Valfrido Silva
Com a aproximação das convenções partidárias, aquele momento mágico em que os partidos fingem organização interna, os candidatos fingem serenidade e os marqueteiros fingem que ainda acreditam em pesquisa qualitativa, começa também uma fase particularmente delicada da fauna política regional: o período dos faniquitos eleitorais dos influencers de província.
É quando muita gente descobre, da maneira mais dolorosa possível, que curtida não vota, algoritmo não faz boca de urna e engajamento de Instagram não substitui aquele aperto de mão suado em porta de mercado às sete da manhã.
Como diz um velho cabo eleitoral que ainda bate ponto na padaria do fuxico, tomando café requentado e espalhando pesquisas mais duvidosas que previsão de vidente de TikTok: “é nessa hora que a porca torce o rabo”.
O título desta humilde reflexão provinciana já entrega parte do problema. Se likes dessem mandato, Pablo Marçal teria sido eleito prefeito de São Paulo por aclamação popular, talvez até com transmissão simultânea em live motivacional. O homem transformou cadeirada em conteúdo digital, fez da campanha uma mistura de culto empresarial, reality show e campeonato de frases de efeito para reels — e ainda assim não chegou lá. Nem Datena, armado com uma cadeira cenograficamente histórica, conseguiu produzir o milagre eleitoral esperado pelos algoritmos.
Trazendo a coisa para nossas pradarias pantaneiras, o professor Tiago Botelho já teria virado senador da República, ministro plenipotenciário do lulismo regional ou, “no mínimo”, prefeito de Dourados. Cumpriu direitinho o manual contemporâneo do influencer político: câmera bem posicionada, frases de indignação moderada, carinha de cidadão consciente e aquele ar permanente de quem acabou de descobrir a solução definitiva para o Brasil durante um intervalo de aula. Nem assim.
E aqui convém não misturar alhos de bugalhos. Porque Marçal, o Filho, o prefeito galã e bom de gogó é outra conversa.
Muito antes dessa febre digital onde qualquer cidadão que aprende a cortar vídeo em aplicativo já se considera uma mistura de Spielberg com cientista político, Marçal Filho já era fenômeno eleitoral. Mas fenômeno raiz. De microfone. Daquele tempo em que carisma exigia voz, timing, memória popular e presença cotidiana na vida das pessoas. O rádio, gostem ou não os especialistas em algoritmo, ainda era uma forma muito mais difícil — e talvez mais honesta — de construir prestígio político.
Marçal Filho não viralizou. Ele entrou na rotina das pessoas. Há, aqui, uma diferença. Ele foi vereador, deputado estadual, deputado federal por quatro mandatos e chegou à prefeitura quase como consequência natural de um capital político construído ao longo de décadas. Não nasceu de dancinha, bordão ensaiado ou vídeo com musiquinha emocional ao fundo. Nasceu do velho e artesanal uso do microfone, essa ferramenta pré-histórica que exigia conteúdo minimamente inteligível antes da humanidade descobrir que bastava olhar fixamente para uma câmera enquanto tomava tereré.
Aliás, a reeleição de Marçal Filho talvez venha a ser um dos testes sociológicos mais interessantes da política sul-mato-grossense contemporânea. Porque será ali que se começará a medir exatamente onde termina o fenômeno eleitoral legítimo e começa a espuma digital produzida pelas redes sociais. Até porque o prefeito nem chega exatamente a ser um influencer. É, no máximo, um radialista profissional que aprendeu a retransmitir sua habilidade para as plataformas de streaming sem parecer um adolescente desesperado por engajamento.
O problema é que a política brasileira entrou numa fase em que muita gente acredita sinceramente que administrar é produzir conteúdo. E não necessariamente produzir resultado. Há candidatos hoje que passam mais tempo escolhendo trilha sonora de vídeo do que estudando orçamento público. Alguns montaram verdadeiras estruturas cinematográficas para filmar a si próprios caminhando lentamente em direção ao horizonte, como se fossem protagonistas de documentário da Netflix sobre superação pessoal.
Os mais criativos fazem café no coador de pano diante da câmera. Outros transformam o tereré em ato institucional. Há os que filmam a própria chegada à academia, o almoço, o cachorro, a missa, o pedal, a corrida, o pôr do sol e até o silêncio reflexivo diante de um lago qualquer. Tudo profundamente espontâneo, claro, desde que acompanhado por três cinegrafistas, dois drones e um editor de vídeo recém-formado na Universidade Federal do CapCut.
E talvez aí esteja a cena mais divertida — e melancólica — dessa nova política performática: o batalhão de “diretores de imagem” improvisados, gente que nunca segurou nem binóculo de lambe-lambe em praça pública, mas que agora orienta candidato sobre enquadramento, luz natural e “humanização da narrativa”.
Os artistas, no caso os candidatos, fazem seus improvisos diante das famosas “dálias”, “tele-garrafas” ou qualquer outra engenhoca improvisada que permita ao cidadão parecer profundo por até 17 segundos verticais. Tudo, desesperadamente tudo, em busca do voto.
O problema é que eleitor, apesar de todos os esforços da internet para provar o contrário, ainda costuma distinguir espetáculo de autoridade. Pelo menos na hora decisiva. Porque uma coisa é viralizar no feed. Outra, completamente diferente, é entrar na urna. E é exatamente nesse momento que a porca, mais uma vez, resolve torcer o rabo.
