contornos de escândalo: descontos considerados ilegais nos salários de servidores públicos municipais ligados a operações do Conglomerado Master.
Segundo a parlamentar, servidores ativos, aposentados e pensionistas vêm sendo surpreendidos com a retomada de cobranças mensais vinculadas ao cartão consignado conhecido como “Credcesta”, agora associado ao Banco Master. Os relatos indicam que os descontos haviam sido interrompidos durante a crise da instituição financeira, mas voltaram a aparecer recentemente na folha de pagamento.
Para Luiza Ribeiro, a situação é grave e exige resposta imediata da administração municipal. “Os servidores estão denunciando e buscando a Justiça. Esse cartão havia desaparecido e, de repente, os descontos retornam, agora em nome do Banco Master. Na prática, estão sangrando o salário dos trabalhadores”, afirmou.
A vereadora apontou ainda possível responsabilidade da prefeita Adriane Lopes e do presidente do Instituto Municipal de Previdência de Campo Grande (IMPCG), Marcos Cesar Malaquias Tabosa, por permitirem a continuidade dos descontos após decisões judiciais envolvendo o tema. Segundo ela, há indícios de falta de transparência e de base legal nas cobranças.
Casos relatados ao gabinete da parlamentar revelam valores significativos. Uma servidora, por exemplo, afirmou sofrer desconto mensal de cerca de R$ 580. Para Luiza, o mecanismo se aproxima de um “confisco salarial”, sobretudo por atingir diretamente a renda de trabalhadores e aposentados.
Diante das denúncias, a vereadora protocolou indicação solicitando a suspensão imediata de todos os descontos relacionados a empréstimos consignados vinculados ao Conglomerado Master — incluindo instituições como Banco Master S/A, Letsbank e Master Corretora — até que haja plena apuração da legalidade das operações.
O alerta ganha ainda mais relevância diante do cenário envolvendo o grupo financeiro. Em novembro de 2025, o Banco Central decretou regime especial para instituições do conglomerado, após identificar comprometimento da situação econômico-financeira e irregularidades no cumprimento de normas do Sistema Financeiro Nacional.
Além disso, o próprio IMPCG possui cerca de R$ 1,39 milhão investidos em Letras Financeiras do Banco Master — aplicação sem cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Com a liquidação extrajudicial da instituição, o instituto passou à condição de credor, o que coloca em risco a recuperação integral dos valores.
O caso também se conecta a investigações em curso. A Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, apura crimes contra o sistema financeiro nacional, incluindo a emissão de títulos de crédito irregulares. Entre os investigados está o controlador do banco, Daniel Vorcaro.
Mesmo diante desse cenário, o Banco Master segue credenciado para operar crédito consignado junto aos servidores municipais, com autorização para realizar descontos diretamente na folha de pagamento — inclusive por meio do cartão Credcesta, alvo das reclamações.
Entidades de defesa do consumidor alertam que esse tipo de produto pode apresentar juros elevados e favorecer o superendividamento, já que os descontos automáticos geralmente correspondem apenas ao valor mínimo da fatura.
No âmbito nacional, o próprio INSS já adotou medidas restritivas após identificar indícios de irregularidades em cerca de 254 mil contratos ligados ao Credcesta, bloqueando aproximadamente R$ 2 bilhões em repasses até a comprovação da legalidade das operações.
Diante desse conjunto de fatores, Luiza Ribeiro defende a interrupção imediata dos descontos até que todas as dúvidas sejam esclarecidas. “Não é aceitável que servidores tenham seus salários comprometidos por operações suspeitas, ainda mais em um contexto de instabilidade financeira e investigações em andamento”, concluiu.
