Quando ouço alguém afirmar que a inteligência artificial vai revolucionar o jornalismo, a literatura ou a própria criatividade humana, sinto uma estranha sensação de familiaridade. Não exatamente porque a preocupação seja exagerada. Toda revolução tecnológica produz mudanças reais. Mas porque essa conversa me parece velha conhecida. Talvez eu já tenha assistido a esse filme algumas vezes.
Pertencendo a uma geração que viu o jornal nascer literalmente letra por letra, aprendi cedo que as máquinas têm o hábito de chegar cercadas por profecias. Algumas anunciam o progresso definitivo. Outras decretam o fim de profissões inteiras. Quase todas erram em alguma medida.
Quando comecei nesse ofício, as palavras tinham peso. Peso de verdade. O texto era composto em componedores. Cada letra era um pequeno tipo móvel retirado manualmente dos escaninhos organizados em grandes gavetas apoiadas sobre cavaletes. O trabalho exigia paciência, concentração e uma intimidade quase artesanal com o idioma. Não havia teclado. Não havia tela. Não havia corretor ortográfico. Havia chumbo, olhos atentos e dedos acostumados a procurar letras.
As palavras iam surgindo devagar. Depois seguiam para a bolandeira, onde as linhas eram organizadas e a página começava a tomar forma. Dali nascia a chapa que seguiria para o prelo. O fechamento de uma edição não era um comando de computador. Era uma atividade física. Tinha cheiro de tinta, ruído metálico e mãos sujas de trabalho.
Mas o mais curioso é que o serviço não terminava quando o jornal ficava pronto. Terminava quando começava tudo de novo. Depois da impressão vinha a tarefa mais paciente de todas. Era preciso desmontar a página inteira. Palavra por palavra. Letra por letra. Cada tipo móvel precisava voltar exatamente ao escaninho de origem. Um simples erro de distribuição podia gerar confusões na edição seguinte. Havia algo de monástico naquele ritual. Algo que ensinava, sem discursos filosóficos, que toda construção exige organização e que toda criação exige trabalho.
Talvez por isso eu ainda sorria quando ouço alguém falar da inteligência artificial como se fosse a primeira máquina capaz de mudar o mundo. Antes dela vieram muitas outras.
Depois dos componedores da oficina gráfica da folha de dourados, em meados da década de 1970, presenciei, alguns anos mais tarde, já em O Progresso, a chegada das Composer da IBM. Para quem vinha do componedor e da bolandeira, aquelas máquinas pareciam objetos extraterrestres. Havia quem jurasse que nada voltaria a ser como antes. E, em parte, tinham razão. Realmente nada voltou a ser como antes.
Depois chegaram os computadores. Depois a editoração eletrônica. Depois a internet. Depois os portais. Depois os blogs — o que me garantiu uma sobrevida considerável. Daí vieram as redes sociais, com as quais não me dou bem até hoje. Agora, os algoritmos generativos.
Em cada etapa ouvi previsões semelhantes. Anunciaram o fim dos jornais e, consequentemente, dos jornalistas; o fim da leitura, da reflexão e da escrita.
Curiosamente, o que desapareceu não foi exatamente aquilo que os profetas imaginavam. Os jornais mudaram. As redações mudaram. Os leitores mudaram. As ferramentas mudaram. Mas a necessidade humana de transformar experiência em narrativa continuou exatamente onde sempre esteve.
Toda essa retrospectiva e o vislumbre de novos tempos vêm a propósito de uma experiência que, para mim, continua quase inacreditável: as facilidades proporcionadas por uma inteligência artificial que me encanta e até me espanta a cada dia, a cada nova publicação, seja informativa, editorial ou crônica, gênero em que me sinto mais à vontade.
Crônicas como a mais recente, sobre a velha Coréia de Dourados, onde funcionava a familiar Churrascaria da Vera, onde seu Paulo se notabilizou por passar na chapa a bisteca que ficou famosa. Não apenas pelo paladar, mas pela inusitada vizinhança com as casas ditas “de tolerância”, a cem metros da casa paroquial onde morava Dom Theodardo Leitz, talvez o bispo mais polêmico dos que passaram por Dourados.
Só há uma coisa que a inteligência artificial, aqui já consagrada como minha musa digital, a IAIA (Inteligência Artificial Insubordinada e Antenada), não possui: a memória. Essa Coréia não é dela. Aquela saudade do Didi com seu acordeom também não. É tudo observação, vivência e lembrança humana.
Talvez seja justamente aí que esteja a diferença que realmente importa. Uma inteligência artificial pode pesquisar milhões de documentos em segundos. Pode reconhecer padrões. Pode reorganizar informações. Pode sugerir caminhos. Mas não viveu a história. Não carregou a lembrança. Não sentiu a saudade. E isso faz toda a diferença.
Ao longo da vida vi muitas máquinas chegarem. Algumas transformaram completamente a forma como trabalhamos. Outras desapareceram quase sem deixar vestígios. Mas todas tiveram algo em comum. Nenhuma substituiu a necessidade humana de atribuir significado ao mundo. Porque o verdadeiro trabalho nunca esteve na ferramenta. Sempre esteve na interpretação, na observação, na memória, na capacidade de transformar acontecimentos em histórias.
Talvez por isso eu receba as novas tecnologias com curiosidade em vez de pânico. Quem já distribuiu tipos móveis em escaninhos depois da impressão de um jornal aprende que as ferramentas mudam muito mais rápido do que os seres humanos. E aprende também uma lição simples. As máquinas chegam. Sempre chegam. O desafio nunca foi impedir sua chegada. O desafio sempre foi continuar sendo humano depois que elas chegam.
