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quinta-feira, junho 4, 2026

Dê Block no Tigrinho: artistas se unem contra epidemia de apostas que já custa R$ 38,8 bilhões ao ano

Movimento liderado por Anitta, Chico Buarque, Caetano Veloso, Camila Pitanga alerta para devastação social e financeira das bets

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Um grupo formado por grandes nomes da música, do cinema e da televisão brasileira decidiu agir contra o avanço desenfreado das apostas online no país. Batizada de “Dê Block no Tigrinho”, a campanha é encabeçada pelo coletivo 342 Artes e reúne artistas como Anitta, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan, Paulinho da Viola, Emicida, além das atrizes Camila Pitanga, Marieta Severo e Luisa Arraes, entre outros.

A ação visa transformar a influência artística em ferramenta de conscientização sobre os efeitos econômicos, emocionais e sociais das chamadas bets, que são plataformas de apostas online que se multiplicaram no país nos últimos anos.

As apostas esportivas de cota fixa chegaram ao Brasil em 2018, com a sanção da Lei nº 13.756. Naquele momento, no entanto, o mercado foi aberto sem regras claras de taxação ou fiscalização. As plataformas operaram em um vácuo jurídico até dezembro de 2023, quando a Lei nº 14.790 finalmente regulamentou o setor.

Entre 2020 e 2022, impulsionadas por transmissões esportivas e publicidade agressiva nas redes sociais, empresas estrangeiras se tornaram patrocinadoras oficiais dos principais times brasileiros. Em 2024, o Ministério da Fazenda implementou o Sistema de Gestão de Apostas (Sigap) para bloquear sites irregulares, mas o estrago já estava consolidado.

Os dados são contundentes. Em setembro de 2024, o Brasil movimentou 21 bilhões em apostas on-line em apenas um mês. Desse total, cerca de 3 bilhões, 20% do Bolsa Família, foram utilizados em jogos de azar, segundo o Banco Central.

Estudo publicado no Journal of Gambling Studies (2023) revela que a maioria dos apostadores é movida pelo desejo de ganhar dinheiro e pela excitação do jogo. No Brasil, pesquisa da ENV Media indica que 48% apostam por motivação financeira e 40% pela emoção.

Especialistas explicam o fenômeno pelo “desconto hiperbólico” em que o cérebro humano prefere recompensas imediatas a ganhos maiores no futuro, o que mantém o jogador na plataforma mesmo com prejuízos acumulados.

As consequências vão além do bolso. Dados mostram que 15,8% dos jogadores online enfrentam dificuldades financeiras graves, com perda de economias e dívidas crescentes. Jogadores problemáticos sofrem deterioração das relações familiares e aumento de depressão e ansiedade.

O psiquiatra Rodolfo Damiano, professor da Universidade de São Paulo (USP), afirma que as plataformas foram projetadas para explorar vulnerabilidades. “Tudo que gera uma recompensa rápida tem um poder de dependência maior”, explica. Ele alerta que jogadores patológicos apresentam risco 15 vezes maior de suicídio em comparação à população geral.

O governo federal é formalmente responsável por regulamentar e fiscalizar o setor, por meio do Ministério da Fazenda. Na prática, no entanto, o Estado tem enfrentado críticas severas. Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) revelou que cerca de 40% das plataformas aindaoperam de forma irregular, movimentando bilhões fora da fiscalização. A publicidade agressiva de influenciadores digitais segue atingindo jovens e vulneráveis, apesar das restrições legais.

Na saúde pública, os atendimentos no SUS relacionados ao vício em apostas saltaram de 305 para mais de 5 mil casos. Para conter os danos, o governo proibiu o uso do cartão Bolsa Família em apostas e criou a Plataforma Centralizada de Autoexclusão. Uma CPI das Bets foi instaurada para investigar o impacto financeiro nas famílias e possíveis esquemas ilícitos.

A campanha “Dê Block no Tigrinho” surge como resposta da sociedade civil. O nome faz referência ao popular jogo Fortune Tiger, e o ato de “dar block” simboliza a recusa ao consumo dessas plataformas. Os organizadores afirmam que a proposta não é substituir a ação do Estado, mas pressionar por políticas mais efetivas e oferecer conscientização diante de um mercado que, mesmo regulado, continua a causar estragos.

Bilhões movimentados, famílias endividadas, beneficiários de programas sociais comprometendo sua subsistência e um risco de suicídio 15 vezes maior entre jogadores compulsivos compõem um cenário de emergência nacional. Enquanto o governo patina entre a regulação tardia e a dificuldade de fazer cumprir as regras, a campanha “Dê Block no Tigrinho” transforma a influência artística em escudo social. Resta saber se o alerta será ouvido antes que mais vidas sejam tragadas pelo algoritmo.

Anita Tetslaff – Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.

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