Uma fotografia cuidadosamente construída para circular nas redes brasileiras como prova simbólica de prestígio global. A política transformada definitivamente em enquadramento. Talvez por isso tenha sido tão devastadora, estética e politicamente, a definição dada pelo deputado Lindbergh Farias à imagem de Flávio Bolsonaro, Paulo Figueiredo Jr. e Eduardo Bolsonaro orbitando a mesa de Donald Trump: “os três patetas”.
A frase, além da crueldade parlamentar habitual, carrega uma ironia histórica quase involuntária. Porque o Brasil já teve outros “três” célebres no poder: os generais Geisel, Golbery e Figueiredo, o velho núcleo da engenharia política da ditadura, homens que exerciam poder concreto, administravam crises reais e moviam efetivamente as engrenagens do Estado brasileiro. Agora surge uma espécie de versão digital da velha liturgia do poder: personagens tentando converter proximidade fotográfica em relevância política doméstica, como o que se viu ontem na Casa Branca, ou seja, menos diplomacia e mais direção de arte.
Nenhum anúncio relevante. Nenhuma reunião decisiva. Nenhum gesto minimamente orgânico que sugerisse intimidade política real com Donald Trump. Nem abraço, nem conversa reservada, nem cumplicidade visível, nem qualquer daqueles símbolos tradicionais que costumam diferenciar uma agenda de Estado de uma aparição turística de luxo. Havia apenas a fotografia. O frame. O registro cuidadosamente posicionado para abastecer durante dias o ecossistema digital brasileiro com reels patrióticos, legendas épicas e análises emocionadas sobre uma relevância internacional que talvez exista mais no algoritmo do que propriamente na geopolítica.
E o curioso é que a movimentação acontece justamente quando Flávio Bolsonaro tenta sobreviver politicamente aos efeitos devastadores daquela história do “meu irmão” Daniel Vorcaro, expressão que entrou no folclore político recente com a delicadeza de uma retroescavadeira atravessando a vitrine de um banco em horário comercial. Aí aparece o velho mecanismo contemporâneo de sobrevivência política: quando a realidade aperta, troca-se o cenário. Quando a crise sobe, ajusta-se o enquadramento. Quando o desgaste ameaça contaminar a narrativa, produz-se uma nova atmosfera visual.
A política brasileira entrou numa fase tão cenográfica que determinados personagens já parecem passar mais tempo administrando a própria imagem do que administrando propriamente ideias. Governar virou cenário. Autenticidade virou figurino. Espontaneidade virou roteiro. Há políticos hoje que dominam perfeitamente iluminação natural, trilha emocional, câmera lenta, expressão contemplativa diante do horizonte, enquadramento patriótico e até timing de silêncio reflexivo para reels verticais. Mas seguem incapazes de sustentar dois minutos de formulação minimamente consistente sobre orçamento público sem auxílio do teleprompter emocional das redes sociais.
Talvez por isso o episódio converse tão perfeitamente com aquela distinção feita aqui entre Pablo Marçal e Marçal Filho, prefeito de Dourados. Porque a política digital passou a acreditar sinceramente que percepção substitui densidade, que viralização produz autoridade e que uma fotografia bem posicionada ao lado de uma liderança internacional automaticamente transfere estatura presidencial por osmose imagética.
Nem sempre transfere. Às vezes produz apenas uma fotografia. Pablo Marçal representa quase o estado puro dessa nova lógica: intensidade digital permanente, frases de efeito, cortes emocionais, estética de autoridade, autoajuda misturada com campanha eleitoral e uma capacidade impressionante de transformar qualquer episódio — inclusive cadeirada — em conteúdo multiplataforma. Ainda assim, a urna resistiu. Porque curtida continua não votando.
Já Marçal Filho pertence a outra escola. Não viralizou. Entrou na rotina das pessoas. Construiu presença política quando carisma ainda dependia menos de filtro facial e mais de convivência cotidiana, rádio, memória popular, improviso e repetição diária da própria voz entrando dentro da casa das famílias. É uma forma muito mais lenta — e talvez muito mais difícil — de consolidação política.
A diferença entre essas duas trajetórias ajuda a explicar boa parte dos surtos contemporâneos produzidos pela internet brasileira. O algoritmo produz notoriedade instantânea, mas nem sempre produz confiança duradoura. Produz celebridade política, não necessariamente autoridade política. E talvez esteja aí a maior confusão mental da nova fauna eleitoral brasileira: acreditar que audiência é sinônimo automático de liderança.
O sujeito pode dominar o feed durante meses. Pode viralizar indignações, emocionar seguidores, posar de estadista tropical em corredores internacionais e surgir diariamente em vídeos cinematográficos olhando para o horizonte como se estivesse prestes a refundar a República. Ainda assim, diante da urna, o eleitor frequentemente procura outra coisa: alguma sensação concreta de poder real.
Porque a urna brasileira, gostem ou não os especialistas da Universidade Federal do CapCut, ainda conserva certo comportamento analógico. O cidadão pode passar o dia inteiro compartilhando meme político, comentando reels patrióticos e consumindo política como entretenimento audiovisual, mas, no momento decisivo, muitas vezes continua votando como alguém que vive no mundo físico.
E o mundo físico ainda diferencia, com alguma crueldade, quem exerce poder de quem apenas fotografa proximidade com o poder. Lula esteve na Casa Branca como chefe de Estado. Flávio Bolsonaro apareceu tentando converter proximidade cenográfica em capital político doméstico. Uma coisa é diplomacia. Outra, completamente diferente, é composição de cena. Talvez esta seja a melhor definição da política brasileira atual: um ambiente em que determinados candidatos já não disputam apenas votos. Disputam enquadramentos.
