Valfrido Silva
Domingo passado, infiltrado numa confraria de palmeirenses por obra e graça da vereadora Ana Paula Benites, comecei a tarde falando de futebol e terminei revisitando a antiga Zona do Baixo Meretrício de Dourados. Como toda boa história, essa também faz pouco sentido quando resumida em uma única frase. Como a desculpa oficial para minha presença era a dupla condição de jornalista e apreciador de Heineken, fui recebido sem maiores constrangimentos. E como todo mundo sabe que uma conversa prolongada entre corintianos e palmeirenses dificilmente termina em paz duradoura, preferimos enveredar pelas reminiscências.
Foi então que surgiu o nome de seu Paulo da Bisteca. Bisteca da Vera. Ana Paula, filha de um dos pioneiros da gastronomia douradense, lembrava histórias dos primeiros tempos do restaurante que fez fama na cidade. Ao ouvir aquele nome, imediatamente me veio à memória um texto que escrevi há exatos vinte anos, quando ainda ocupava espaço nobre nas páginas de O Progresso: “A Geografia do Sexo”.
Calma, gente. Não é nada disso que vocês estão pensando.
Acontece que o primeiro restaurante de seu Paulo localizava-se exatamente onde funcionava a antiga ZBM, a célebre Zona do Baixo Meretrício de Dourados, mais conhecida pelos íntimos simplesmente como Coreia. Paradoxalmente, a Churrascaria da Vera, como o restaurante ficou famoso por suas bistecas, era um ambiente pra lá de familiar.
A lembrança me fez chegar em casa e reler o texto. Daí, uma constatação inevitável sobre a velocidade com que muda a paisagem de uma cidade em franco desenvolvimento como Dourados. Aquele quadrilátero compreendido pelas ruas Quintino Bocaiúva, Cuiabá, Eulália Pires e Joaquim Teixeira Alves, onde durante décadas prosperaram algumas das mais conhecidas “casas da noite” douradense, praticamente desapareceu da memória urbana. Onde antes havia boates, pensões, bares, sanfonas, placas de “Hoje Baile” e personagens que pareciam saídos de um romance de Jorge Amado, hoje existem lojas, clínicas, escritórios, hotéis, estacionamentos, prédios residenciais e estabelecimentos que já não sugerem a antiga utilidade dos avisos de “Família”, tão comuns naquela época.
O curioso é que a velha Coreia estava longe de ser aquele território homogêneo que a imaginação dos mais jovens talvez desenhe hoje. Entre uma casa “das mulheradas” e outra havia residências familiares, identificadas por placas simples pregadas na cerca ou na varanda, avisando aos mais distraídos que ali morava uma família. Na casa ao lado, uma lâmpada vermelha e um cartaz anunciando “Hoje Baile” deixavam claro que a programação era outra. A cidade convivia com suas contradições sem sentir necessidade de escondê-las.
Ali funcionavam casas que entraram para o folclore douradense, como a da Guilherminha, a mais próxima da Churrascaria da Vera. Era lá que o sanfoneiro Didi costumava “entortar” seu acordeon ao som de Mercedita, A Galopeira e outros clássicos que faziam os casais rodopiarem madrugada adentro. Às vezes, depois de algumas doses extras de uísque e de alguma desilusão amorosa mal resolvida, surgia um cidadão mais inspirado que resolvia desafogar suas mágoas disparando alguns tiros de trinta e oito para o alto. Era uma forma pouco ortodoxa de abrir claraboias no telhado e permitir que os dançarinos mais românticos contemplassem as estrelas sem precisar sair do baile.
Também faziam parte daquela geografia sentimental as casas da Tia Hilda, da Pexô, da Marlene, da Branca e da Catarina, além de bares lendários como o Castelinho e o Garfo de Ouro, estabelecimentos que ajudaram a construir uma parte da história da cidade que os mapas oficiais raramente registram.
Hoje, onde antes ecoavam sanfonas, gargalhadas, serenatas improvisadas e algumas demonstrações balísticas de sofrimento amoroso, existem lojas, clínicas, escritórios, hotéis, estacionamentos, prédios residenciais e estabelecimentos perfeitamente respeitáveis. Os urbanistas chamam isso de evolução urbana. Os corretores de imóveis preferem falar em valorização imobiliária. Os antigos frequentadores da região talvez utilizem terminologia diferente, mas isso já pertence ao campo da arqueologia afetiva.
O curioso é que, depois de tantas transformações, uma construção daquela época continua firme e forte no mesmo lugar. E, acreditem, por mais irônico que possa parecer: a antiga casa do bispo, hoje abrigo dos freis franciscanos que atuam na paróquia São José Operário. Enquanto boates, bares, pensões e personagens foram desaparecendo sob o avanço da cidade, a velha residência episcopal permaneceu ali, observando silenciosamente a passagem do tempo. As casas da carne desapareceram. A casa onde a espiritualidade predomina continua intocável.
Não sei se Dom Theodardo Leitz, que conviveu durante anos com aquela vizinhança singular, enxergaria nisso uma intervenção divina ou apenas mais um capricho do crescimento urbano. Mas há alguma poesia nessa permanência.

Pensando bem, talvez a permanência da antiga casa do bispo seja apenas uma das ironias que o tempo reservou para aquela velha geografia. A cidade cresceu, mudou de endereço, mudou de hábitos, mudou de paisagem, mudou até a geografia, mas deixou ali, como uma espécie de sentinela da memória urbana, a única construção que assistiu a tudo sem sair do lugar.
E talvez a antiga Coreia também não tenha desaparecido completamente. Apenas mudou de padrão. E de endereço. Como não é segredo para ninguém, uma das mais bem-sucedidas empresárias desse que costuma ser apontado como o mais antigo dos negócios humanos ocupa hoje uma cadeira na mesma Câmara Municipal onde se senta Ana Paula Benites, filha de seu Paulo da Bisteca, cuja churrascaria funcionava exatamente no coração da velha ZBM. Convenhamos que nem o mais criativo dos roteiristas teria coragem de imaginar semelhante reunião de personagens.
Os tempos mudaram. As fachadas ficaram mais discretas. Os empreendimentos, mais sofisticados. A clientela, provavelmente, mais seletiva. Moleques curiosos como aquele que um dia levou alguns carreirões da dona Justa dificilmente chegariam perto de estabelecimentos tão exclusivos. A antiga placa de “Hoje Baile” cedeu espaço a estratégias de marketing muito mais refinadas. O velho aviso de “Família”, por sua vez, tornou-se desnecessário.
A geografia do sexo foi reconfigurada. A velha Coreia desapareceu dos mapas e a modernidade tratou de transferir boa parte de suas atividades para o universo das telas. As antigas placas sumiram, os endereços mudaram e os caminhos ficaram mais curtos. Mas basta observar um pouco para perceber que a tecnologia talvez tenha revolucionado muita coisa — menos a natureza humana.
