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domingo, junho 7, 2026

Parada LGBTQIA+ recoloca política no centro da avenida

Aos 30 anos, a Parada LGBT de São Paulo reforça sua vocação política e lembra que movimentos sociais também disputam poder, representação e votos

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Durante muito tempo, uma parcela da sociedade brasileira insistiu em enxergar a Parada LGBT de São Paulo apenas como uma grande festa a céu aberto. Para alguns, era um carnaval fora de época. Para outros, uma celebração da diversidade. Havia ainda os que preferiam reduzir tudo a uma questão de comportamento, estética ou entretenimento. A edição deste ano, no entanto, parece ter deixado um recado bastante claro: a avenida continua sendo palco de celebração, mas a política voltou a ocupar lugar de destaque no desfile.

Não por acaso, ao completar 30 anos de existência, a principal manifestação LGBT do país escolheu como tema uma frase que dificilmente poderia ser interpretada apenas como convite à diversão: “A rua convoca, a urna confirma”. Não é exatamente um slogan de festa. É uma convocação política. E talvez esteja aí o aspecto mais interessante do evento.

A Parada cresceu. A sociedade mudou. O Brasil mudou. E os movimentos sociais também mudaram. Durante décadas, ocupar as ruas era o principal objetivo. Hoje, para praticamente qualquer segmento organizado da sociedade, ocupar as instituições tornou-se tão importante quanto ocupar as avenidas.

A lógica vale para todos. Os movimentos sindicais descobriram isso há muito tempo. Os movimentos religiosos compreenderam rapidamente. O agronegócio aprendeu. Os ambientalistas aprenderam. Os conservadores aprenderam. Os progressistas também. Todos perceberam que protestar é importante, mas legislar costuma produzir efeitos mais duradouros.

Talvez por isso a edição deste ano tenha chamado atenção até de quem normalmente não acompanha a pauta LGBT. O foco já não estava apenas na afirmação de identidade ou na celebração da diversidade. Havia uma preocupação explícita com representação política, participação eleitoral e ocupação de espaços institucionais.

Não deixa de ser um fenômeno interessante. Durante muitos anos, parte dos críticos da Parada acusava seus participantes de querer transformar comportamento em política. Três décadas depois, a própria organização parece responder que a política sempre esteve presente. Apenas se tornou mais visível.

No fundo, trata-se de um movimento observado em praticamente todas as democracias contemporâneas. Grupos que antes buscavam apenas reconhecimento social passaram a buscar também representação institucional. Não basta mais ser visto. É preciso ser ouvido. E, para isso, muitas vezes é necessário ocupar cadeiras em câmaras municipais, assembleias legislativas, governos e parlamentos.

É curioso observar como a trajetória da Parada acompanha a própria transformação da política brasileira. O país que, nos anos 1990, ainda discutia a simples visibilidade de determinadas pautas é o mesmo que hoje debate representação, participação eleitoral e influência legislativa.

Naturalmente, isso produz reações. Há quem veja nessa evolução um avanço democrático. Há quem enxergue excesso de politização. Há quem prefira manter distância do debate. Faz parte do jogo. A democracia vive justamente desse conflito permanente de ideias, interesses e visões de mundo.

O fato é que a Parada de 2026 parece ter abandonado qualquer ambiguidade sobre sua natureza política. A avenida continua sendo espaço de celebração, música e manifestação cultural. Mas a mensagem enviada ao país foi outra: depois da festa vem a política. E talvez essa seja uma das características mais marcantes do Brasil contemporâneo.

Quase todos os grandes movimentos sociais do país, independentemente da ideologia que professam, chegaram à mesma conclusão. A rua mobiliza. A rede social amplifica. Mas é a urna que distribui poder.

A principal novidade da Parada deste ano talvez não esteja na quantidade de pessoas presentes, nos trios elétricos ou nas atrações artísticas. Está na sinceridade. Depois de três décadas, seus organizadores parecem ter decidido dizer em voz alta aquilo que muitos movimentos sociais já compreenderam há bastante tempo: ocupar a avenida é importante. Mas ocupar espaços de decisão é ainda mais.

E, goste-se ou não da pauta defendida, essa é uma discussão essencialmente política. Porque toda manifestação que sobrevive por trinta anos acaba produzindo algo maior do que uma festa. Produz influência. E influência, em qualquer democracia, sempre acaba encontrando o caminho das urnas.

ContrapontoMS/O Globo

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