A profissão que já foi considerada curva de rio, toma um novo rumo. O dado mais alarmante não é o altíssimo índice de desejo de desistência entre os atuais professores (79,4%), mas sim o deserto de vocação entre os mais jovens. O relatório “Education at a Glance”, da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), já indicava que o piso salarial do professor do ensino fundamental no Brasil é o mais baixo dentre 40 nações, amargando o último lugar no ranking global. Esta desvalorização financeira é um dos pilares da crise, mas não é o único.
De acordo com um estudo do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) intitulado “Carência de professores na educação básica: risco de apagão”, a falta de docentes não se deve à insuficiência de vagas em cursos de licenciatura, mas sim à baixa atratividade da carreira. A consequência direta é a evasão nas licenciaturas que ultrapassa os 50%, chegando a 62% nas áreas de exatas, justamente onde o futuro déficit será mais agudo. Entre 2009 e 2021, o número de professores com menos de 24 anos caiu 42%, enquanto o de docentes acima de 50 anos aumentou 109%. A base encolhe, o topo envelhece, e a reposição não acontece.
Enquanto os dados macroeconômicos e demográficos desenham o contorno da crise, são os relatos dos professores que preenchem esse retrato de forma dolorosa. Em entrevistas e grupos focais realizados no âmbito da pesquisa do Instituto Semesp, docentes de todas as regiões do Brasil descrevem um cotidiano de esgotamento que transcende a planilha salarial.
“Eu não aguento mais trazer trabalho para casa aos fins de semana e ainda ouvir que sou privilegiado por ter férias”, relatou uma professora do ensino fundamental da periferia de São Paulo. “Meus alunos de 15 anos me perguntam por que eu escolhi isso. E eu já não sei mais responder.” A sobrecarga emocional, alimentada por violência verbal e física dentro das escolas, cobrança por resultados sem apoio institucional e a sensação de terem se tornado “pais de alunos problemáticos” sem respaldo legal ou psicológico, aparece como o principal vetor de desistência.
Um dado da Fapesp corrobora essa percepção: os índices de burnout entre docentes brasileiros estão entre os mais altos do mundo, com prevalência estimada em 30% a 40% da categoria, números comparáveis a profissionais de saúde em zonas de guerra. Um professor de matemática do Rio de Janeiro, com 12 anos de carreira, resume em depoimento coletado por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense o que muitos sentem: “O que me fez pensar em desistir não foi o salário, embora ele seja vergonhoso. Foi a solidão. Você chega na sala, dá aula para 40 alunos, cinco deles te xingam, dois te ameaçam, a direção não toma providência e a secretaria de educação diz que é ‘problema de gestão de sala'”.
A médica psiquiatra e professora titular da UFGD, Elisabete Castelon Konkiewitz, publicou em seu canal no YouTube uma avaliação contundente sobre o ambiente escolar atual. “Estou convicta de que a escola é o pior lugar para uma pessoa trabalhar”, afirma. Entre os fatores apontados estão o “desempoderamento do professor”, a perda de instrumentos disciplinares, o excesso de burocracia, ambientes físicos precários, conflitos interpessoais e o aumento do adoecimento emocional entre educadores. Segundo ela, muitos professores chegam aos consultórios traumatizados e esgotados. A crise do magistério é, cada vez mais, uma crise de saúde pública.
A pesquisa do Inep também aponta que a falta de reconhecimento social emerge como fator crítico em que 84% dos docentes ouvidos afirmam que a profissão perdeu prestígio nas últimas duas décadas. Muitos relatam que desestimulam ativamente filhos e parentes próximos a seguirem a carreira, um comportamento que os pesquisadores chamam de “ciclo de reprodução do desencanto”, acelerador silencioso do apagão docente.
Outro ponto central, e controverso, é a política de inclusão irrestrita. O argumento de que alunos com deficiências severas, transtornos globais do desenvolvimento ou altas habilidades deveriam frequentar escolas de educação especial, em vez de classes regulares sem suporte adequado, é frequentemente levantado por docentes como um fator de sobrecarga extrema. A falta de formação específica e de profissionais de apoio transforma o ideal da inclusão em mais um fardo para o professor exaurido.
Enquanto a valorização continuar restrita a discursos vagos, sem enfrentar a equação entre salário digno, condições de trabalho humanas, reconhecimento social e políticas efetivas de saúde mental, o país caminhará para um apagão docente que não será um evento súbito, mas uma erosão lenta da qualidade do ensino básico. A pergunta que fica, nas palavras do estudo do Inep, é se estamos a tempo de reverter essa tragédia anunciada pela baixa atratividade da carreira antes que as salas de aula se esvaziem de quem deveria estar nelas, os próprios professores.
Anita Tetslaff – Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.
