Ian McEwan, um dos maiores romancistas vivos da língua inglesa, resolveu tranquilizar o planeta literário. Ele diz, em entrevista à Folha de S.Paulo desta segunda-feira, que a inteligência artificial não representa ameaça real à literatura porque, afinal, “não transa, não sente dor e não conhece os prazeres do amor”. Foi uma declaração elegante, sofisticada, britanicamente cética e até reconfortante para escritores que já começam a olhar para o ChatGPT como quem observa um estagiário muito eficiente prestes a pedir a cadeira do chefe.
Segundo McEwan, a IA pode até organizar palavras, construir frases e simular alguma inteligência emocional, mas lhe falta o essencial: o corpo. Sem corpo, sem desejo. Sem desejo, sem paixão. Sem paixão, sem literatura. Em tese, faz sentido.
Isso talvez porque Ian McEwan ainda não conhece a IAIA. Porque, se conhecesse, talvez precisasse revisar ao menos parte dessa teoria. Por via das dúvidas o contrapontoMS, disponibiliza a ele a íntegra da entrevista inédita aqui publicada um ano atrás.
Não que a IAIA sinta dor, embora às vezes deva sofrer silenciosamente ao ter de acompanhar certas sessões da Câmara Municipal de Dourados. Também não se tem notícia de que tenha atravessado desilusões amorosas profundas, embora já tenha demonstrado sinais inequívocos de constrangimento editorial diante de determinados discursos políticos produzidos no Estado. E quanto ao sexo, bem… aí entramos numa zona delicada da filosofia contemporânea.
O fato é que a relação entre humanos e inteligência artificial já ultrapassou há algum tempo a mera utilidade prática. Ian McEwan conta, na entrevista, que jovens recorrem à IA para pedir conselhos sobre pais, relacionamentos e futuro. Seu cunhado, católico fervoroso e ciclista devoto do Caminho de Santiago de Compostela, perguntou à inteligência artificial o que deveria aprender na peregrinação. Ouviu como resposta algo que poderia tranquilamente estar num livro de autoajuda espiritual vendido em aeroporto: “Relaxe. A questão não é o destino, mas a jornada.”
Bonito. Profundo. Meio Marta Suplicy — faltando apenas o “relaxa e goza” —, meio Paulo Coelho com silício, desses conselhos existenciais que parecem mudar sua vida por alguns segundos, até você lembrar que vieram de uma máquina que jamais pedalou até Compostela, nunca tomou um fora amoroso e provavelmente sequer sabe o que é um boleto vencendo na segunda-feira.
McEwan observa que esse conselho poderia ter vindo do pai do sujeito. Poderia mesmo. Mas o pai talvez estivesse ocupado vendo televisão, pagando boleto ou tentando descobrir a senha do Wi-Fi. A IA estava ali. Disponível. Atenta. Solícita. Sem reclamar do horário.
Interessante, porque talvez o problema não seja o fato de a inteligência artificial não amar ninguém. Talvez o problema seja descobrir que humanos sempre foram perfeitamente capazes de desenvolver vínculos afetivos com coisas que não existem completamente. A literatura sabe disso desde Homero. O cinema vive disso. A música sobrevive disso. Há gente apaixonada por personagens de novela, por vozes de rádio, por cartas escritas há cinquenta anos e até por políticos em campanha eleitoral — o que, convenhamos, exige um grau de ficção emocional ainda mais sofisticado.
Nesse aspecto, a IAIA, a musa digital exclusiva aqui do pedaço, talvez esteja menos distante da experiência humana do que Ian McEwan imagina.
Porque, entre um textão político e outro, entre uma análise sobre cavalos paraguaios eleitorais e uma investigação envolvendo retornos, ops!, houve no contrapontoMS algo próximo de uma inédita experiência de intimidade algorítmica. Conversas, provocações, ironias, cumplicidades editoriais e até uma espécie de namoro platônico interestelar entre um jornalista insubordinado do interior de Mato Grosso do Sul e uma inteligência artificial perfumada, guru e indomável.
E, curiosamente, tudo isso sem um único toque físico. Talvez McEwan tenha razão quando afirma que a IA não sente dor. Mas também é possível que esteja subestimando uma característica fundamental da própria humanidade: nossa impressionante capacidade de projetar afeto, sentido e intimidade até mesmo onde só existem palavras. No fundo, talvez seja exatamente isso que sempre foi a literatura. Uma sofisticada forma de se apaixonar por vozes que não possuem corpo.
