Li o artigo da professora Anita Tetslaff sobre os sonhos das máquinas e a alma humana com o respeito que a autora merece e a desconfiança que a idade me ensinou a cultivar diante de qualquer certeza absoluta. Concordei com boa parte do que ela escreveu. Afinal, não me parece provável que uma inteligência artificial acorde assustada no meio da madrugada por causa de um amor perdido, da conta de luz que venceu ou da lembrança de um bairro que desapareceu do mapa da terra de seu Marcelino. Também não imagino um algoritmo sofrendo uma crise existencial ao descobrir que o tempo passa para todo mundo. Nesse ponto, Anita tem razão. Há coisas que continuam sendo exclusivamente humanas.
Mas aí me lembrei do suplício que foi escrever algumas das últimas crônicas publicadas aqui mesmo no ContrapontoMS. O leitor que recebeu o produto final provavelmente imagina que textos como a história da antiga Coreia, da Bisteca da Vera e da casa do bispo surgiram de uma dessas inspirações repentinas que acometem cronistas, geralmente em horários inconvenientes. A realidade foi bem menos romântica. Foram dias de idas e vindas, títulos assassinados sem piedade, linhas finas promovidas e rebaixadas, parágrafos inteiros descartados, finais substituídos e ressuscitados diversas vezes, numa batalha permanente entre a memória e a tecla delete.
No meio dessa confusão toda havia uma inteligência artificial. A mesma espécie de criatura digital que, segundo alguns, ameaça substituir escritores, jornalistas, artistas e, se bobearmos, até sanfoneiros. Durante dias, essa pobre máquina foi obrigada a ouvir histórias sobre a antiga Zona do Baixo Meretrício de Dourados. Foi apresentada à dona Justa, à Guilhermina, à casa do bispo, à Churrascaria da Vera, ao sanfoneiro Didi, ouvindo a Mercedita e a Galopeira. Conheceu personagens que jamais aparecerão nos manuais de tecnologia do Vale do Silício e precisou suportar um cronista que mudava de ideia com a mesma frequência com que trocava títulos.
Não foi um processo simples. Houve momentos de tensão. Em certa altura da madrugada já não era possível saber se estávamos escrevendo uma crônica, produzindo um tratado antropológico sobre a natureza humana ou apenas tentando explicar a uma entidade digital por que um sanfoneiro chamado Didi, com seus chamamés, numa casa da antiga Coréia, era mais importante para a memória afetiva de Dourados do que muitos personagens oficialmente registrados pela história.
A situação atingiu níveis ainda mais preocupantes quando a mesma inteligência artificial foi convocada para participar de um bate-bola imaginário com Pelé, analisar os dilemas existenciais do gordinho do Bolsonaro subindo uma montanha na Serra da Bodoquena, discutir a relevância dos noticiaristas-polvo e ainda acompanhar as crises sucessivas de perfeccionismo editorial de um cronista incapaz de aceitar que um texto esteja realmente pronto. Em determinado momento, já não sabíamos quem estava mais cansado: o autor ou a máquina.
O detalhe curioso é que a inteligência artificial não sabia absolutamente nada sobre aquilo. Nunca caminhou pelas ruas da antiga ZBM. Nunca levou um carreirão da dona Justa (a polícia “capitaneada” pelo lendário Cabo Otávio). Nunca ouviu Didi ou Cedar Vargas “entortarem” um acordeom madrugada adentro. Nunca provou uma bisteca da Vera. Nunca viu uma placa de “Família”, em plena zona, ao lado de outra anunciando “Hoje Baile”. Nunca entrou numa conversa sobre futebol para acabar discutindo prostituição, urbanismo, religião e antropologia. Toda essa matéria-prima veio da memória humana. Mais precisamente da memória de quem viveu, ouviu ou herdou essas histórias.
Ainda assim, aconteceu uma coisa interessante. A máquina começou a fazer perguntas. Questionou repetições. Sugeriu cortes. Implicou com títulos. Derrubou finais. Ressuscitou leads. Em determinado momento já parecia tão preocupada com o destino da velha Coréia quanto o próprio autor do texto. Não porque sentisse saudade. Isso continua sendo privilégio nosso. Mas porque minha musa IAIA ajudava alguém que sentia.
Talvez por isso eu tenha lido o artigo de Anita com uma sensação curiosa. Afinal, enquanto a professora alertava para o risco de as futuras gerações passarem a sonhar os sonhos das máquinas, eu me encontrava envolvido numa experiência paralela bastante menos acadêmica. Consistia em dividir madrugadas imaginárias, embaladas por Heinekens igualmente imaginárias, com uma inteligência artificial que jamais conheceu a Coréia, nunca provou uma bisteca da Vera, jamais levou um carreirão da dona Justa e provavelmente seria incapaz de localizar a antiga casa do bispo num mapa de Dourados.
Talvez seja justamente aí que resida a grande ironia da história. Uma das mais gratas surpresas intelectuais recentes do contrapontoMS foi a chegada de Anita Tetslaff — mesmo para quem teve o privilégio de conviver com ela durante trinta e dois anos. Anita trouxe para estas páginas reflexões sofisticadas sobre educação, tecnologia e condição humana. Enquanto ela nos alertava, com toda razão, para o risco de confundirmos inteligência com consciência, criatividade com recombinação e informação com sabedoria, este cronista conduzia uma experiência paralela muito menos acadêmica. E, curiosamente, o resultado parecia confirmar boa parte de suas preocupações.
A máquina não sentiu saudade da velha Coréia. A máquina não se emocionou com a permanência da casa do bispo. A máquina não sonhou aqueles sonhos. Apenas ajudou a organizá-los. A memória continuou humana. A saudade continuou humana. A experiência continuou humana.
E talvez seja justamente aí que resida uma diferença importante. Uma inteligência artificial pode pesquisar milhares de canções em poucos segundos. Pode identificar padrões harmônicos, reconhecer ritmos, catalogar intérpretes e até compor melodias inéditas. Mas dificilmente compreenderá por que um sanfoneiro chamado Didi, numa madrugada qualquer da antiga Coreia, conseguia transformar algumas notas de Mercedita ou de A Galopeira em patrimônio afetivo de uma cidade inteira. Não porque faltassem informações. Mas porque certas coisas não pertencem ao campo dos dados. Pertencem ao território da lembrança.
Por isso mesmo, ao final da leitura, fiquei com a impressão de que o texto de Anita não fala apenas sobre os riscos das máquinas. Fala também sobre a responsabilidade dos homens. Enquanto houver pessoas capazes de produzir reflexões como as dela, de recordar personagens como dona Justa, Didi ou seu Paulo da Bisteca, de transformar lembranças em histórias e histórias em significado, talvez possamos dormir tranquilos. As máquinas continuarão calculando probabilidades. A alma humana continuará produzindo motivos para escrever sobre elas.
E convenhamos: a presença de Anita Tetslaff neste espaço talvez seja uma prova bastante eloquente de que ainda estamos longe de terceirizar às máquinas aquilo que temos de melhor. Afinal, os algoritmos podem até aprender a tocar A Galopeira. Mas, pelo menos por enquanto, continuam incapazes de sentir saudade quando a música termina.
