Sentada ao meu lado, no assento do trem, ela come sua refeição numa embalagem de papel, tipo tigela. Uma salada que, suponho, foi comprada numa dessas lojas de alimentos da estação que vendem de tudo, como os armazéns de antigamente: pronta para viagem, com seu molho, pronta para o consumo.
As novas gerações não fazem mais, como no passado, seu lanche ou seu piquenique de viagem, com pão, queijo, presunto, frutas… como se vê em alguns filmes antigos. Agora, o tempo é do pronto para o consumo.
O lixo produzido é considerável. Ainda bem que o invólucro dela é de papel, que deve ser reciclado. A tampa é de plástico, transparente para que o cliente possa decidir no momento da compra.
No passado, o lanche era embrulhado num guardanapo de tecido.
Sem muita fome, comi algumas nozes de caju torradas, um pedaço de queijo que havia embrulhado num guardanapo de papel e, sobretudo, bebi a água da torneira que ainda estava fria.
Concentrada na minha leitura no computador, de repente, ao olhar pela janela para a paisagem ao longe, meus olhos são atraídos por seu braço esquerdo.
Uma lembrança de infância me vem rapidamente à memória, causando-me espanto. Como é que, de repente, uma lembrança que nunca havia se aproximado de mim aparece assim, de imediato, num piscar de olhos?
Vejo-me há anos no passado, como se tudo tivesse acontecido ali, naquele instante.
Ela traz no braço esquerdo uma pulseirinha fina, dourada, delicada, com pequenas pedras aqui e acolá. Isso me transporta aos anos em que eu vendia de tudo um pouco no armazém de secos e molhados do meu pai.
Quantos anos se passaram! Como funciona essa memória? Minha infância distante, de mais de cinquenta anos atrás.
Vejo-me com uma caixinha nas mãos. Ela estava dentro de uma caixa maior que guardava tantas outras. Era uma caixinha-surpresa, de papel, com algumas imagens de pulseiras em um dos lados. Imagens coloridas para chamar a atenção das futuras clientes, meninas de cerca de dez anos.
Era uma compra às cegas, porque a caixinha não permitia saber qual pulseira seria comprada, já que vinha lacrada. As possibilidades eram quatro.
Brilhavam, aquelas pulseirinhas.
Não eram pedras preciosas, claro. Mas brilhavam de alguma forma. Não tinham a qualidade da que vejo agora no braço da pessoa ao meu lado, que certamente deve ser de ouro e ter pedras verdadeiras.
Mas também era dourada a pulseira da minha infância. E as pedras eram bem coloridas. Vermelhas, azuis ou verdes… com formas que podiam variar.
De toda forma, era uma surpresa. E nunca vi nenhuma compradora decepcionada. Sempre percebia em seus olhos uma imensa alegria.
Tão pouca coisa, tão fina, tão delicada, quase insignificante, mas que orgulho usá-la no braço, mostrá-la aos outros com ares de quem não quer mostrar, mas querendo…
Infância distante, pedras brilhantes, felicidade simples.
- Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Agora vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 14 livros publicados (cinco em francês). Fazem parte deles: Na sombra do ipê e No Crepúsculo da vida (Patuá); Lembranças do sítio / Mon enfance dans le Mato Grosso; Lembranças da vila; Nascentes vivas para os povos Guarani, Kaiowá e Terenas; Maria d’Apparecida negroluminosa voz; e Na rota de traficantes de obras de arte.
Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus.
