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terça-feira, junho 2, 2026

A cesta seção do jornalismo

Quando a palavra de ordem é produzir conteúdo fica mais difícil saber o que realmente é notícia

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Durante muitos anos pensei que a parte mais difícil do jornalismo fosse descobrir uma notícia. Hoje tenho minhas dúvidas. Talvez mais complicado seja reconhecê-la quando ela aparece. Nunca se produziu tanta informação. Nunca se publicou tanto. Nunca houve tantos vídeos, fotografias, podcasts, comentários, notas, releases, opiniões e transmissões ao vivo circulando ao mesmo tempo. E, paradoxalmente, nunca pareceu tão difícil distinguir aquilo que realmente importa daquilo que apenas ocupa espaço.

Confesso que falo com algum conhecimento de causa. Já sentei dos dois lados da mesa. Fui repórter procurando notícia e assessor tentando convencer repórteres de que meu assessorado havia produzido uma. Aprendi que as duas funções são legítimas, mas não são a mesma coisa. O jornalista, quando está assessor, tem o dever de valorizar o trabalho de quem representa. O jornalista, no veículo de comunicação, seja rádio, jornal ou TV, tem a obrigação de decidir se aquilo realmente interessa ao público. Da mesma forma que cabe ao prefeito administrar a cidade, ao governador conduzir o Estado, aos vereadores e deputados legislar e fiscalizar e ao juiz julgar, cabe ao jornalista reconhecer a notícia. Pode parecer pouco, mas não é. Trata-se de uma especialização adquirida ao longo de anos de experiência, observação e convivência com os fatos. O problema começa quando todos passam a acreditar que entendem de notícia apenas pela facilidade que têm hoje de publicá-la.

Antigamente, um release desembarcava numa redação e enfrentava seu primeiro teste de sobrevivência. Alguém olhava para ele e fazia uma pergunta simples: onde está a notícia? Nem sempre ela aparecia. Muitas vezes estava escondida entre as linhas. Outras vezes simplesmente não existia. Quando isso acontecia, o destino era conhecido por gerações de jornalistas: a velha e tão útil cesta-seção.

A cesta-seção desapareceu. Vieram as redes sociais.

Hoje praticamente tudo encontra um caminho para publicação. O vereador espirra e vira postagem. O deputado participa de uma reunião de rotina com a cupinchada e ganha vídeo. O prefeito visita uma obra e produz conteúdo. Nada disso é necessariamente errado. O problema surge quando a simples existência de uma publicação passa a ser confundida com relevância jornalística.

O problema é que nesse ambiente floresceu uma nova fauna comunicacional. Surgiram centenas de páginas, portais, perfis, canais e veículos digitais. Alguns realizam trabalho sério, responsável e indispensável. Outros nasceram com objetivos menos nobres. Em muitos casos, a fronteira entre jornalismo, publicidade, militância política, promoção pessoal e comunicação institucional tornou-se praticamente invisível. O leitor já não sabe se está diante de uma reportagem, de uma peça promocional ou de um santinho eleitoral produzido em versão digital.

Não raramente esses espaços sobrevivem graças a verbas públicas de comunicação, distribuídas pelos mais diversos órgãos dos três poderes e seus agregados. Também não há novidade nisso. A publicidade oficial sempre existiu. O que merece reflexão é outro fenômeno: a substituição gradual do critério jornalístico pelo critério da conveniência política. Quanto mais próximo do poder, maior a possibilidade de sobrevivência. Quanto mais dependente da audiência produzida por algoritmos ou patrocinadores oficiais, menor a liberdade para contrariar interesses.

Nesse processo, os verdadeiros profissionais da comunicação acabaram se tornando personagens secundários dentro da própria atividade. São jurássicos, principalmente quando insubordinados, colegas que passaram décadas nas redações, aprenderam a profissão na rua, construíram credibilidade, desenvolveram fontes e aprenderam a reconhecer notícia à distância. Muitos deles hoje enfrentam dificuldades para sobreviver num mercado cada vez mais dominado por estruturas cujo principal ativo não é a competência jornalística, mas a proximidade com centros de poder.

Alguns resistem, se adaptam, outros simplesmente desistem. E há os que, para continuar trabalhando, acabam submetidos a situações que nada têm a ver com jornalismo. O profissional que deveria ser valorizado por sua independência passa a ser cobrado por alinhamento. Aquele que deveria ser reconhecido pela capacidade crítica passa a ser medido pela lealdade. Em certos ambientes, a proximidade política vale mais que a experiência profissional. É um sinal preocupante para qualquer democracia.

Talvez por isso eu continue acreditando que o jornalismo tenha futuro. Não porque produz informação. Informação nunca foi tão abundante. O que se tornou escasso foi outra coisa: discernimento. Num mundo inundado por conteúdos, alguém ainda precisa separar o que é fato daquilo que é apenas propaganda, o que interessa ao cidadão daquilo que interessa apenas ao ocupante de um cargo público.

Pensando bem, talvez o jornalista seja uma espécie de agente ecológico da informação. Alguém encarregado de fazer coleta seletiva num ambiente cada vez mais poluído por versões, interesses e ruídos. Um profissional treinado para encontrar notícia onde ela existe e para reconhecer quando ela simplesmente não existe.

A velha cesta-seção fazia exatamente isso. Não era inimiga da notícia. Era sua guardiã. E talvez uma das tragédias silenciosas do nosso tempo seja justamente o desaparecimento desse filtro, substituído pela ilusão de que tudo merece ser publicado e de que toda publicação merece ser levada a sério. Não merece. E é exatamente por isso que o jornalismo continua sendo necessário.

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